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Full text of "Resumo da historia do Brasil até 1828"

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HISTORIA    DO  BRASIL, 


<j 


DA 


HISTORIA   DO  BRASIL 


ATÉ  1828, 


Ht0  íre  3auetr0, 

ÍÍA  TYPOGRAPHIA  DE  GUEFFIER  E  C? 

RUA  BA  QUITANDA  ,  79. 

1831. 


eu 

«Cf.  <  ®xc.  Sínr.  e<wwt 
Antonio  iííanufl  Ira  Sttorira  t  Santpata, 

o.  ,,<&.«?  C. , 


g-    £   Do  91 


©  original  íf esta  ©bra  \)é  por  t>e?es  ine- 
xacto; nos  trabalhamos  para  que  a  traírur- 
cao  o  noa  fosse,  doiras  as  paesaflene  que 
aqui  se  act)arem  nas  primeiras  épocas,  es- 
trancas  ao  Hcsumo  Svance^  esiao  em  D,  te 
(6ar?,  ttoel)a  pita,  JHatec  te  Deos,  Slgrrs 
te  Ca?al,  Cery,  ou  Soutljey. 

©uanto  á  parte  contemporânea  que  nos  í>i? 
respeito^  Umitamo-nos  a  pura  e  ingénua  ex- 
posição tes  factos ,  por  assim  0  exigir  a 
plano  ÍTeste  Cpitome* 


t$nw 

DA 

HISTORIA    DO  BRASIL. 

ÔS©©£©Q3©QS©£©QGQ©Q9G«OQQ©£>©QQ<£©9®3G© 

PRIMEIRA  ÉPOCA. 

€>  0ra$il  antes  íra  ronquista» 

  / 

He  huma  verdade  infelizmente  incontestá- 
vel, que,  a  toda  a  parte  onde  os  Europeos 
tem  levado  suas  conquistas,  as  Nações  sel- 
vagens tem  rapidamente  diminuido.  Não 
são  somente  as  guerras ,  que  tem  extermi- 
nado os  Indígenas  do  Novo  Mundo  ,  he 
preciso  contár  entre  as  causas  da  sua  ruina, 
as  moléstias  importadas  por  nós ,  e  a  escra* 

2 


ÍO 

vidão,  a  que  elles  tem  por  tantas  vezes  pre- 
ferido a  morte. 

Paw  disse :  «  Nada  mais  existe  da  antiga 
America ,  do  que  o  céo,  a  terra,  e  a  dolorosa 
memoria  das  suas  espantosas  desgraças.  » 
Esta  frase  contém  em  poucas  palavras  a  His- 
toria de  muitos  milhões  de  homens.  As  gran- 
des Nações  que  existião  na  época  da  conquista, 
sc  tem  extinguido,  eas  fracas  Tribus  de  quem 
se  desprcsou  a  aliiança  sobreviverão  :  a  civi- 
lisação  destruio  as  primeiras,  a  natureza  sel- 
vagem conservou  as  outras  para  nos  offere- 
cerem  huma  evidente  prova  de  que  se  não 
deve  fazer  passar  immediatamente  hum  Povo 
do  estado  inculto  aos  nossos  hábitos  sociaes, 
bem  como  se  não  pode  de  hum  salto  fazer 
retrogradar  as  Nações.  Nos  séculos  futuros  se 
estudará  talvez  com  mais  interesse  do  que  no 
prezente  a  Historia  dos  Americanos,  porém 
o  complexo  de  documentos  contraditórios  que 
surguáõ  espalhará  grande  obscuridade  sobre 


tempos  aliás  pouco  remotos  :  he  pois  interes- 
sante recorrer  actualmente  ás  verdadeiras 
origens,  e  conservar  com  escrupulosa  exac- 
tidão os  principaes  vestigios  das  Hordas  in- 
dígenas ,  com  especialidade  d  aquellas  que 
tem  cessado  de  existir. 

A  Nação  dos  Tupis ,  depois  de  ter  ven- 
cido a  dos  Tapuyas,  extendeo  antigamente 
o  seu  Império  sobre  a  maior  parte  das 
costas  do  Brasil  e  da  Guyana  \  he  provável 
que,  em  sua  origem,  esta  Nação  provies- 
se dos  Povos  bellicosos  do  Paraguay  onde 
hum  a  Povoação  inteira  conserva  o  nome  pri- 
mitivo que  se  modificou  segundo  as  Tribus. 

Bem  como  em  outro  tempo  se  vio  na 
Europa,  o  Norte  enviar  innumeraveis  Le- 
giões sobre  os  Estados  do  Meio  Dia  ,  o  Sul 
de  America  Meridional  fornecco  novos  ha- 
bitantes as  férteis  regiões  que  se  aproximao 
da  Equinocial.  Os  conquistadores  depois  de 


terem  expellido  para  o  interior  do  paiz  os 
outros  habitantes,  se  devidiráo  em  Tribus : 
a  dos  Tupinambds  hera  a  mais  celebre.. 

En-eontrão-se  ,  com  pouca  diíFerença  os 
mesmos  usos  e  costumes  na  maior  parte  das 
Tribus:  todas  manifestao  huma  propensão 
decidida  para  a  vida  errante  ,  e  a  desejo 
de  perfeita  independência  :  por  toda  a  parte 
se  achão  provas  irrefi  agaveis  de  que  o  estado 
selvagem  em  que  vivião  estes  Povos  reunia 
vantagens  que  a  eivilisação  só  pode  ofíerecer 
xio  fim  de  muitos  séculos. 

Apesar  de  mao  serem  agrícolas ,  os  Tupis 
se  dav~o  á  cultura  de  certos  vegetaes.de  re-* 
conhecida  utilidade  :  a  mandioca  e  as  ba-^ 
tatás  cresci ií o  em  abundância  nas  visinhan- 
ças  de  suas  habitações ;  he  porem  certo  que 
as  colheitas  nao  pertencido  exclusivamente 
a  ninguém,  O  producto  da  caça  e  da  pesca 
hera  a  base  do  nutrimento  de  todas  as  farmV 


x3 

lias.  He  provável  que  a  maior  ou  menor 
abundância  de  caça  em  hum  lugar  deter- 
minasse a  duração  da  residência  5  com  tudo 
acontecia  que  a  morte  de  alguns,  ou  o 
capricho  dos  Feiticeiros ,  operava  esta  mu- 
dança j  ent~o  transportavão  a  muitas  legoas 
o  pequeno  numero  de  cabanas  que  compu- 
nha a  Aldèa. 

Estas  habitações  se  construi  Ho  rapida- 
mente ,  porque  em  toda  a  parle  se  eneon- 
travão  taquáras  e  coqueiros  ,  para  formarem 
as  paredes  e  os  tectos.  Muitas  familias  se 
reunilo  na  mesma  cabana ,  porém  isto  nlo 
significa  communidade  absoluta  de  bens; 
cada  hum  tinha  o  seu  arco,  sua  rêde,  suas 
flechas,  seu  alfange  de  páo  ,  e  seus  diversos 
ornamenlos  de  primas  quasi  sempre  resul- 
taJo  da  industria  das  mulheres. 

Nos  lugares  onde  se  podia  temer  a  in- 
vasão inimiga,  as  Aldèas  herão  fortificadas 


M 

por  meio  de  pallissadas.  \è-se  na  antiga 
viagem  de  Hans-Stade A  que  estas  defesas, 
nem  sempre  os  punhão  ao  abrigo  da  furor 
dos  inimigos,  que  incendiarão  as  habitações 
lançando  sobre  ellas  flechas  guarnecidas  de 
algodão  inflamado^  Não  se  sabe  com  tudo,, 
se  foi  á  vista  das  armas  de  fogo  que  os 
Cabocolos  deverão  esta  idéa,  ou  se  ao  en- 
genho inventivo  de  destruição,  tão  natural 
ao  homem.  As  proximidades  das  fortifica- 
ções herão  defendidas  por  meio  de  fojos. 

Eis  o  que  temos  a  dizer,  respeito  aos  meios 
de  subsistência ,  e  recursos  defensivos  destes 
Povos :  passemos  agora  a  tratar  da  Religião, 
e  forma  de  Governo  adoptados  por  elles. 

Os  Indígenas  do  Brasil  reconhecião  a 
existência  de  hum  bom,,  e  de  hum  mão 
principio  :  Deos  se  lhes  manifestava  pelo  es- 
trondo do  trovão.,  e  não  herão  isemptos  do 
temor  do  Anhangá ,  ou  espirito  maligno. 


i5 

He  de  toda  a  incerteza  que  fizessem  sacri- 
fícios á  Divindade,  porem  sabe-se  que  jul- 
gavâo  aplacár  o  Génio  malfazejo,  collocando 
sobre  os  túmulos  de  seus  maiores  muitos 
alimentos,  e  bebidas  fermentadas.  Segundo 
huma  antiga  tradição,  existião  em  algumas 
Aldeãs,  Templos  onde  se  adorava  o  Mara- 
cá.  Este  instrumento  sagrado,  ainda  hoje 
em  uso,  se  compunha  de  huma  coloquíntida 
cheia  de  seixinhos  ou  grãos  seccos,  e  armada 
de  hum  cabo  de  páo,  com  o  qual  a  agi- 
tava o  os  Feiticeiros  ,  espécie  de  sacerdotes 
conhecidos  pelo  nome  de  Pdgés  ,  cujas 
funeções  não  varião  em  toda  a  costa  doesta 
porção  da  America  ,  e  que  se  eneontr-r 
sempre  com  o  Maracá ,  emblema  de  seus  po- 
deres. Antes  de  receberem  as  dlstmcçces 
do  poder  sacerdotal,  passavão  pelas  mais 
terriveis  provas  :  durante  muitos  annos  se 
lhes  impunha  tão  rigorosa  abstinência,  que 
muitas  vezes  a  morte  os  privava  de  gosa- 
rem  do  fim  dos  seus  trabalhos.  A  Historia 


nos  conserva  parte  dos  usos  exteriores  cFes« 
tas  iniciações  *,  porém  mais  interessante 
seria  conhecer  as  convenções  particulares 
dos  Págés  ,  que  tinhâo  por  fim  illudír  os 
Selvagens  seus  compatriotas  \  este  segredo 
foi  tão  bem  guardado ,  como  os  dos  Povos 
mais  civilisados  da  antiguidade;  sò  se  pode 
assegurar  que  em  toda  a  parte  onde  os 
Págés  estabelecia©  o  Mara  cá,  lhe  vinhâo 
trazer  numerosas  offrendas.  Estes  homens 
herâo  quem  nas  épocas  mais  criticas  in^ 
fundião  nos  guerreiros  o  esforço  3  e  a  cons- 
tância :  nestas  occasiões  excluião  as  mu-. 
Iheres  da  cabana  onde  se  ajuntava  o  con- 
selho ,  executavão  algumas  danças  lentas  e 
misteriosas  ,  e  recebiâo  successivamente  o 
fumo  do  petuma^ 

Hera  tal  a  influencia  dos  sacerdotes  sel- 
vagens ,  que  os  infelizes  que  incorriâo  na 
sua  indignação,  julgavão  não  poder  sub-, 
trahir-  se  á  morte  5  e  allucinados  pelas  terri- 


i 


veis  sentenças  dos  Págés  ,  se  abandonarão  á 
desesperação,  e  apprcssavão  em  realisár  taes 
imprecações.  Por  islo  se  pode  fazer  per- 
feita idéa  do  ascendente  que  tinhuo  estes 
entes  poderosos  sobre  o  estado  social  dos 
Indígenas  Brasileiros.  0  Povo  se  persuadia 
que  assim  como  elles  tinhlo  o  poder  de  dár 
a  morte  só  com  palavras ,  também  da 
mesm'arte  podíâo  restituir  á  vida  :  por 
isso  os  chamavuo  para  cuidarem  dos  en- 
fermos mais  perigosos*,  e  ainda  que  os  moios 
que  empregavâo  os  Págés  para  os  curativos, 
thessem  mais  ou  menos  relação  com  as  frí- 
volas práticas  da  mágica  ,  elles  nao  herão 
totalmente  estranhos  ao  conhecimento  das 
propriedades  de  algumas  plantas  ,  sendo 
com  tudo  as  curas  que  efíeituavâo ,  attri- 
buidas  mais  ao  poder  sobrenatural  de  que 
os  suppunháo  dotados,  do  que  a  este  co- 
nhecimento. 


Os  Págés  não  tinhão  grande  influencia 


i8 

no  governo,  o  qual  hera  extremamente 
simples,  e  se  encontra  idêntico  em  todas 
as  Tribus,  Cada  Aldêa  tinha  hum  Chefe 
civil  cuja  authoridade  se  limitava  á  de 
aconselhar;  este  foi  em  todos  os  tempos 
o  direito  da  velhice  ,  por  isso  estes  Chefes 
lierâo  de  idade  avançada,  representando 
hum  pai  de  familia  no  meio  de  seus  filhos  x 
Levy  lhes  dá  este  titulo. 

Com  effeito,  em  Aldeãs  pouco  povoadas 9 
como  as  dos  Americanos,  todos  deviao  a?har- 
se  mais  ou  menos  ligados  de  parentesco. 

Havia  entre  os  Tupis  o  uso  dos  grandes 
conselhos,  onde  se  fumava,  como  entre  os 
Americanos  do  Norte  ,  o  cachimbo  da  paz ; 
aií  se  diseutiáo  os  negócios  importantes  e  de 
interesse  geral. 

Para  ser  admittido  no  corpo  dos  guerrei- 
ros, hera  preciso  submetter-se  a  provas  rigo» 


*0 

rosas,  ainda  qtie  menos  do  que  as  dos  Pages. 
Os  combatentes  nomearão  o  Chefe  que  os 
condusia  á  peleja  ;  a  experiência  das  guer- 
ras precedentes  os  guiava  na  escolha.  A  au- 
thor idade  do  General  cessava  com  a  guerra. 

O  valor  não  hera  só  suííiciente  para  coin- 
mamar  eslas  falanges  ,  muitas  vezes  se  tor- 
nava indispensável  usar  de  talentos  militares, 
fructos  da  reflexão  e  experieneia. 

As  guerras  não  se  fazião  sempre  como 
entre  as  Nações  modernas  ,  onde  a  victoria 
pertence  por  excellencia  á  estratégia  :  em- 
prcgavão-se  todos  os  meios  de  surprender  o 
inimigo,  mas  davão-se  batalhas  campaes 
repetidamente ,  cujos  choques  herão  terríveis. 
Se  os  assaltantes  herão  repellidos  no  ataque 
de  alguma  Aldèa  fortificada  ,  praticava© 
hum  sitio  regular ,  isto  he ,  formavãa  a 
certa  distancia  ,  com  ramos  flexíveis,  hum 
elevado  parapeito  ,  d'onde  podessem  lançar 


20 

as  flechas  sobre  o  inimigo ,  e  interceptar- 
lhe  a  passagem  tios  Tiveres  ;  porem,  como 
geralmente  lhes  faltava  a  elles  mesmos  as 
munições  necessárias  ,  todas  as  operações 
se  termina  v?io  de  prompto,  acontecendo  que 
o  sitiante  ,  achando  -  se  cercado  em  suas 
próprias  obras ,  deixava  grande  numero  dos 
seus  em  poder  do  inimigo.  O  Oceano  hera 
mui  frequentemente  o  lheatio  das  proêsas 
dos  Tupinambás^  e  aqui  se  exigia  ainda  mais 
habilidade  da  parte  do  General.  Numerosas 
pirogas  construídas  de  hum  só  tronco  for- 
ma  vão  as  forças  navaes  desta  Nação. 

Não  devemos  deixar  em  silencio  hum 
riso  com n ui m  á  maior  parte  dos  Povos  da 
America  ,  e  tão  notável  como  o  do  sacrifício 
dos  prisioneiros  ,  e  dos  repugnantes  festins 
em  que  estes  miseráveis  servião  de  pasto  a 
seus  rivaes  \  porem  se  os  Povos  anthropo- 
phagos  horrorisão  os  Furopeos,  quanto  mais 
horror  não  deve  excitar -lhes  a  lembrança 


31 

cios  enormes  crimes  a  que  esta  barbaridade 
sérvio  de  excusa. 

E*tes  homens,  que  t~o  cruéis  nos  pintao, 
dav~o,  lie  verdade,  a  morte  a  alguns  pri- 
sioneiros :  pratica  a  que  se  julgav~o  autho- 
risados,  porque  seus  maiores  havifio  recebido 
Í2,uaes  tormentos  do  inimigo  cm  semelhantes 
occasices  ;  a  estupidez  lhes  nno  deixava  ver 
o  horror  da  vingança,  mas  esta  vingança 
hei  a  prompta,  nlo  tinhao  inventado,  eomo 
os  que  se  jactão  de  serem  civilisados,  pri- 
sões  subterrâneas,  masmorras  negras  e  em- 
pestadas,  ontle  se  respira  o  horror  do  eapti- 
veiro  e  o  desejo  da  morte.  Entre  os  Tupis, 
o  prisioneiro  destinado  ao  sacrifício  gosava  até 
aos  últimos  instantes,  dos  praseres  da  vida, 
só  esta  lhe  era  exigida,  e  n~o  querido  que 
elía  o  abandonasse  entre  pungentes  sofri- 
mentos. Os  vencedores  lhe  escolhi  o  nos  pri- 
sioneiros huma  esposa  entre  as  donzelias  mais 
dislinctas  cm  belleza.  Esta  escravidão  que 


Iâ2 

devia  terminar  de  hunia  maneira  tão  trágica 
durava  ordinariamente  mezes,  e  se  prolon- 
gava algumas  occasões  a  annos  inteiros.  Co- 
mo o  sacrificador  gosava  de  particular  con- 
sideração, muitos  guerreiros  reservavão  esta 
honra  para  seus  filhos,  e  esperavão  que  elles 
chegassem  a  estado  de  se  encarregar  da  exe- 
cução. 

Depois  d'este  acto ,  o  sacrificador  mudava 
de  nome,  e  praticava  na  perna  huma  pro- 
funda incisão*,  singular  ferrete  de  huma  no- 
hresa  de  nova  espécie  ,  mormente  não  se 
tendo  o  algos  exposto  a  a  poderá  r-se  do  pri- 
sioneiro no  combate. 

Bem  que  em  quasi  toda  a  America  se  ob- 
serve pouca  difíerença  nas  ceremonias,  quan- 
do a  NaçHo  se  reúne  para  immolar  huma  vie- 
tima ,  os  usos  dos  Cabocolos  em  geral  herão 
menos  cruéis  que  os  de  muitos  outros  Povos, 
que  insultavâo  e  mutiiavâo  os  prisioneiros 


23 

antes  de  lhes  dár  a  morte,  o  que  estes  sé 
faziâo  aos  Págés  inimigos. 

O  estabelecimento  dos  Portuguezes  no 
Brasil  produsio  grande  mudança  na  sorte  dos 
que  cahiâo  nas  mãos  do  inimigo ;  os  Selva- 
gens pi  eferião  vendel-os  como  escravos ,  á 
odiosa  satisfação  de  saciar  n'elles  a  raiva  con- 
tra outra  Tribu :  d'isto  mesmo,  porém,  re- 
sultou nova  desgraça^  consequência  inevitável 
do  deshumano  tráfico  da  escravatura  :  as 
guerras  se  multiplicarão,  tornando-se  mais 
destructivas. 

As  transmigrações  d'cstes  Povos,  suas  der- 
radeiras guerras,  e  em  fim  sua  quasi  total 
aniquilação,  eis  o  que  importa  moslrár  em 
summario,  tratando  de  algumas  Tribus  im- 
portantes de  que  não  temos  ainda  fallado. 

Os  Tapuyas,  expulsos  por  toda  a  parte  do 
território  que  anteriormente  oceupavao,  pro- 


curarão  hum  asilo  no  interior  do  paiz;  os 
matos  virgens  não  poderão  ainda  subtrahil-os 
ás  perseguições  dos  Selvagens  conquistadores, 
e  ,  só  oppondo  o  mais  decidido  valor  aos  fu- 
rores do  terrível  inimigo,  escaparão  em  parte 
ao  captiveiro,  ou  á  mor  te.  Este  Povo,  que  em 
outro  tempo  tinha  formado  grande  numero 
de  Nações  poderosas ,  se  achou  disperso ,  e 
por  consequência  fraco. 

Ainda  que  os  Tapuyas  tivessem  alguma  se- 
melhança  com  os  Tupis,  se  accreditâmos  hum 
antigo  manuscripto,  differião  d'elies  na  lin- 
guagem, e  em  muitos  costumes}  passa  por 
certo  que  não  sacrificavão  os  prisioneiros,  o 
que  os  usos  das  Tribus  existentes  parecem 
desmentir. 

Pouco  depois  da  derrota  dos  Tapuyas,  as 
Hordas  que  se  Unhão  reunido  contra  elles,  se 
dividirão,  e  tornarão  inimigas  capitães.  A 
Historia  menciona  os  nomes  das  principaes 


25 

Nações  Tupis,  ao  passo  que  indica  algumas 
de  suas  guerras,  muitas  vezes  funestas  aos 
Europeos.  Os  Tupinambds,  Tupinacs,  e  os 
Tupininquins ,  herão  as  tres  principaesj  po- 
dem-se  depois  ad-miltir  os  Tamoyos^  Càhetès  5 
Amapiras^  etc.  Muitas  Nações  estabelecidas 
nas  visiiihanças  destas,  não  pareciao  per- 
tencer á  raça  dos  Tupis,  nem  á  dos  Tapuyas, 
talvez  fossem  restos  dos  mais  antigos  habi- 
tantes, ou  que  proviessem  de  outros  do  inte- 
rior, d'onde  tivessem  sido  expulsas.  Hum 
sábio  Alemão  observou  muitas  destas  Tribus 
no  Perú  ,  c  assegura  que  algumas  adoravão  o 
sol  *,  entre  estes  se  devem  contar  os  temiveis 
Ubirajarás,  que  viviao  no  centro  da  Provin- 
da da  Bahia,  e  que  não  entendiâo  a  lingua- 
gem de  nenhum  dos  seus  visinhos. 

As  tradições  incertas  das  Tribus  conquis- 
tadas pelos  Portuguezes,  são  fraco  soccorro 
para  a  Historia;  com  tudo  ellas  nos  tem 
guiado,  e  nos  servirão  ainda  na  exposição  das 

4 


26 

gn prras  que  sustentarão  os  indígenas.  He  jâ 
diííicil  estabelecer  de  huma  maneira  incon- 
testável o  lugar  do  domínio  de  cada  Povo  por 
occasião  da  descoberta ,  e  quasi  impossível 
fazel-o  para  épocas  anteriores.  Nos  procura- 
remos com  tudo ,  dizer  o  que  há  de  mais  certo 
a  este  respeito  5  começando  pelo  Sul., 

Os  Carijós  i  que  se  julga  terem  pertencido 
á  grande  Nação  dos  Guaranys  do  Paraguay, 
forão  sem  custo  conquistados,  e,  como  mais 
dispostos  a  adoptar  a  vida  agrícola ,  muito 
úteis  aos  Colonos  de  S.  Vicente.  Os  Povos  sel- 
vagens dos  arredores  os  despresavao  como 
cobardes.  Elíes  não  tardarão  em  alliar-se 
com  os  conquistadores  \  nos  sertões  do  Brasil 
se  encontrão  ainda  muitos  mestiços  que  del- 
les  descendem ,  ainda  que  a  família  primi- 
tiva esteja  ex  tine  ta. 

Os  Tamoyos  herao  senhores  de  toda  a  costa 
comprehendida  entre  o  Cabo  de  S.  Thoméj 


27 

e  Angra  dos  Reys  ,  e  ainda  que  os  mais 
hábeis  na  arte  de  fortificar,  for3o  primei- 
ramente expellidos  para   o  interior  pelos 
Goaytacascs  ;  mas  voltando  logo  as  margens 
do  Oceano  ,   os  Portuguezes  os  destruirão, 
completamente.  Seus  primeiros  inimigos  não 
tiverHo  melhor  sorte;  vencidos  em  difíeren- 
tes  combates,  forno  obrigados  a  dispersar-se, 
e  na  extramidade  da  Província  do  Rio  de  Ja- 
neiro, existem  ainda  fracos  restos  de  suas 
Tribus,  com  o  nome  de  Coroados ,  os  quaes 
vivem  em  plena  paz  com  os  Brasileiros,  bem 
que  conservando  huma  parte  dos  antigos 
usos.  Os  Goaytacascs  sHo  talvez  os  nnicos, 
Cabocolos  que  deixassem  monumentos  capa- 
zes de  excitar  a  curiosidade  dos  Antiquários; 
elles  enterravao  seus  guerreiros  em  grandes 
vasos  de  ar gi lia,  e  em  diíferenléi  occasiões  > 
se  tem  descoberto  muitas  destas  sepulturas. 


Nao  fatiaremos  dos  Goayanases ,  que  forao 
aniquilados,  ou  que  se  unirão  a  outros, 


28 

porque  a  Naçlo  n~o  hera  assaz  considerável 
para  poder  resistir  as  forças  dos  Euiopeos,  e 
dos  Selvagens  com  quem  tinhão  guerra. 

Nao  pode  deixar  de  surprender  que  bum 
Povo  como  o  Tupinambá  n~o  deixasse  ves- 
tígio algum  na  Província  do  Rio  de  Janeiro, 
o  que  prova  que  na  emigração  geral ^  as 
Tribus  re  reunirão.  Nos  indicaremos  as 
causas  d'esta  unanimidade  ,  táo  notável  entre 
hum  Povo  numeroso,  fatiando  dos  indígenas 
de  S.  Salvador. 

Os  Tupininquins ,  e  os  Tupinaes,  formava© 
antigamente  hum  a  só  Nação  :  por  isso,  ha-r 
Li t  indo  ambos  huma  parte  da  costa  entre  Rio 
de  Janeiro  e  Bahia,  e  tendo  diversos  iate? 
9  resses,  jamais  se  vio  a  guerra  entre  elles.  Fo- 
rao  os  Tupininquins  que  acolherão  o  AlmU 
ranle  Cabral  ^  e  parece  que  mal  recompensa- 
dos for  lo  de  sua  hospitalidade ;  porque  algum 
tempo  depois  do  estabelecimento  dos  primei- 


29 

ros  Portuguezes  ,  abandonarão  a  costa  ,  e  se 
refugiarão  nos  maios  que  cobrem  este  deli- 
cioso território. 

Todos  os  recursos  offerecklos  pela  natureza 
sho  mesquinhos  para  hum  Povo  selvagem  , 
cuja  industria  n~o  cresce  na  razão  das  neces- 
dadesj  he  provável  que  os  Tupininquins  ti- 
rassem grande  partido  da  pesca,  extrema- 
mente abundante  n'estas  paragens,  c  que  este 
fosse  o  motivo  que  os  indusio  a  vir  habitár 
á  beira-mar  *,  porem  ,  talvez  nlo  fugindo 
aos  bosques,  tivessem  evitado  participar  da 
sorte  cruel  dos  Portnguezes ;  a  feroz  Naçlo 
dos  Âymorcs  desceo  do  interior  ,  e  destruio 
sem  distincçlo  Furopeos ,  e  Americanos.  Fal- 
la-se  com  raz"o  dos  serviços  que  os  Tupinin- 
quins prestarão  aos  Portuguezes  ;  elies  se 
subnettei  ào  á  civil  is açTio  ,  e  se  distinguirão 
pela  doçura  de  seus  costumes ;  a  sua  existência 
actual  he  miserável.  Os  Tupinaes  formarão 
provavelmente  nova  aliiança  com  esta  Nação, 


3o 

Depois  que  os  Indígenas  Brasileiros  se  mio 
pedem  glorificar  do  titulo  sagrado  cTinde- 
pendentes,  juntarão  suas  desgraças,  er  em 
pouco,  a  palavra  Americano  bastará  para 
designar  muitas  raças  r  que  em  outro  tempo 
forâo  inimigos  irreconciliáveis* 

Os  Aymores,  que  adquerirao  Ho  funesta 
celebridade,  só  apparecerão- na  costa,  muito 
tempo  depois  do  descobrimento.  Pensa  -  se 
geralmente  que  este  Povo  descendia  de  hum  a 
Tribu  de  Tapuyas,que  destacada  nas  solidões, 
do  interior,  tinha  perdido  as  mesmas  gros- 
seiras artes  de  seus  ascendentes.  Os  próprios 
Selvagens  os  olhuvHo  como  a  irracionaes,  por 
ignorarem  a  maneira  de  construir  huma  ca- 
bana ,  e  nao  saberem  adornar-se  com  as  ricas 
plumas  cujo  uso  se  encontrava  em  todas  as 
outras  Tribus.  Elles  tinhâo  ainda  outro  ca- 
racter mais  distincto  ,  que  consistia  no  in-- 
vencivel  temor  da  agoa  ,  o  que  os  impedia 
de  perseguir  o  inimigo,  quando  este  trans- 


3i 

punha  hum  rio,  ou  hum  lago.  Esta  circuns- 
tancia nos  parece  attestar  que  os  Ay mores 
provinhâo  das  Hordas  habitantes  das  áridas 
planices  de  Pernambuco ,  Ceará  ,  e  Piauhy ; 
pois  que  hum  Povo  bárbaro  que  habita  as 
margens  dos  rios,  não  deve  ignorar  muito 
tempo  a  arle  de  nadár.  Os  Aymores  fazião 
mais  uso  da  carne  humanado  que  os  anthro- 
póph.igos  de  que  temos  fallado,  e  a  conser- 
va vão  como  qualquer  outro  nutri  mento,  sem 
a  isso  juntarem  idra  alguma  de  vingança. 
Elles  assolarão  Porto  Seguro,  e  Ilheos,  a  ponto 
de  obrigarem  todas  as  fazendas  a  cessar  seus 
trabalhos,  pela  absoluta  falia  de  escravos; 
avalia-se  em  300  Colonos,  e  3,000  Indígenas 
e  Negros,  o  numero  dos  mortos.  Os  Aymores 
forâo  depois  batidos  e  dispersos;  dos  restos 
doesta  raça  procedem  os  Botocudos,  que  per- 
correm as  margens  dos  rios  Doce,  e  Bel- 
monte ,  alguns  em  paz  com  os  Brasileiros. 

Os  Papanases  se  estabelecerão  antigamente 


32 


entre  Porto  Seguro  e  Espirito  Santo*,  mas, 
os  Tupininquins,  e  os  Goaytacases,  lhe  fize- 
rao  tão  cruel  guerra,  que  os  forçarão  a  ga- 
nhar o  interior,  onde  vivem talvez  com 
differente  nome. 

Vamos  tratar  em  fim  da  porção  da  costa 
habitada  pelo  Povo  de  que  os  Portuguezes  te- 
riâo  obtido  as  maiores  vantagens,  se  a  escra- 
vidão não  tivesse  sido  muitas  vezes  o  premio 
de  suas  virtudes  hospitaleiras.  Os  Tupinam- 
bás  ,  geralmente  temidos.,  se  elevavão  por 
seus  costumes  e  coragem ,  acima  de  todas 
as  Nações  contemporâneas.  A  Bahia  pertencia 
excltisi vãmente  a  estes  Indigenas ,  cujas  diíFe- 
rentes  Tribus  viverão  largo  tempo  em  per- 
feita harmonia ,  até  que  hum  accidente,  pouco 
importante  em  aparência.,  mudou  a  face  das 
cousas.  0  rapto  de  huma  mulher  acendeo 
a  guerra  entre  duas  Aldeãs :  a  familia  ofíen- 
dida  ganhou  a  Ilha  de  Itaparica ,  muitas 
outras  se  lhe  reunirão  \  os  contrários  esta- 


33 

belecerao-se  nas  praias  oppostas  do  continente, 
e  a  bahia  foi  o  theatro  de  huma  guerra 
continua  e  sanguinolenta.  0  tempo  não 
pôde  adoçar  a  cólera  dos  dois  partidos :  en- 
tre os  Selvagens  a  vingança  lie  liuma  neces- 
sidade que  toda  a  Nação  sente  igualmente; 
o  odio  augmentou  a  ponto  de  não  respeita- 
rem nem  os  túmulos  dos  contrários  :  os 
mortos  forâo  desenterrados ,  e  receberão  mil 
ultrages  *,  depois  de  se  terem  entregues  a 
tão  indigno  procedimento  ,  os  guerreiros 
mudarão  de  nome :  suas  grosseiras  supers- 
tições lhes  fazião  suppôr  que  d'est'  arte  es- 
capavao  ao  furor  dos  manes  irritados.  Os 
Tupinambás  tomarão  parte  nas  guerras  dos 
Portuguezes,  tendo  antes  feito  vãos  esforços 
para  se  oppòrem  á  aggressão  europea.  Nos  os 
veremos  figurar  na  Historia  até  certa  época, 
mas  para  desaparecerem  repeutinamente  ; 
da  mesma  maneira  que  se  reunirão  para 
invadirem  hum  terreno  fértil ,  assim  cessou 
sua  rivalidade  quando  foi  preciso  abando- 

5 


H 

nal-o.  O  Norte  lhes  offereeia  vastos  desertos 
desconhecidos  aos  Europeos,  diregirão-se  para 
elles:  o  paiz  regado  pelo  Àmasonasos  abrigou; 
os  nomes  de  algumas  ilhas,  e  de  muitos 
tributários  deste  rio,  lembrâo  ainda  a  emi- 
gração ;  talvez  se  conservem  algumas  Tribus 
de  Tupinambás  nos  bosques  do  Pará  ,  mas 
he  certo  que  se  não  encontrão  nos  lugares 
habitados  por  elles  na  occasião  da  conquista. 
Pertendem  alguns  escriptores,  que  depois 
de  deixarem  o  paiz  onde  os  querião  escravi- 
sár,  se  tornarão  a  dividir,  e  huma  parte 
se  estabelece©  no  Perú. 

Dalém  do  rio  de  S.  Francisco  estavao 
os  Amapiras ,  que  também  descendião  da 
Nação  dos  Tupis,  mas  que  d'elles  se  separa- 
rão em  tempo  das  grandes  guerras  com  os 
Tapuyas*,  este  Povo  tinha  tomado  o  nome 
de  hum  de  seus  Chefes,  e  vivia  em  guerra 
com  outro  mais  selvagem,  e  de  difíerente 
origem. 


35 

Os  Ubirajarás  que,  como  dissemos,  habi- 
tavão  o  interior,  se  conservarão  muito  tempo 
sem  conhecerem  os  Europeos,  porém  logo 
que  aparecerão  nas  costas  forão  inteiramente 
destruidos. 

A  Província  de  Pernambuco,  onde  agora 
existem  poucos  Indígenas,  hera  antigamente 
povoada  pelos  terríveis  Cahete's,  que  possuião 
todo  o  território  comprehendido  entre  os 
rios  S.  Francisco  e  Parahyba  ,  e  que  sus- 
tentavão  huma  guerra  constante  com  os 
Tupinambás,  por  meio  de  jangadas.  Doze 
guerreiros  podiâo  transportar-se  em  cada 
huma  d'estas  simples  embarcações,  e  nume- 
rosas Esquadras  levava  o  a  devastação  e  a  morte 
às  Tribus  inimigas  postadas  algumas  vezes 
a  cincoenta  legoas.  Este  humor  bellicoso  foi 
funesto  aos  Cahetés*,  os  Tupinambás  se  jun- 
tarão aos  Tupinaes  e  Tapuyas  para  os  des- 
truírem ,  o  que  conseguirão  :  só  os  que  ganha- 
rão a  serra  de  Aqueriba  poderão  escapár  á 


36 

morte  ou  á  escravidão  :  cousas  quasi  idênti- 
cas entre  taes  contendores.  Os  Cahetés  tinhão 
reputação  de  muito  cruéis,  o  que  confirma  o 
differentes  factos  referidos  pelos  escriptores 
antigos. 

Os  PitagoareSj,  que  confinava  o  com  os  Cahe- 
tés, não  herão  menos  temíveis;  amigos  fieis 
dos  Fiancezes,  os  acompanharão  em  muitas 
expedições.  Ainda  que  estes  Cabocoios  tives-* 
sem  os  principaes  estabelecimentos  entre  Rio 
Grande  do  Norte  e  Parahyha,  parece  que 
dominava  o  ate'  alem  do  Maranhão, 

II  a  ma  multidão  de  outras  Nações  menos 
consideráveis  habitava  a  costa,  mas  para  tra- 
tár  de  sua  Historia,  seria  necessário  limitar- 
nos  a  huma  nomenclatura  extravagante : 
muitas  herão  Tribos  fugitivas  dos  Povos  de 
que  nos  lemos  occupado,  que  procurarão  re- 
fugio nas  regiões  menos  povoadas  do  Norte, 
Indicar  o  que  resta  d'estas  raças,  seria  sem 


37 

duvida  hum  trabalho  curioso ,  porém  qu* 
nos  faria  exceder  o  quadro  d'esta  obra  j  con- 
tentar-nos-hemos  pois^,  fallando  do  estado 
prezenle  do  Brasil,  com  designar  summaria- 
mente  as  principaes  Nações  que  habitão  ainda 
este  vasto  território. 


SEGUNDA  ÉPOCA. 

©  Orasil  conquistai  pelos  }Jortu<jue;cs, 


A  viagem  de  D.  Vasco  da  Gama  ás  índias 
Orientaes  tinha  excitado  nos  Portuguezes  o 
desejo  violento  de  continuar  tão  importantes 
e  gloriosas  empresas :  a  Nação  inteira  ambi- 
cionava novas  expedições.  El  Rey  D.  Manuel, 
aao  menos  interessado  em  fixár  o  seu  domínio 


4o 

na  A'sia,  enviou  huma  Esquadra  a  CallecUfê? 
este  Monarcha  estava  longe  de  esperar  o  que 
a  fortuna  lhe  preparava  ;  o  accaso ,  então 
como  outras  vezes,  guiou  os  passos  de  intré- 
pidos navegantes*,  estes,  sentindo  a  necessi- 
dade de  evitár  as  calmarias  da  costa  d' Africa, 
fizerão-se  muito  ao  largo ,  os  ventos  forçarão 
o  rumo  da  Esquadra ,  e  a  costa  da  America 
1500  Meridional  se  patenteou  aos  Lusitanos. 

S2  de  Ab. 

Nos  não  sabemos  se  tal  descobrimento,  in- 
teiramente filho  de  circunstancias  indepen- 
dentes de  raciocinio,  pode  fornecer  grande 
honra  aos  Portuguezes ;  mas  he  certo  que  elle 
so  podia  caber  a  quem  ousado  sulcava  o 
Oceano  em  tão  longiquas  paragens.  O  conhe- 
cimento pois  da  existência  da  costa  do  Brasil 
se  deve  a  Pedro  Alvares  Cabral^  Commandante 
da  Esquadra. 

O  Hespanhol  Vicente  Yanes  Pinzon  ,  so  vi- 
sitou os  locaes  visinhos  á  foz  do  Amasonas  i 


4* 

esta  expedição  foi  sem  effeito,  em  quanto 
Cabral  tornou  a  sua  util  á  Patria. 


Segundo  o  costume,  começou  por  dár 
hum  nome  ao  paiz ,  antes  de  saber  o  que  elle 
tinha  entre  os  primitivos  habitantes.  Foi  na 
oitava  de  Páscoa  que  o  Almirante  encarou  as 
costas  brasileiras ,  por  isso  a  primeira  mon- 
tanha avistada  se  chamou  Monte  Pascoal, 
c  o  resto  Terra  da  Vera  Cruz.  O  desembar- 
que effeituou-se  no  lugar  depois  chamado 
Porto  Seguro. 

A  conducta  dos  Portuguczes  foi  assaz  pru- 
dente para  com  os  habitantes,  os  quaes  de 
sua  parte  Paes  mostrarão  inteira  confiança: 
pois  que  desarmados  se  introdusião  no  meio 
d'elles,  e  não  temerão  admittil-os,  ainda  que 
em  pequeno  numero,  em  suas  Aldeãs. 

Os  Selvagens  desejavão  possuir  todos  os 
objectos  que  lhes  heião  estranhos,  e  depois 

6 


42 

de  os  obterem ,  não  testeinunhavao  o  menór 
prazer  ,  julgando  que  não  havia  nenhum 
agradecimento  a  dár  por  hum  objecto  para 
elles  inútil.  He  preciso  ter  chegado  a  alto 
grao  de  perfeição  no  estado  social,  para 
ser  sensível  a  huma  boa  intenção  que  não 
tem  effeito* 

OsTupininquins  não  tardarão  em  conhecer 
as  vantagens  que  os  Portuguezes  tiravão  do 
ferro ,  e  se  juntarão  em  torno  de  alguns  dos 
viajantes  que  talhava  o  a  machado  hum  grosso 
madeiro  para  a  construcção  de  huma  cruz 
que  se  devia  erigir  na  praia  onde  primeiro 
tinhão  desembarcado  *,  talvez  hum  grosseiro 
instrumento  lhes  deo  mais  alta  idéa  da  scien- 
cia  europea ,  do  que  as  numerosas  embarca- 
ções, das  quaes  não  podião  conceber  a  ad- 
mirável construcção.  Os  Cabocolos  ajudarão 
a  plantar  esta  cruz,  que  indicava  ás  Nações 
selvagens.,  que  o  paiz  tinha  cessado  de  perten- 
Gcr-lhes ,  e  que  hum  dominador  na  Europa 


43 

decidiria  de  stia  sorle  futura.  Durante  as  cere- 
monias  religiosas  que  tivera  o  lugár  logo  na 
occasião  da  posse ,  se  comportarão  exacta- 
mente como  os  Europeos,  imitarão  seus  ges- 
tos e  devoção ,  o  que  fez  pensar  que  abraça- 
rião  facilmente  o  christianismo  *,  mas  o  futu- 
ro mostrou  quanto  devia  ser  custosa  esta  con- 
versão, que  marchou  sempre  a  pár  da  vio- 
lência 9  porque  outros  interesses,  mais  do  que 
os  de  Religião,  influirão  sobre  este  objecto. 

Bem  que  Cabral,  no  começo  avaliasse  em 
pouco  a  utilidade  que  Portugal  poderia  tirar 
d 'es  te  descobrimento,,  julgou  a  propósito  de 
ali  deixar  dois  moços  resolutos  condemnados 
a  degredo  na  A'sia ,  afim  de  aprenderem  o 
idioma  dos  Indígenas,  e  servirem  de  inter- 
pretes a  outras  expedições.  Hesitou-se  em 
aprisionar  alguns  Cabocolos,  e  envial-os  á 
Europa,  mas,  cousa  admirável,,  olhou-se 
esta  medida  como  injusta  \  e  a  opposição 
de  Cabral  a  tal  violência  deve  contar-se  no 


44 

numero  das  brilhantes  acções  que  delíe  se 
citão. 

Partidos  da  Vera-Cruz,  a  embarcação  que 
condusia  as  provisões  da  Esquadra ,  descarre- 
gou para  outras ,  e  tomou  o  rumo  da  Europa, 
a  levár  tão  lisongeira  nova  ao  poderoso  Mo- 
narcha  Portuguez.  Gaspar  de  Lemos  3  Com« 
mandante  d'esta  embarcação,  reoonheceo  parte 
da  costa,  e,  não  imitando  a  moderação  de  seu 
Chefe,  apoderou-se  de  dois  Iudigenas,  e  o§ 
condusio  a  Corte, 

Reflectindo  no  effeito  que  deverião  produ- 
sir  em  hum  Povo  ardente  e  sabiamente  go- 
vernado, as  noticias  successivas  de  grandiosas 
conquistas  e  maravilhosos  descobrimentos , 
que  aífluião  em  Lisboa  n'esta  época  da  gloria 
portugueza,  se  conhecerá  a  razão  do  espan^ 
toso  engrandessimento  de  suas  numerosas  Co- 
lónias. 


1501      Cabral^  de  volta  da  índia ,  encontrou  IVi- 


45 

colau  Coelho  á  testa  de  huma  expedição  naval, 
mandada  por  El  Rey  D.  Manuel  directamente 
a  Vera-Cruz. 

Hum  Author  de  boa  nota  afirma  queÂme- 
rico  Vespucio  par  tio  também  no  mesmo  anno 
para  este  paiz,  que  perdeo  alguns  dos  seus  ás 
mãos  dos  anthropóphagos ,  e  que  em  outra 
viagem,  em  1502  >  fundou  o  primeiro  esta- 
belecimento na  Bahia  de  Todos  os  Santos. 
Quanto  os  remotos  tempos  da  Historia  da  Eu- 
ropa devem  ser  obscuros,  quando  buma 
época  tão  próxima  de  nos,  oflferece  ja  conjec- 
turas sobre  factos  importantes!  Todavia,  o 
descobrimento  da  Bahia  se  deve  attribuír  a 
Cliristovuo  JacqucS)  o  qual  explorou  toda  a 
costa  até  ao  estreito  de  Magalhães,  plantando 
padrões  nacionaes  em  todos  os  portos  que 
visitou.  Este  Capitão,  tendo  a  infelicidade  Je 
perder  algumas  caravellas ,  estabeleceo  eom 
as  equipagens  delias  huma  pequena  Coloma 


46 

em  Vera-Cruzj  a  qual  n'esta  occasião  tomo» 
o  nome  de  Porto  Seguro. 


0  pao  de  tintura  exportado  d'esta  Povoação 
excitou  o  interesse  dos  negociantes  Portu- 
guezes,  e  o  vasto  terreno  onde  se  colhia  a 
Ibirapitanga  se  tournou  hum  mananciál  de 
riquesas;  os  mercadores  davão  a  esta  droga 
o  nome  de  pao  brasil  s  por  causa  da  inten- 
sidade e  brilhantismo  de  sua  cor,  que  se  as- 
semelha á  da  brasa  :  e  d'aquí  a  denominaçaa- 
de  todo  o  paiz. 

Além  das  Esquadras  destinadas  á  A'sia , 

1502  <Iue  tocav^°  no  Brasil,  muitas  expedições  se 

1503  organisarão  expressamente  para  este  bello 
paiz,  porém  nao  formavâo  estabelecimentos 
duráveis*,  de  maneira  que  a  goarnição  de  hum 

45^5  navio  naufragado  perto  de  Porto  Seguro,  te- 
ve que  buscar  asilo  entre  os  Selvagens ,  por-* 
que  a  este  tempo  já  se  achava  aniquilada  a 


47 

Povoação  portugueza.  As  primeiras  construo- 
ções  herão,  como  as  dos  Indígenas ,  pouco 
resistentes. 

Entre  as  expedições  que  tiverão  lugar  por 
esta  época,  cumpre  distinguir  a  de  João  Dias 
Solis ,  hábil  Piloto  Castelhano ,  que  reconhe- 
ceo  grande  parte  da  costa,  e  entrou  na  bahia 
de  Nitherohy  5  o  celebre  Fernando  de  Maga-  1 526 
Ihães,  o  imitou  pouco  depois  :  as  que  se  segui- 
rão forâo  infructuosas,  á  excepção  da  de 
Diogo  Garcia 

Divisão  do  Brasil  em  Capitanias,  —  Povoação  do  Espirito- 
Sanlo,  de  Pernambuco  e  da  Bahia. 

Se  El  Rey  D.  Manuel  hera  incançavel  no 
-augmento  do  Império  Portuguez  ^  seu  filho, 
El  Rey  D.  João  III  procurou  sabiamente 
tirár  das  novas  Colónias  as  possíveis  vanta- 
gens, O  Brasil  não  tardou  em  manifestar , 
por  sua  admirável  fertilidade,  quanto  podia 
ser  util  á  Metropoli ,  e  esta  emprehende* 


43 

tlar-líie  huma  forma  cie  governo  que  íeis-* 
desse  á  sua  prosperidade.  Deve-se  attribuír 
á  época  a  pouca  prudência  que  Louve  na 
escolha  da  primeira  administração  d^eslepaiz. 
1531  O  território  foi  repartido  em  nove  Capita- 
nias hereditárias*,  este  espécie  de  governo 
feudal  não  hera  nada  próprio  para  catequizar 
os  Indígenas,  dotados  de  hum  animo  diame- 
tralmente opposto  a  taes  instituições. 

Conferio-se  aos  Donatários  o  direito  de  con- 
quistarem grandes  porções  de  terreno ,  e  for» 
marem  estabelecimentos  a  seu  capricho. 

A  primeira  Povoação  de  alguma  impor* 
1531  tancia,  foi  fundada  por  Martim  Ãffonço  de 
Souza,  que  já  se  havia  distinguido  nas  índias 
Orientaes;  o  caracter  pacifico  das  Carijós  o 
determinou  a  adoptar  o  território  de  S.  Vi- 
cente; este  Donatirio  examinou  a  excellente 
bahia  de  Nitherohy ,  e  não  percebendo  as  van- 
tagens da  posição,  contentou-se  eomdar-lhe 


49 

©  nome  exótico  de  Rio  de  Janeiro.  Elie  tentou 
estabeleeer-se  pelos  i  os  Selvagens  se  lhe 
opposerão*,  e  João  Ramalho ,  que  tinha  naufra* 
gado  nVstc  lugar,  protegendo-o  para  com  huma 
Tribu  mais  poderosa,  concorreo  para  o  aug- 
mento  de  S.  Vicente,  e  lhe  deo  facilidade  de 
estabelecer  ao  longo  da  costa,  muitos  Euro- 
peos  vindos  com  elle.  M.  A \  de  Souza,  intro- 
dusio  no  Brasil  a  cultura  da  canna  d'assucar, 
e  as  muares  :  serviços  estes  bastantes  para 
merecer  eterno  reconhecimento* 

A  Pedro  Lopes  de  Souza  ,  irmão  do  primei- 
ro Donatário,  coube  a  Capitania  de  Santo 
Amaro,  perto  de  S.  Vicente,  os  Pitagoares 
lhe  disputarão  a  posse  do  terreno,  mas  fi- 
nalmente vencidos  em  huma  batalha  decisi-  1534 
va,  se  estabeleceo  a  pequena  Colónia.  Lopes 
de  Souza,  tentando  reconhecer  a  costa  ao  Sul 
de  seus  domínios ,  pereceo  em  hum  naufrágio^ 
na  foz  do  rio  da  Prata, 

7 


5o 


i  534  Pedro  de  Goes ,  veio  tomár  a  posse  da  Capi* 
tania  da  Parahyha ,  mas  abandonou-a  pouco 
depois  * 

fiasco  Fernandez  Coutinho ,  nomeado  Do- 
natário da  Capitania  do  Espirito  Santo,  esta- 
1 534  foeleceo-se  nas  proximidades  do  desembarqué 
de  Cã  br  ai ,  onde  encontrou  hutn  dos  dois  des- 
terrados ,  que  esle  ali  havia  deixado  $  e  que 
muito  lhe  sérvio  para  adquerír  a  alliança  dos 
Tupininquins,  que  conseguio  juntar  em  Al* 
dèas  subordinadas. 

Á  Capitania  dos  Ilheos  foi  dada  a  Jorge 
1534  de  Figueiredo  Correa,  o  qual  enviou  Fran* 
cisco  Valdez ,  Cavalheiro  Castelhano,  tomár 
a  posse. 

1 534     Porto  Seguro  foi  conferido  a  Pedro  do  Cani- 
ço Toyrinho  5  que  ali  se  estabeleceo. 

A  Capitania  de  Pernambuco  teve  por  Do- 


5i 

natario ,  Duarte  Coelho  Pereira ,  que  ja  havia 
prestado  relevantes  serviços  no  Brasil ,  o  qual 
veio  povoal-a,  trasendo  muitas  famílias,  e 
fundou  a  Cidade  de  Olinda ;  tendo  primeiro ,  i  535 
auxiliado  pelo  célebre  Tapeird,  Chefe  na  Tribu 
dos  Tabayarés,  expellido  valerosamente  os 
bravos  Cahetés  commandados  por  Francezes. 
A  Colónia  progredio  rapidamente  pela  boa 
administração  de  Coelho  Pereira,  o  qual  sou- 
be aproveitár  do  préstimo  de  muitas  famí- 
lias, que  a  Inquisição  de  Lisboa  mandou  pro- 
curar no  Novo  Mundo  o  asilo  que  a  Europa 
lhes  negava*,  muitos  Judeos  emigrados  por 
perseguições  religiosas,  vierão  buscar  segu- 
rança igualmente  em  Pernambuco. 

Ao  célebre  Historiador  João  de  Barros, 
coube  a  Capitania  do  Maranhão;  mas  Ayres  da 
Cunha,  que  em  seu  lugar  veio  tomara  posse, 
naufragando  na  entrada  da  barra,  João  de  153S 
Barros  cedeo  do  donativo  a  favor  de  Luiz 
de  Mello,  o  qual  tendo  igual  sorte  nos  perigo- 


5% 

1536  sos  baixios  do  Maranhão,  o  território  ficou 
despovoado  ,  nos  domínios  da  Coroa, 

A  ultima  Capitania  povoada  foi  a  da  "Bahia 
de  Todos  os  Santos,  que  se  conservava  entre- 
gue aos  Tupinambás. 

Hum  Europeo  vivia  ja  no  meio  d'estes  Seí- 
vagens,  antes  que  o  Governo  Portuguez  ti- 
vesse disposto  do  terreno  que  elles  occupavão. 
1512  Diogo  Alves  Correa ,  lançado  por  huma  tor- 
menta sobre  as  costas  do  Brasil,  se  tinha  li- 
gado á  familia  de  hum  Chefe,  e  gosava  entre 
toda  a  Tribuj  que  o  chamava  o  Caramuru  7 
da  consideração  que  lhe  devia  adquirir  a  su- 
perioridade de  sua  intelligencia  sobre  a  de 
hum  Povo  bárbaro, 

Francisco  Pereira  Coutinho,  a  quem  El  Rey 
tinha  concedido  o  território  entre  a  Ponta 
do  Padrão  e  o  Rio  de  S.  Francisco ,  começou 
o  seu  Governo  declarando  huma  guerra  crua 
aos  Tupinambás,  e  apoiando  todos  es  excessos 


53 

da  desenfreada  soldadesca  que  o  tinha  arom- 
panhado;  os  Selvagens  supportas  âo  estas  vio- 
lências, até  que  o  Governador  a  poderá  ndo-sc 
de  Alces  Correa,  a  famosa  Paraguassá,  es- 
posa do  naufragado,  com  mim  içando  a  toda 
aTribu  o  fogo  da  vingança,  que  a  animava, 
obrigou  o  Donatário  a  procurar  asilo  na  Ca- 
pitania dos  Illicos. 

Parte  dos  Tupinambás ,  ja  costumada  ao 
uso  das  superfluidades  importadas  da  Euro- 
pa ,  no  tempo  de  Pereira  Coiilinlt© ,  mandou- 
lhe  propor  a  paz  \  e  este,  aceitando-a  impru- 
dentemente, voltava  á  Bahia,  quando  huma 
violenta  tempestade  o  lançou  contra  a  Ilha  1543 
de  Itaparica  :  todos  os  que,  evitando  a  morte 
no  Oceano  ,  ganharão  terra,  forâo  devorados 
pelos  Indigenas  :  só  Alves  Correa  escapou.,  e 
foi  restituído  aos  seus. 

Depois  d'este  trágico  successo,  a  Capitania 
foi  encorporada  aos  domínios  d  El  Rey. 


54 

O  Governo-  de  Portugal  ,  inteirado  da 
utilidade  do  novo  Estado  do  Brasil ,  resolveov 
tomar  medidas  que  fizessem  reverter  em  fa- 
vor da  Coroa,  os  rendimentos  que  até  ali  so 
disfructavâo  os  Donatários,  e,  conhecendo  as 
vantagens  da  posição  da  Bahia  de  Todos  os 
Santos.  5  fixou  este  ponto  para  Capital  de 
todo  o  Brasil.  Cinco  embarcações ,  600  vo- 
luntários ,  i5oo  condemnados  ,  e  algumas 
famílias  decididas  a  hiima  emigração  pro- 
vavelmente vantajosa  ,  constituirão  a  nova 
expedição,  cujo  commando  foi  confiado  a 
Thomé  de  Souza  ,  revestido  do  titulo  de  Go- 
1549  vernador  Geral  do  Brasil,  e  authorisado  a 
extender  sua  jurisdicção  a  Iodas  as  Capitanias* 

Os  privilégios  dos  Donatários  fora  o  entã© 
consideravelmente  restringidos. 

Thomé  de  Souza,  achou  ainda  na  Bahia  , 
Alves  Carrea,  que  vivia  no  meio  dos  Selva- 


55 

gens ,  e  que  concorreo  para  que  estes  se  lhê 
alliassem. 

Os  primeiros  fundamentos  da  Cidade  de 
S.  Salvador  forão  lançados  no  locai  hoje  oc- 
cupado  pelo  bairro  da  Ajuda  ,  sem  embargo 
da  razoável  opposiçao  dos  muitos  que  votavao 
por  outra  escolha. 

A  actividade  dos  novos  Colonos  surprende 
quando  se  considerão  os  edifícios  construidos 
por  este  tempo,  ella  se  deve  attribuír  á  sabia 
e  prudente  conducta  do  Governador. 

Os  Tupinambás,  que  se  tinhâo  associado 
aos  Portuguezes  para  a  edificação  da  Cidade 
onde  deviâo  habitár  seus  cruéis  perseguidores, 
forão  de  novo  maltratados,  porque  hum  dos 
seus  assassinou  hum  Portuguez,  bem  que  o  \ 
criminoso  fosse  entregue  ao  Governo.  D'en- 
tâo  em  diante ,  a  desconfiança  augmentou  de 


56 

huma  e  outra  parte,  e  hum  ódio  reciproco 
succedeo  ao  commercio  mais  tranquiilo. 
Alguns  Jesuiías,  que  então  chegarão  ao 
Brasil  ,  vierão  augmentár  este  rancor  , 
tentando  o  proselytismo  dos  Selvagens  ; 
e ,  levados  de  hum  zelo  inconsiderado , 
ousando  roubar -lhes  hum  prisioneiro  ja 
ferido  do  golpe  moriál,  e  destinado  a  hum 
de  seus  usuaes  e  bárbaros  festins  *,  os  Caboco- 
los  enfurecidos  marcharão  em  força  contra 
a  Cidade,  porém  a  firmeza  dos  Portuguezes, 
e  o  aspecto  das  armas  de  fogo,  os  amedronta- 
rão, e  fizerão  retirar.  Estes  factos,  unidos 
á  indolência  dos  Indigenas,  e  á  conducta 
de  sens  conquistadores  ,  motivarão  a  re- 
pugnância que  aquelles  sempre  tiverão  á 
civilisacão. 

N  esta  época,  muitos  Europeos,  desdenhan- 
do a  cultura  das  terras,  penetrarão  pelo  in- 
terior, esperando  verificar  conjecturas  á  cer- 
ca da  riquesa  mincrál  do  paiz.  Terio  sido 


5? 

melhor  que  taes  pesquisas  fossem,  por  então* 
infructuosas. 

Thomé  de  Souza,  pedio retirar-se  á  Corte, 
entregou  o  Governo  a  Duarte  da  Costa,  para 
isso  nomeado,  e  par  tio  deixando  a  mais  sau-  552 
dosa  memoria. 

O  novo  Governador,  que  tinha  entrado  no 
Brasil,  acompanhado  por  dezaseis  Jesuitas  , 
entre  osquaes  se  notava  o  celebre  Jose  Ancheta, 
e  que  descobrio  em  seus  companheiros  de  via- 
gem esta  ambição  de  authoridade  que  sempre 
os  tem  caracterisado ,  projectou  logo  tomár 
as  convenientes  medidas  de  reacçlo.  Os  Mis- 
sionários, desesperados  da  protecção  do  Go- 
verno, se  retirarão  paia  a  extremidade  Sul 
do  Estado,  procurando  occultarem-se  á  vigi- 
lância de  D»  da  Costa  \  as  planices  de  Pirati- 
ninga  lhes  parecerão  próprias  para  huma 
Povoação,  que  foi  depois  habitada  pelos  do- 
minadores do  Paraguay. 


58 


Tentativas  dos  Francese»  para  *e  estabelecerem  nô  Brasil. 
Povoação  de  S.  Paulo. 

Bem  que  as  Colónias  da  America  Meridio- 
nal pertencessem  por  direito  indisputável  ? 
parte  á  Hespanha,  e  parte  a  Portugal,  as 
outras  Potencias  dEuropa  n~o  podiao  obser- 
vár  sem  hum  sentimento  de  inveja,  o  domi- 
nio  exclusivo  d'estas  duas* 

Nicolau  de  Villcgagnon ,  homem  hábil  e 
atrevido,  organisou  em  França  huma  expe- 
dição sob  os  auspícios  do  famoso  Almirante 
Gaspar  de  Coligui,  no  intuito  de  vir  estube- 
lecer-senabeila  bahia  deNitherohy ,  e  d  aqui 
fazer  propagar  no  Novo  Mundo  os  preceitos 
da  Pieligiao  Reformada,  da  qual  se  dizia  affin* 
cado  partidário.  Chegado  ao  Rio  de  Jane?- 
5  ro,  construio  dentro  da  bahia,  em  huma 
pequena  ilha,  o  Forte  de  Coligni ,  hoje  conhe- 
cido pelo  nome  de  seu  fundador  \  mas  pouco 


tempo  depois,  mudando  repentinamente  de  155? 
crença  ,  perseguio  milhares  de  companheiro^, 
que  seus  falsos  juramentos  lhe  tinhao  gran- 
geado, 

Mendo  de  Sá,  successor  de  Z>.  da  Costa , 
por  ordem  da  Côrte  veio  repeliir  os  intrusos 
concentrados  no  ForU  de  Coligni ,  e,  apezár 
de  valerosa  defensa  %  conseguio  fazel-os  aban<- 
donára  posição^  e  passar  ao  continente,  onde  ^  560 
se  fortificarão  *,  porem  como  não  ficasse  força 
para  prohibir  o  estabelecimento,  os  France- 
zes  se  reunirão  mais  vantajosamente  ainda 
do  que  a  principio. 

Villegagnon ,  chamado  á  Europa ,  occultou 
os  furiosos  remorsos  de  sua  negra  perfídia, 
no  interior  de  hum  palácio,  onde  acabou  in- 
famado com  o  odioso  epitheto  de  Caim  da 
America. 


Os  Padres  Manuel  da  Nóbrega ,  e  José 


6o 

Áncheia,  se  tinhao  transportado  a  S.  Vicente 
antes  da  aceno  contra  os  Francezes,  afim  de 
ali  prepararem  hum  refugio  á  Frota  Poi  tu- 
gueza.  O  Governador  Geral  quiz  examinar  a 
mais  antiga  Capitania  do  Brasil,  e  deo  á  veia 
para  aquelle  porto.  O  caracter  ardente  e  firme 
dos  Vicentistas,  sua  resolução  nobre  e  altiva, 
a  par  de  muita  robustos  e  agilidade,  indusi- 
rao  M,  de  Sá  a  aproveitár  de  tao  felizes  dis- 
posições, e  dar  á  Colónia  a  importância  de 
que  ella  hera  capaz  ;  porem ,  chamado  ás  vi- 
sinhanças  de  S.  Salvador,  onde  os  Aymorés 
arremeçando-se  segunda  vez  sobre  as  habita- 
ções portuguezas  commetterao  os  mais  cruéis 
excessos,  foi  obrigado  aabandonár  S.  Vicente, 
encarregando  os  dois  Missionários  do  aug« 
mento  da  Colónia. 

Estes  começarão  por  transferir  o  Coliegio, 
da  Povoação  de  S.  André  para  Piratininga, 
chamancio-lhe  Collegio  de  S.  Paulo  \  e  d'aqui 
o  nome  que  esta  Capitania,  dentro  de  outros 


6i 

limites ,  teve  em  1710,  quando  Antonio  d' A%* 
biujiwrqne  Coelho  a  veio  governár.  II uma  es- 
trada se  abrioaté  ao  porto  \  e  esta  Povoação  se 
tornou  em  pouco  huma  das  mais  iloreeeni.es  do 
Estado \  ganhando  assim  os  bravos  Yicentistas 
o  necessário  elasterio  para  hum  dia  levarem 
o  nome  poi  tuguez  ás  mais  longiquas  regiões 
do  interior. 

Todavia,  os  Tamoyos  perturba v!©- a  cada 
passo  o  progresso  da  Povoação,  e  animados 
por  continuas  victorias,  arm~o  finalmente  tre- 
zentas pirogas  para  atacaiem  os  ^  icentistas,  1  j63 
quando  Nóbrega  e  Ancketa  ,  possuídos  do  mais 
heróico  valor,  peneti\io  até  aocampo  inimigo, 
e  obtém  huma  capitulação  que  salva  a  recente 
Colónia  da  completa  e  inevitável  rui  na. 

Passados  estes  acontecimentos,  hum  novo 
flagrlo  acommetteo  os  Indígenas,  a-  bexigas  1564 
se  deciaiarao  entre  estes  Povos.  O  abandono 
dos  doentes,  a  errada  convicção  de  huma 


morte  infalível,  e  outras  razões  phisicas>  fi* 
zerão  com  que  esta  moléstia  causasse  maior 
devastação  do  que  todas  as  guerras  europeas. 

Expulsão  dos  Francezes.  —  Povoação  do  Rio  de  Janeiro. 
Divisão  do  Brasil  em  dois  Governos  separado». 

0  Governo  de  Lisboa  informado  do  prós* 
pero  augmento  da  Colónia  Franceza  estabe-* 
lecida  no  Rio  de  Janeiro,  e  por  tanto  tempo 
abandonada  da  Corte-,  deixou  em  fim  sua  inex- 
plicável negligencia,  e  resolveo  fazer  desalor 
jár  os  Protestantes  de  tão  preciosa  paragem. 
Para  este  efíeito  foi  escolhido  Estácio  de  Sd, 
a  quem  se  deo  o  commando  de  huma  expedi- 
ção que  partio  de  Portugal.,  foi  passár  pela 
Bahia  para  receber  reforço  de  gente  e  arma- 
mento, e  veio  desembarcar  no  Rio  de  Janeiro , 
1565  junto  ao  monte  Pao  dassucar.  Os  Francezes 
os  receberão  como  prevenidos ,  e  repellirao  em 
diversos  ataques ,  durante  quasi  dois  annos ; 
mas  os  Portuguezes  recorrendo  ao  Governador 


63 

Geral  M.  de  Sd,  este  armou  huma  Frota  de- 
baixo do  commando  de  Christovão  de  Barros , 
veio  em  pessoa  ao  auxilio  de  seu  sobrinho  E. 
de  Sd ,  e  em  dois  dias  tomou,  ajudado  pelo  15 
hábil  Nóbrega  ,  todas  as  posições  do  inimigo, 
c  o  obrigou  a  debandár,  e  seus  alliados  Ta- 
moyos.  Os  Protestantes  embarcarão  em  quatro 
navios,  e  se  diregirao  sobre  Pernambuco, 
d'onde  obrigados  a  ganhar  o  largo  pelo  Gover- 
nador da  Capitania,  forao  constrangidos  a 
vultár  á  Europa. 

E.  de  Sá,  expirou  poucos  dias  depois  do 
ultimo  combate ,  de  gloriosas  feridas  que  nel- 
le  recebeo. 

Salvador  Correa  de  Sd,  nomeado  Gover- 
nador do  Rio  de  Janeiro,  estabeleceo  aqui 
muitas  familias  que  M.  de  Sd  tinha  trans- 
portado das  Povoações  entre  Bahia  e  esta 
Capitania,  na  Armada  de  C.  de  Barros, 
e  o  Governador  Geral  deo  principio  á  fun- 


dação  da  Cidade  de  S.  Sebastião ,  no  lugár 
onde  hoje  eiíii  o  bairro  da  Misericórdia. 

Os  Francezes,  pertinases  no  projecto  de 
se  fixarem  na  x\merica  Portugueza  ,  apa- 
1569  receião  ainda  na  bahia  do  Rio  de  Janeiro, 
com  quatro  navios  de  guerra,  mas  o  Gover- 
nador, ajudado  por  Martim  Affonço,  In- 
dígena convertido,  os  batèo,  e  obrigou  á 
fuga. 

O  Brasil  começava  a  prosperár :  os  Jesuí- 
tas viço  melhor  que  ninguém  as  vantagens 
que  elle  ofíerecia,  e  não  se  poupando  a  in- 
ventos e  fadigas,  conseguirão  ganhár  a  a  re- 
feição de  muitas  Tribus  Guaranys.  Por  sua 
insinuação ,  69  Religiosos  se  embarcarão  em 
Lisboa  para  as  possessões  da  America ;  o  mais 
considerável  armamento  que  Portugal  en- 
viasse a  suas  conquistas,  se  preparou  com 
grande  actividade.  Os  novos  Missionários  vi- 
nh^o  em  difíerentes  navios  da  Froia  reunir- 


65 

se  aos  de  Piratininga;  mas  j arques  Sorê^ 
façanliozo  Corsário  Normando,  tinha  jura- 
do, por  huma  falál  represália,  exterminár 
todos  os  Catholicos  quecahisscm  em  seu  poder : 
sò  hum  Jesuita  chegou  ao  deslino. 

O  fim  doeste  período  he  assignalado  por 
dois  importantes  factos  :  o  celebre  Manuel  dâ 
Nóbrega  morreo  com  53  annos  de  idade  5 
e  Mendo  de  Sd  nao  tardou  em  seguil-o  ao  1571 
túmulo.  Estes  dois  homens  sSo  Credores  dos 
elogios  da  Historia,  não  sò  por  seu  talento 
administrativo,  e  incançavel  zelo  pelo  aug- 
mento   do  Brasil,  como  pela  actividade  e 
magno  valor  que  desenvolverão  na  guerra 
contra  os  Franeezes,  e  Indígenas;  he  sobre 
tudo  para  notar,  que  o  homem  da  Igreja  fosse 
o  mais  interessado  nas  conquistas. 

Pela  morte  dUl  Rey  D.  João  III ,  o  Brasil ,  ^553 
como  todas  as  Colónias  P01  ttiguezas,  tinha 
perdido  hum  protector  douto  e  zelozo.  JNa 

9 


66 

minor idade  d*Ei  Piey  D.  Sebastião,  as  re- 
messas que  se  enviarão  regularmente  a  Ame- 
rica, cessarão  j  e  foi  entro  feliz  que  a  tran- 
sacta administração  tivesse  dado  assaz  de  vi- 
gor á  Colónia  >  para  poder  prescindir  por 
algum  tempo  dos  soccorros  da  Metropoli. 

Depois  da  morte  de  M.  de  Sâ ,  a  Corte 
de  Lisboa  achou  que  suas  vastas  possessões 
da  America  não  devia  o  ser  confiadas  á  di- 
1572  recçâo  de  hum  só  Governador,  e  enviou  ao 
Brasil  dois  Capitães  Generaes  independentes: 
Antonio  Saí.  ma  ,  no  Rio  de  Janeiro,  foi  en- 
carregado das  Capitanias  do  Sul,  e  sua  ju- 
risdiccf  o  se  comprehendia  entre  os  rios  Bel- 
monte, e  da  Prata-,  Luiz  de  Brito  .  que  resi- 
dia em  S.  Salvador,  governava  as  Capitanias 
do  iNorte. 

Aqui  se  deve  fixar  a  aniquilação  das  duas 
maiores  Nações  Indígenas  ainda  existentes. 
Salema  desembaraçou  completamente  o  paiz 


6? 

do  seu  Governo,  elos  Tamoyos  e  Tupinam- 
bis,  evitando  assim,  n:o  só  a  destruição 
da  recente  Cidade  do  Rio  de  Janeiro,  como 
qualquer  invasão  a  que  o>  Francezes  se  ani- 
massem confiados  na  aíliança  d  estas  Tiibus, 
O  numero  dos  mortos  e  captivos,  entre 
as  duas  Nações  Cabocolas  subio  a  0,000.  Foi 
então  que  os  TupinamLas  se  decidi  1  âo  a  aban- 
donarem a  cosia,  e  intrincheii arem-se  nos 
dezerlos.  Hum  velho  chamado  Japyassú  , 
respeitado  de  seus  patricios,  vendo-os  desa- 
nimar na  execução  deste  projecto,  lhes 
diregio  hum  eloquente  discurso,  e  os  fez 
persistir  na  emigração  ,  que  foi  quasi 
total. 

Em  quanto  estes  Europeos  se  emprega 
emdevastár  as  Tribus  residentes  nas  margens 
do  Oceano,  outros,  não  menos  emprendedoi  es, 
se  confiarão  das  que  habilavão  o  interior, 
As  descobertas  das  minas  nas  Colónias 
Hespanholas  3   produsirâo   nos  Portuguezes 


68 


hum  ardente  desejo  de  procurarem  melaes 
preciosos  no  Brasil ;  e,  sem  terem  indicio 
algum  du  lugár  d'estes  thesouros,  mostrarão 
mais  constância  e  atrevimento  do  que  os 
exploradores  do  Peru, 

Sebastião  Fernandes  Toyrinho^  habitante 
4573  de  Porto  Seguro,  subio  o  rio  Doce,  reco- 
nheceo  parte  do  território  ,  hoje  de  Minas 
GeraeSj,  e  atravessou  até  ao  Jiquitinhonha , 
pelo  qual  voltou  á  beira  mar,  trasendo  bri- 
lhantes resultados  de  sua  incursão,  e  asse- 
gurando a  existência  de  ricas  e  copiosas  mi- 
nas nraquelias  paragens.  Muitos  outros  se- 
guirão o  seu  exemplo,  com  mais  ou  menos 
fortuna,  porém  nenhum  estabelecimento  se 
formou  ainda  no  interior. 

Salema  empregou  o  tempo  do  seu  Governo 
em  proteger  a  agricultura,  que  muito  pro- 
gredio. 


69 


O  Brasil  volta  ao  regimen  cie  hum  só  Governador.  —  Po- 
voação da  Parahyba. 

A  medida  de  dividir  o  Brasil  em  dois 

Governos  ,  pareceo  imprudente  a  May-Patria , 

e  a  inteira  administração  do  Estado  foi 

confiada  a  Diogo  Lourenço  da  Veiga-,  o  qual  \ 

começou  a  seu  Governo  por  mandar  João 

Tavares  ,  com  algumas  famílias  estabelecer- 

se  na  Capitania  de  Parahyba,  ou  Itamaracá, 

abandonada  pela  fraquesa  de  seu  primeiro 

Donatário.  Tavares ,  depois  de  reiteradas 
indagações,  fundou  hum  pequeno  Presidio 

na  I!ha  da  Cambôa,  que  depois  foi  mu- 
dado por  seu  successor  Fructuozo  Barboza, 
para  o  lugár  de  Cabedèllo. 

Eis-nos  chegados  á  maior  crise  politica 
de  Portugal  e  suas  Colónias.  EL  Rey  D.  Se- 
bastião passa  á  Africa,  e  perde  coma  vida  \ 


7o 

na  batalha  de  Alcácer,  a  coroa,  riquesas 
e  gloria  da  Nação. 

9      O  Cardeal  D.  Henrique  sobe  ao  throno 
e  morre  16  mezes  depois. 


t 


TERCEIRA  ÉPOCA. 


€>  Ôraeil  no  írominia  íjespanljal, 


Portugal ,  que  no  espaço  de  dois  se'culos 
vio  Lrotár  de  seu  seio  hum  sem  numero  de 
heroesj  este  circunscripto  paiz,  espanto  da 
Europa,  e  terror  dos  Povos  transatlânticos, 
vai  finalmente  succumbír  ás  baixas,  mas 
poderosas  manobras  da  intriga  ;  as  espadas 
dos  Alexandres  Portuguezes  baqueao  perante 
a  cabala  de  hum  punhado  de  invejosos  es- 
trangeiros secundados  por  indigno»  Lusita- 


72 

tios }  e  o  Reino  cahe  do  cúmulo  da  gloria 
mais  esplendida,  na  tutela  do  Governo  Hes- 
panhol. 

0  Brasil.,  ligado  á  sorte  de  Metropoli , 
1580  ficou  igualmente   submettido ,   mas  soube 
depois  pixnár  que,  sem  o  socorro  da  Europa, 
se  podia  defender ,  e  mesmo  prosperár. 

Sebastião  Barreto^  então  Governador  Ge- 
ral, aproveitando  a  negligencia  de  Filippe  II., 
conservGu  a  paz  com  os  Inglezes ,  cujo  com- 
mercio,  ainda  que  pouco  considerável,  lhe 
hera  utiL 

Nestes  tempos^  alguns Fra  ncezes auxiliados 
Í583  Pe^os  Pitagoares,  atacarão   a  Capitania  da 
Paralryha  •,  mas  o  Governador  Geral  lhes  en- 
viou Diogo  Valdez^  que  os  fez  abandonar  a 
empresa. 


« 


73 

Minas  <le  Prata.  —  Povoação  âe  Seregype.  —  Os  Iugloze» 
acomaietlem  o  Brasil.  —  Povoação  do  Rio  Grande  do 
Rorte.  —  Incursões  no  inleiior.  —  Povoação  do  Ceará. 

Por  esta  epoea ,  Robcrio  Dias  ,  descendente, 
do  célebre  D.  A Ivcs  Correa  ,  que  possuía 
prodigiosa  quantidade  de  prata,  resultado 
de  suas  viagens  ao  interior,  se  transportou  1585 
á  Corte  de  Filippe,  onde  se  comprometteo 
a  mostiár  a  fonte  dYstas  riquesas,  assegu- 
rando ser  cila  mais  abundante  neste  metal, 
do  que  a  Biscaya  em  ferro  *,  poiém  ,  sendo-lke 
negado  o  titulo  de  Marquez,  que  em  recom- 
pensa requeria,  ainda  hoje  se  desconhece 
este  thesouro,  bem  que  em  muitas  partes 
do  Brasil  se  tenhao  encontrado  pequenas 
minas  de  prata. 

A  primeira  providencia  que  a  Corte  dHes- 
páhha  deo  a  respeito  do  Brasil,  foi  huma 
ordem  á  CÍiristôvão  de  Èárros^  para  hir 
rèpellir  os  Indígenas  que  infesta  vão  as  Po-  1590 

10 


-A 

voações  de  ítapicurú  e  Rio  Real,  e  fazei* 
transportár  para  ali  algumas  famílias  da 
Bahia,  onde  hera  Governador  Interino  \  dando 
assim  começo  á  cultura  d*áquellas  terras, 
até  então  entregues  aos  Cabocolos,  e  aos  Pi- 
ratas Francezes  que  abordavão  em  busca  de 
páo  brasil.  Os  habitantes  principiarão  a  Villa 
de  S.  Christovão,  perto  da  foz  do  rio  Cotin- 
diba* 

Aqui  devemos  fallár  das  empresas  de  al-» 
guns  aventureiros  Inglezes  contra  o  Brasil* 

Thomas  Cavendish,  sahio  de  Inglaterra, 
com  pretexto  de  visitar  o  estreito  de  Maga- 
lhães ;  mas  chegando  ás  aguas  da  Capitania  de 
1591  S.  Vicente,  com  huma  expedição  em  5  em- 
barcações bem  equipadas,  destacou  o  Imme- 
diato ,  Carlos  Cooke  ,  commandando  o  melhor 
de  sua  gente,  a  atacar  a  Villa  de  Santos. 
Este  desembarca  ,  e  surprende  muitos  habi- 
tantes dentro  do  Templo ,  ali  reunidos  para 


75 

o  Officio  Divino ;  cerca  a  Igreja ,  e  propóe- 
Ihes  comprarem  a  liberdade*,  porem  logo,  en- 
tregando-se  e  os  seus  á  intemperança ,  os 
Portuguezes,  aproveitando  as  trevas  e o  somno 
dos  Piratas.,  fogem  para  o  interior  com  todas 
as  riquesas.  Quando  Cavendish  subio  o  rio , 
não  encontrou  mesmo  provisões  para  a  sua 
Frota;  e,  lançando  o  fugo  á  Povoação  de  S. 
"\icente,  deo  a  vela  para  o  cabo  dHorne. 
Hum  violento  temporal  o  forçou  a  retro- 
gradár  separado  do  resto  da  Enquadra.  De 
novo  perto  de  Santos,  desembarcou  25  ho- 
mens na  Praia  da  Barra  ;  e  cTestes  só  dois 
escapar." o  á  morte,  e  forão  condusidos ,  com 
as  cabeças  de  seus  companheiros,  em  trium* 
pho  até  á  Villa, 

Desanimado  o  Commandante  Inglez  com 
a  corajosa  defensa  dos  Paulistas,  seguio  para 
o  Espirito  Santo.  O  Governador  d  esta  Capi- 
tania tinha-se  prevenido,  e  quando  Roberto 
Morgan  abordou  com  duas  grandes  chalupas 


7& 

Jbem  tripoladas  ,  e  guarnecidas  ?  lhe  fe 
hum  fogo  Ião  activo  e  bem  diregido ,  cjue 
raros  voltarão  á  Frota f  ficando  as  praias 
juncadas  de  mortos^  e  a  cadeia  cheia  de 
prisioneiros*, 

Cavendi&h  se  dicidio  finalmente  a  buscár 
a  Europa,  e  morreo  na  viagem,  devorado 
por  hum  raivoso  desespero.. 

Tão  desastroso  resultado  n^o  foi  bastante 
para  impedir  que  os  Inglezes  tentassem  noi- 
vas hostilidades  contra  o  Brasil. 

II u ma  companhia  de  Londres  armou  se-* 
gunda  expcdielo,  e  o  Cavalheiro  Jayme  dê 
Lanças!  cr  ^  sem  embargo  de  mui  lo  devedor 
á  hospitalidade  portugueza,  I ornou  o  com- 
inando da  Fiola  s  composta  de  trez  navios  ^ 
e  se  direpio  sobre  Pernambuco.  Passando 
pela  Ilha  de  Maio,  reunio  as  suas  forças  ás 
de  Jouo  Vcnmr ,   e  veio  surgir  defronte 


77 

da  Cidade  de  Olinda.  O  Governador  "Portn-  1593 
guez  fortificou-se  no  Recife  *,  mas  Lancaster 
em  pessoa  á  testa  da  flor  de  sua  equipagem, 
assalta  e  toma  o  Furte  \  os  defen>ores 
abandonâo  o  terreno  ,  e  o  Pirata  sa- 
queia a  Cidade,  e  carrega  as  suas  embarca- 
ções de  ricos  despojos.  Todavia,  os  habi- 
tantes voltando  as  praias,  inquietão  o  ini- 
migo com  hum  continuado  tiroteiro  ,  t<  .1- 
ílo  em  v~o  queimar  a  Esquadra,  e  querem 
obsiár  á  sabida  de  Lancusttr ,  por  meio  de 
hum  a  bateria  bem  colocada;  este  manda  o 
Segundo  Commandanle,  João  Borker,  atacai- 
a,  o  'qual  perece  e  alguns  Francezes  que  se  ILe 
tinhfo  associado  j  entretanto,  a  Es  pildra  lo-e 
do  alcance  da  artilbtria.,  e  vai  ancuiár  eux 
Fiiidmuth. 

A  morte  de  Filippo  II  livrou  a  íl  spa- 
nha  de  hum  Sob*  rano  f 10  e  oneioso,  privou 
a  Inquisição  do  seu  mais  sanguinat  '■<>  ;.r  - 
tctcOi  ,  mas  nada  influiu  sobre 


78 

Portuguezas.  Filippe  III,  filho  de.*te  Mo- 

1598  narcha ,  herdou  o  Reino  de  Portugal  e  seus 
Domínios, 

D*  Francisco  de  Souza ,  então  Governador 
Geral,  informado  de  que  os  Pítagoares  conti- 
nuavão  a  destruir  as  plantações  visinhas  do  Pa- 
rahyba,  deod'isto  conta  â  Corte*,  e,  com  pré- 
via authorisaclo,  fez  armar  em  Pernambuco 
huma  Frota,  diregio-se  á  foz  do  rio  Grande, 
e  construio  ali  hum  Forte,  nomeando-lhe 
para  Commandante ,  Jerónimo  d' A Ibuquerque 
Coelho  j  o  qual  teve  que  sustentár  muitos  e 
frequentes  ataques  dos  Selvagens.,  até  que, 
conciliando-se  com  Sorobabè  }  Chefe  na  prin- 
cipal Tribu,  pôde  lançar  os  primeiros  fun«* 

1599  Jumentos  da  Cidade  do  Natál. 

D.  Pedro  Botelho,  que  lhe  succedera  n© 
Governo,  não  achando  na  Còrte  de  Madrid, 
sempre  solícita  em  definhár  as  possessões  de 
tão  temiveis,  posto  que  submettidos  visinhos, 


79 

*  apoio  requerido  por  seus  projectos  de  novas 
conquistas  sobre  os  Indígenas,  limitou-se  a  1603 
animár  a  exploração  dos  sertões. 

Gabriel  Soares ,  com  companheiros ,  vi- 
sita todo  o  terreno  banhado  pelo  rio  S.  Fran- 
cisco, vai  até  ás  fronteiras  do  Perú,  e  volta 
no  fim  de  tão  árdua  tarefa,  sem  a  menor  van- 
tagem. 

Pedro  Coelho  de  Souza  ,  não  foi  mais  feliz 
em  huma  primeira  digressão  pelo  rio  Para- 
hyba  e  seus  tributários*,  porém,  obtendo  do 
Governador  Geral,  auxilio  a  nova  expedição, 
partio  com  8o  homens,  diregindo-se  á  serra 
de  Ibiapaba.  Algums  Tapuyas  aqui  refugia- 
dos,  e  condusidos  pelo  Francez  Adolfo  Bom- 
bille ,  lhe  disputarão  o  accessoj  mas  elle  os 
cerca ,  e  escravisa  todos  os  Selvagens  apanha- 
dos com  as  armas  na  mão.  0  produto  d'esta 
viagem  não  correspondeo  aos  seus  muitos 
gastos  e  fadigas. 


8& 

Tcrcfira  irrupção  dos  Ay mores  veio 
ainda  inquietár  os  habitantes  da  costa  entre 
Bahia  e  Rio  de  Janeiro*,  mas  o  Governa- 
dor Geral  os  obrigou  a  deste i  rarem-se  para 
os  matos  virgens;  e  o  Jesuíta  Do min  §  os  Ro- 
drigues os  fez  depois  reunir  em  pequenas  Al- 
dêas. 

Huma  perfídia,  porem,  Foi  exercida  para 
com  os  Pítagoares.  Depois  d'estes  terem  con- 
corrido píira  livrár  os  Portuguezes  dos  in- 
sultos das  Hordas  bravias  dos  A)  mores,  tivè- 
jão  em  recompensa  serem  redusidos  á  escra- 
1604  \i  l^o  por  seus  alliados.  Filippe  II í  provi- 
denciou contra  esta  barbaridade  ;  mas  os 
Colonos,  confiados  na  distancia,  e  na  fra- 
quesa  de  hum  poder  que  odiavâo,  pouco  mi- 
iiòrar3o  os  málc*  dòs  míseros  Pitagoares. 

D.  Dwgo  de  Menezes ,   que  súccedee  a 
1608  D.  Vidro  Botelho,  quiz  explorár  as  margens 
do  Amasonas;  porém,  nao  conseguindo  soe- 


»i 

corro  d'He5panha ,  limitou-se  a  mandar  al- 
gumas famílias  estabelecerem  hum  pequeno  1609 
Presidio  na  embocadura  do  rio  Ceará ,  por 
lhe  parecer  este  lugar  fértil  e  sadio.  O  pro- 
gresso da  Povoação  foi  em  extremo  moroso, 
não  só  pelo  desalento  em  que  então  se 
achava  todo  o  Estado,  como  pela  escassez 
de  portos  n  esta  parte  da  costa.  Martini  Soa* 
rês  Moreno,  foi  o  seu  primeiro  Governador.  \Q\Q 

Nova  expedição  franceza.  —  Povoação  do  Maranhão  e  do 
Pa  rã. 

Em  1  D94,  o  Francez  Jacques  Rifault,  havia 
aportado  no  Maranhão,  começado  huma  pe- 
quena Colónia,  e  voltado  á  Europa,  dei- 
xando Carlos  de  Vaux,  em  seu  lugár;  pe- 
quenos reforços  tinhão  depois  vindo  animar 
a  ténue  Povoação  \  até  que  o  abondono  em 
que  se  conservava  esta  preciosa  parte  do  ter- 
ritório brasileiro,  indusio  os  Francezes  a 

1 1 


82 

fundarem  ali  hum  permanente  estabeleci- 
mento o 

Auguste  de  la  Ravardière  ,  depois  de  se 
ter  assegurado  de  favorável  acolhimento 
da  parte  dos  Tupinambás ,  par  tio  de  França , 
com  Emilio  Rasilly^e  Carlos  de  Harley,  á  testa 
1612  de  huma  forte  expedição,  e  veio  occupár 
aquella  ilha,  tão  utii  pela  fertilidade  do 
solo ,  como  por  sua  posição  3  naturalmente 
defendida. 

O  Governador  de  Pernambuco ,  Gaspar  de 
Souza  5  sabendo  do  ingresso  dos  Francezes, 
mandou  Jerónimo  de  Albuquerque  Coelho ,  cóm 
ordem  de  os  repellír  \  porém  os  poucos  meios 
que  foi  possivel  dar-lhe  para  atacar  a  forta- 
leza inimiga,  poderão  apenas,  por  serem 
empregados  com  coragem  e  habilidade ,  ob- 
ter huma  capitulação  pouco  vantajosa,  e  que 
os  instrusos  principiavão  a  violar,  quando 
Alexandre  de  Moura,  enviado  com  grande 


83 

reforço ,  sugeitou  os  Francezes  a  evacuarem 
o  Presidio,  e  regressarem  á  Europa,  na  mes- 
ma Esquadra  de  La  Ravardière.  1615 

A  Albuquerque  Coelho ,  nomeado  Capitão 
Mor  do  Maranhão,  se  devem  grandos  ser- 
viços tendentes  ao  engrandecimento  d'esta 
Povoação,  que  foi  augmentada  com  240  ca- 
zaes  de  Açoritas,  e  progredio  tão  repentina- 
mente ,  que  1 1  annos  depois  foi  separada 
do  resto  do  Brasil  ,  com  o  titulo  de 
Estado  do  Maranhão,  e  administrada  por 
Francisco  Coelho  de  Carvalho ,  com  responsa- 
bilidade á  Corte. 

Depois  de  restaurada  aquella  ilha,  Albu- 
querque Coelho ,  desejando  formar  hum  esta- 
belecimento perto  da  foz  do  Amasonas,  fez 
partir  o  intrépido  Francisco  Caldeira  ,  com- 
mandando  200  homens,  na  pesquisa  de  aza- 
da posição,  o  qual  achando-a  na  margem 
oriental  do  Tocantins,  sobre  abaliiade  Gisa- 


84 

jará  ,  deo  logo  principio  á  Cidade  de  Belém  ? 
1616  por  bum  Forte  de  madeira,  d\>nde  muitas 
vezes  foi  obrigado  a  repellír  os  Tupinamba- 
ranás  e  Maues ,  que  por  largo  tempo  fizerâo 
huma  guerra  crua  e  destructiva  aos  Portu- 
guezes,  e  a  quem  só  podião  resistir  a  cons- 
tância e  valor  de  Caldeira, 

Alguns  navios  holandezes  transportarão 
huma  pequena  expedição ,  que  veio  abordar 
ao  Sul  do  Amasonas-,  mas  os  Colonos  a  ex- 
pellirão ,  apoderando-se  de  toda  a  artilheria 
da  Frota. 

Factos  mais  interessantes  agora  reclamão 
1621  attençao;  Filippe  IV  sobe  ao  throno  dHes- 
panha  \  e  o  Brasil  vai  ser  desolado  por  huma 
guerra  mais  longa  e  ruinosa  do  que  todas  as 
que  ate  então  tinha  sustentado, 


85 


O»  Hofandezcs  atacâo  o  Brasil.  —  ConJucta  dos  Colonos 
para  com  os  Indígenas. 

A  Holanda,  herdeira  da  gloria  Portugue- 
za,  estendia  o  seu  domínio  pelas  costas  da 
Asia  ,  quando  intentou  estabelecer-se  no 
Novo  Mundo.  O  projecto  da  conquista  do 
Brasil,  proposto  ao  Conselho  Geral,  encon- 
trou alguns  detractores,  a  quem  parecia  im- 
prudente vir  arriscar  em  novas  e  Lmgiquas 
terras,  os  homens  e  o  cabedal  que  a  Republica 
podia  empregar  nas  suas  Colónias*,  todavia, 
a  tregoa  concedida  á  Hespanha  hia  expirar, 
e  a  fraquesa  deste  Estado  promettendo  a  fa- 
cilidade da  empresa,  concedeo-se  a  huma 
companhia,  denominada,  das  índias  Occiden-  >j 
taes,  armár  huma  Esquadra  de  6o  velas 
contra  o  Brasil. 

Tres  oíílciaes  hábeis  diregião  a  expedição; 
Jacob  Fillekem,  e  Pedro  Haynes  comman- 


86 

davao  a  primeira  Divisão-,  Ilans  Vandort 
condusia  a  segunda  ,  e  as  Tropas  de  terra. 
Os  tempos  contrários  separarão  as  duas  Fro- 
tas ;  porem  bastou  que  a  de  Vilíekens  apa- 
recesse na  bahia  de  Todos  os  Santos,  para 
i  624  que  lU(lo  se  lhe  rendesse. 

Tal  hera  o  apuro  a  que  a  Corte  d'Hespa- 
nha  tinha  levado  a  Colónia ,  que  o  Governa- 
dor Geral  Diogo  de  Mendonca  ,  não  tinha 
mais  de  8o  homens  de  Tropa  regulár  para  a 
defensa  da  Capitál.  Os  Milicianos,  que  elle 
juntou  precipitadamente  5  o  abandonarão 
logo  que  o  inimigo  abordou.  A  resistência 
se  tornou  então  inútil.  O  Governador,  po- 
rem, homem  corajoso  e  firme,  entrinchei- 
rando-se  em  seu  palácio  3  não  consentio  em 
depor  as  armas ,  sem  a  condição  de  que  se 
lhe  conservaria  a  liberdade  *,  bem  que,  con- 
tra o  direito  ,  e  todas  as  leis  da  honra,  fosse 
condusido  como  prisioneiro  para  bordo  do 
Navio  Almirante, 


8j 

Vandort,  chegou  a  S.  Salvador  quando  a 
Cidade  estava  já  em  poder  dos  Holandezes, 
e  tomou  o  cominando  das  Tropas.  Willekens 
voltou  á  Europa ;  e  Haynes,  foi  levár  a  guerra 
á  Capitania  do  Espirito  Santo. 

Os  habitantes  da  Bahia,  obrigados  no  pri- 
meiro impulso  a  ganharem  o  interior  do  paiz, 
resolvem  expulsar  os  invasores,  escolhendo 
para  seu  Chefe  o  Bispo  D.  Marcos  Teixeira ; 
este  os  anima  eom  discursos  cheios  de  fogo  e 
eloquência,  e  cahe  denodadamente  sobre  o 
inimigo  ,  fazendo  tervivel  matança.  O  Ge- 
neral Vandort  perde  a  vida  n'este  conflicto, 
e  o  temor  se  apodera  dos  seus.  0  nobre 
Prelado  succumbe  gloriosamente  ás  fadigas; 
mas  Francisco  Nunes  Marinho,  seu  digno  suc- 
cessor,  conservava  os  Holandezes  em  contínua 
ameaça,  quando  Z).  Fradique  de  Toledo, 
commandando  huma  considerável  força  com- 
posta de  voluntários  Portuguezes,  surge  de- 
fronte da  Cidade  de  S.  Salvador.  0  inimigo 


88 

defende-se  com  esforço  e  habilidade ;  mas  no 
fim  de  3o  dias  he  constrangido  a  capitulár; 
e  jurando  não  mais  tomár  armas  contra  a 
Hespanha  e  seus  Dominios  ,  evacua  o  terri- 
1625  tório. 

De  balde  o  Almirante  Balduíno  Henrik  vem 
com  grande  reforço  soceorrer  seus  compatrio- 
tas ;  o  Chefe  Hespanhol  o  obriga  a  regressár , 
e  elle,  procurando  os  mares  do  Norte,  lie  vic- 
tima  de  hum  contágio  declarado  a  bordo ,  e 
mortal  para  a  maior  parte  da  guarnição. 

Toledo ,  tendo  restituído  a  paz  aos  habi- 
tantes da  Bahia,  voltava  a  Cadix ,  quando 
huina  furiosa  tempestade  destruio  a  Esqua- 
dra :  sò  3  pequenos  navios  chegarão  ás  costa* 
da  Hespanha. 

O  Almirante  Haynes ,  batido  na  Capitania 
do  Espirito  Santo,  hia  no  rumo  da  Holanda, 
quando  tomou  os  galiões  que  do  México  leva- 

/ 


89 

vão  annualmentc  á  Metrópoli  o  producto  da 
Colónia :  captura  a  mais  rica  que  se  tenha 
feito  sobre  os  mares. 

A  sorte  dos  Indígenas,  tão  temíveis  na 
guerra  quanto  inúteis  na  paz  ,  empeiorava 
cada  dia  \  os  Colonos  tinhão  adoptado  como 
meio  de  represália  contra  os  ataques  frequen- 
tes dVstes  Povos,  escravisarem  quantos  ca- 
hiao  em  seu  poder )  as  riquesas  dos  proprie- 
tários heião  avaliadas  pelo  numero  dVstes 
desgraçados  ,  bem  vezes  tratados  com  injus- 
tiça e  crueldade  por  seus  possuidores.  Na  po- 
voação do  Pará  ,  particularmente,  se  exer- 
ciâo  barbaridades,  desde  o  começo  do  esta- 
belecimento de  Francisco  Caldeira ,  contra 
os  Tupinambás,  que  não  cessav.lo  de  accom- 
meter  as  primeiras  habitações.  A  ííespanha 
interveio  a  favor  dos  Selvagens,  com  algumas 
leis  philantlirópicas  obtidas  pelo  Jesuíta 
Antonio  Vieira,  que  para  este  eíTeito  se  trans- 
portou a  Madrid ;  e  hum  Breve  do  Santo  Pa- 


/ 


9o 

dre  excomniungava  todo  o  que  eaptivasse 
qualquer  Americano  *,  mas  nos  vamos  referir 
hum  facto  posterior  a  estas  providencias,  e 
que  prova  quão  pouco  ellas  influirão. 

Bento  Maciel,  Capitão  igualmente  bravo 
e  tiranno,  tinha  governado  desde  1621 
até  24,  a  Colónia  do  Gram  Pará,  sempre 
guerreando  com  vantagem  contra  os  Tu- 
pinambãs,  a  quem  hia  procurar  no  meio 
dos  bosques.  Manuel  de  Souza  d' Eça ,  que 
lhe  succedeo  no  Governo ,  foi  atacado  por  if\ 
Tribus  reunidas  doesta  Nação  *,  e  no  momento 
em  que  hia  suecumbir  com  todos  os  habi- 
tantes ,  Maciel  offerece-se  para  bater  o  ini- 
migo, e  acabar  por  huma  vez  com  este  flagelo; 
e  á  testa  de  hum  numero  considerável  de 
Tapuyas,  implacáveis  rivaes  d'aquelles  Sel- 
vagens, obriga  os  atacantes  a  recuar  até  aos 
matos,  e  aií  lhes  faz  hum  cerco  tão  bem 
diregido,  que  os  ^4  Chefes  são  aprisionados. 
Elie  os  entrega  á  barbaridade  dos  Tapuyas^ 


9l 

que  os  dilacerão  e  devorão  em  huma  hora , 

e  volta  a  Beiem  com  mais  de  3oo  Indígenas  1627 

escravos. 

Segunda  invasão ,  e  estabelecimento  dos  Holandezes. 

Chegamos  a  hum  dos  períodos  que  mais 
interesse  inspirão  na  Historia  do  Brasil. 

Hum  Povo  pequeno  e  sem  recursos ,  mas 
cheio  do  mais  nobre  patriotismo,  vai  com- 
bater a  prol  de  sua  independência,  contra 
ávidos  agressores,  com  tão  assignalada  va- 
lentia, que  as  mesmas  Tribus  por  elle  op- 
primidas  não  hesitão  em  calar  antiga 
inimisade ,  e  concorrerem  para  fazer  trium- 
phár  a  mas  illustre  das  causas. 

Se  os  Brasileiros,  descendentes  d'estes  he- 
roes,  se  virem  ainda  submergidos  em  alguma 
de  semelhantes  crises,  que  exigem,  além  de 
hum  decidido  valor,  a  mais  firme  perseve»- 


92 

rança,  attcntem  n'esta  época  da  sua  Historia  : 
n'ella  acbaráõ  feitos  tão  gloriosos  como  os 
mais  gloriosos  da  antiguidade',  aqui  vcráõ  a 
victoria  reunir  todas  as  raças  que  compõem 
a  Nação,  para  as  coroar  com  o  mesmo  louro. 

Os  ílolandezes,  longe  de  desanimarem  com 
a  derrota  que  tinhao  experimentado  na 
Bailia,  tentarão  hum  maior  ataque  sobre  a 
opulenta  Capitania  de  Pernambuco,  na  es- 
perança de  assim  recuperarem  as  perdas  da 
guerra  precedente. 

Apezár  das  precauções  tomadas  peia  Com- 
panhia das  índias  Occidentaes,  para  que  se 
ignorasse  o  verdadeiro  alvo  da  expedição  ,  a 
Hespanha  foi  d'elle  instruída  pela  activa  vigi- 
lância do  Governo  dosPaizes-Baixos,  e  enviou 
1629  Mathias  d'  Albuquerque^  ao  soccorro  do  ponto 
ameaçado;  porém,  as  poucas  forças  postas 
á  sua  disposição,  não  permettião  bem  agou- 
rar do  resultado  \  com  efeito ,  não  obstante 


93 

seus  esforços,  mal  a  Armada  holandeza  ha- 
via ancorado  no  porto,  quando  o  General 
Henrique  Loncq  occupava  Olinda. 

Os  soldados  mercenários  ,  em  quem  o  amor 
da  gloria  está  substituído  pela  esperança  da 
pilhagem,  salisfasem  raramente  á  politica 
de  seus  amos  \  os  da  Republica  Holandeza 
commetterão  os  mais  odiosos  excessos  3  e  assim 
atearão  nos  habitantes,  curvados  ao  poder 
do  numero,  o  fogo  da  vingança,  dc  prompto 
secundado  pela  mais  abaiisada  coragem. 

M.  a"  Albuquerque ,  dando  ao  inimigo  huma 
primeira  prova  de  seu  caracter,  lançou  o 
fogo  aos  armasens  que  continhão  as  riqncsas 
de  Olinda-,  levou  as  chamas  até  á  Esquadra, 
que  poderia  servir  ao  vencedor,  e  foi  reu- 
ni r-sc  com  os  seus  lonsre  da  Cidade. 


Tudo  pois  parecia  submettido  aos  invasores; 


94 

no  Forte  de  S.  Jorge,  porem  ,  commandad© 
por  João  Fernandes  Vieira  ,  tremolava  ainda 
a  bandeira  portugueza.  Este  moço  impávido 
e  por  ventura  hum  heroe  d'aquelle  século , 
á  frente  de  37  guerreiros  animados  com 
seu  nobre  exemplo ,  defende  o  posto  durante 
6  dias  inteiros ,  contra  os  esforços  de  4°°Q 
homens  disciplinados  e  munidos  de  nume- 
rosa artilheria  ;  mas  finalmente ,  vendo-se 
quasi  sepultado  com  seus  bravos  nas  ruinas 
do  pequeno  baluarte  ,  propõe  capitula- 
ção *,  e  se  o  inimigo  o  quer  constranger 
por  ella  a  deixar  o  serviço  da  Patria,  res- 
ponde que  vai  deixaUo  com  a  vida ,  e  conti- 
nua o  fogo  mais  activo  sobre  os  sitiantes,  que 
então  admirados  lhe  dão  inteira  liberdade. 

M,  d' Albuquerque,  animado  com  a  pas- 
mosa  defensa  de  Vieira,  volta  as  visinhanças 
da  Cidade,  com  hum  punhado  de  habitantes 
extenuados  de  miséria ,  retoma  o  Forte  d® 


95 

Nazaré  th ,  guarnece  Porto  Calvo ,  e  entrin-* 
cheira-se  entre  o  Recife  e  Olinda  ,  cTonde 
inquieta  o  inimigo  com  repetidos  ataques. 

O  Indígena  Filippe  Camarão,  diregindo 
hum  corpo  de  seus  patricios ,  impede  a  apro- 
ximação dos  Holandezes,  por  meio  de  conti- 
nuadas escaramuças ,  em  huma  das  quaes 
aprisiona  o  General  Loncq ,  e  passa  á  espada 
a  sua  forte  guarda  *,  aquelle  consegue  evadir- 
se  por  hum  feliz  occaso. 

Todavia ,  o  Chefe  Portuguez  vendo-se  com 
menos  de  600  homens  de  Tropas  regulares 
carecidos  das  munições  mais  indispensáveis, 
resolveo  limitar-se  á  defensiva,  e  escrever 
á  Côrte,  pintando  hum  exacto  quadro  da 
extremidade  a  que  se  via  redusido.  Em  res- 
posta a  esta  reclamação,  a  Hespanha  lhe  en- 
viou hum  pequeno  reíbrço ,  que  foi  cortado 
no  primeiro  ataque. 


96 

Talvez  que  o  Brssil  fosse  então  por  huma. 
vez  abandonado,  se  a  Côrte  de  Madrid  não 
recebesse  informação  de  que  a  Holanda  man- 
dava hiima  Armada  considerável  contra  o 
Brasil ,  e  que  o  Chefe ,  Adrião  Palrid,  tinha 
ordem  de  hir  depois  em  cata  dos  galiões 
do  México.  O  temor  de  ver  segunda  vez 
passar  ás  mãos  do  inimigo,  tão  grandes 
riquesas,  obrigou  o  Conde  de  Olivares  sl 
mandar  D.  Antonio  Oquendo ,  com  algu- 
mas Tropas  disciplinadas  ,  ás  duas  mais 
1631  importantes  Capitanias  do  Brasil.  As  es- 
quadras se  encontrarão  em  Pernambu- 
co, *onde  a  victoria  ,  disputada  com  igual 
valor,  pertenceo  finalmente  aos  liespanhoes  ; 
e  Patrid,  preferindo  a  morte  a  render-se2 
antes  de  se  lançar  nas  ondas,  envolvido  na 
bandeira  nacional,  pronunciou  estas  pala- 
vras, que  o  immortalisarão  :  o  Oceano  he 
o  único  túmulo  digno  de  hum  Almirante 
Batavo. 


97 

Oqiiendo  desembarcou  a  expedição,  com 
posta  de  700  homens,  Portuguezes,  Ilespa- 
nhoes,  e  Italianos,  eommandados  pelo  Conde 
de  Bagnolci)  desta  última  NaçXo. 

O  General  Jorge  de  Vardnnburg ,  Chefe 
dos  Hoiandezes,  julgando  o  reforço  mais  con- 
siderável, entrega  Olinda  ás  chamas,  e  ten- 
ta em  vão  fazer-se  forte  no  PonUl  de  N&za- 
reth,  ena  Povoação  tia  Parahyba,  onde  perde 
muita  gente.  No  meio  dYsles  desares,  o  Par- 
do Domingos  Fernandez  Ca  (abar,  deixando 
os  Portuguezes  ,  pas.ca  ao  inimigo,  e  a  victoria 
com  elle.  Ao  ardil  deste  transfnga  deveo 
Vardnnbur g  a  tomada  da  Ilha  d"Itamarará, 
onde  20  homens  commandai  !os  por  Pedro 
de  Albuquerque,  defi  ndem  o  Forte  ,  e  monem 
todos  gloriosamente',  sí  11  digno  Chefe,  coberto  j  £32 
de  feridas,  torna  á  vida  em  poder  do  ini- 
migo, que  pasma  de  tanta  bravura. 


Por  este  tempo,  chegarão  a  Pernambuco 

i3 


98 

633  mais  3,ooo  Holandezes  entregues  ao  Gene» 
ral  Lourenço  Reimbach,  revestido  de  am- 
plos poderes.  F  ar  de  mb  ur  g  pedio  demissão )  e 
se  retirou  ás  Províncias  Unidas.  M.  d' Albu- 
querque,  com  menos  de  i,2Go  homens  de  In- 
fanteria  ,  convida  o  inimigo  a  huma  acçlo , 
esalie  viciorioso.  O  General  Reimback  recebe 
huma  ferida  mortal,  e  he  substituído  por 
Sigismwido  de  Escup. 

Com  tudo,  os  Portuguezes  não  tinhao  ga« 
nhado  tão  desigual  batalha,  sem  grande  des- 
falcamento,  e  Sigismundo,  aproveitando  as 
circunstancias,  foi,  ajudado  pelo  traidor 
Calabar,  occupár  a  Cidade  do  Natal ,  da 
qual  fez  o  theatro  da  mais  horrorosa  carni- 
ceria  j  e  d'aqui  passou  ao  Pontal  de  Naza- 
reth,  cujos  defensores  lhe  não  terião  cedido, 
a  não  ser  Calabar ,  que  por  hum  admirável 
estratagema,  fez  servir  a  Marinha  holandeza 
á  tomada  da  V  illa,  desmastreando  a  Esquadra, 
e  fazendo-a  passar  por  hum  canal  lãô  estreito 


99 

e  baixo,  que  até  então  as  mais  ligeiras  bar- 
cas não  tinhão  ousado  ahí  aventurar-se. 
Pouco  tempo  depois,  Porto  Calvo  resistio 
em  vão  ao  assedio  de  5o,ooo  bomens  reu- 
nidos. 

O  pavilhão  invasor  estava  pois  arvorado  \ 
em  Pernambuco,  Puo  Grande  do  Norte,  e 
Parahyba  *,  tudo  annunciava  que  em  breve  o 
inimigo  hia  diclár  a  lei  aos  poucos  Por  tu- 
guezes  que  resta  vão. 

M.  d' Albuquerque ,  tendo  esgotado  todos 
os  recursos  que  lhe  offerecia  seu  valor ,  e  ta- 
lentos militares,  nada  mais  lhe  ficava  do  que 
fugir  á  tirannica  oppressâo  dos  vencedores. 
J.  Fernandes  Vieira^  que  sempre  combatera 
a  seu  lado  ,  proclama  aos  Colonos,  e  estes  se 
unem  a  seus  Chefes,  tomando  a  nobre  reso- 
lução de  com  elles  emigrarem  para  o  interior 
de  Pernambuco. 


100 

Velhos,  mulheres,  e  crianças,  todos  aban- 
douTo  o  ninho  pátrio,  e  vã;)  penetrar  p<  ios 
sei  tõ<  s  ,  a  travez  tle  mil  calam  idades.  Nos 
desertos  do  Brasil  resoarão  ent  o  os  clamores 
dos  Europeos  perseguidos  por  Europeos,  e  se 
alguns  Selvagens,  sahindo  do  seio  dos  bos- 
ques, vierãp  comtemplâr  esta  scena  de  deso- 
lação, acharão  talvez  que  o  Cco  os  vingava 
com  demasiada  crueldade. 

Estes  desgriçados  passavão  perto  do  Porto 
Calvo,  quando  Sebastião  de  Souto,  que  es- 
tava em  poder  dos  Holandezes,  se  offereceo 
para  reconhecer  os  fngithosj  e  voltando  á 
Villa,  assegurou  que  M.  d' 'A lnufjiKrque  náo 
tinha  mais  de  200  homens,  que  todos  Lião 
carregados  de  avultadas  riqutsas,  faci  is  de 
tomar  com  pequena  força.  Sigismundo  faz 
immedia lamente  partir  3oo  soldados  com 
ordem  de  seguirem  m  passos  de  Souto',  mas 
este,  ehrgando  á  frente  dos  Portuguezes  9 
passa  para  elles,  e  se  arremessa  de  súbito 


lOt 

sobre  os  Holandezes,  que  surprcndidos  fogpm 
precipitadamente,  M.  d'  Albuquerque  os  se- 
gue com  igual  velocidade,  hindo  entrar  de 
envolta  com  o  inimigo  dentro  da  Praça,  cuja 
guarnição  cede  a  este  ataque  inesperado»,  e 
abandona  a  Villa.  Ca  abar  íicou  orisiosnito, 
e  pagou  com  a  vida,  n'este  mesmo  lugáronde  1635 
nascera,  a  sua  infame  traição. 

As  cousas  se  aehavTo  assim,  quando  chr- 
gou  hum  pequeno  reforço  qtie  a  líe  -punha 
mandava  a  Pe  rnambuco  ;  porém  Aí.  d' Alba» 
querqve  foi  então  rendido  por  bum  Geunai 
Hespanho!  >  e  o  heróico  defensor  do  Brasil 
voltou  á  Europa.,  onde  seus  ber\iço:>  íicarâo 
sem  a  menor  reeompensa. 

D.  Luiz  de  Roxa  y  Borela  ,  quiz  seguir 
hum  syslema  de  guerra  em  tudo  opposto  ao 
do  seu  anti  cesso r,  e  perreeo  no  [rt  bueiro 
combate 3  em  que  todo  o  Exeieito  tjn  i.i  igual- 
mente succuuJjido  bc  Fil.ppe  CamaruO ,  e 


102 

Francisco  Rebelo,  não  tivessem,  por  meie 
de  acertadas  manobras  ,  sabido  proteger  hu- 
ma  perigosa  retirada. 

Pela  morte  de  B orgia ,  o  cominando  re- 
cahio  no  Conde  de  Bagnolo, 

Os  Holandezes,  mais  activos  do  que  nunca, 
repetia  o  sem  cessár  novos  ataques  sobre  Porto 
Calvo;  por  outra  parte,  F.  Camarão,  e  o 
Preto  Henrique  Dias,  fazião  babeis  e  conti- 
nuas sortidas,  ás  quaes  o  inimigo  não  podia 
reagir  sem  empregar  muita  gente.  N'estas 
637  circunstancias,  apareeeo  hum  numeroso  troço 
de  Tropas  holandezas,  que  vinhão  debaixo  do 
com  mando  do  Principe  Mauricio  de  Nassau, 
Primo  do  Stadhouder,  concluir  a  conquista. 

O  novo  General  começou  por  juntar  todas 
as  forças  disponiveis ,  e  assaltar  o  único  re- 
fugio dos  Portuguezes.  Os  defensores  resistia  o 
com  hum  denodo  admirável  j  muitas  mulhe- 


io3 

res  tomarão  as  armas  para  repellirem  os 
encarniçados  invasores ;  H.  Dias  mostrou 
que  o  heroísmo  pertence  a  todas  as  raças; 
porem  foi  força  ceder  ao  número ,  e  evacuar 
a  Villa. 

Segunda  vez  vão  trilhar  ásperos  sertões 
os  malfadados  Colonos  de  Pernambuco  ,  bus- 
cando agora  asilo  na  Capitania  da  Bahia. 

As  particularidades  d  "esta  viagem,  for- 
mão hum  dos  mais  dolorosos  quadros  que 
possão  offerecer  os  annaes  das  Nações.  Qua- 
tro centas  pessoas  expirarão  nos  desertos , 
victimas  da  crueldade  dos  Pitagoares,  ou 
atormentados  pelos  horrores  da  fome,  antes 
que  os  emigrados  chegassem  a  S.  Salvador. 

O  Governador  Geral  Pedro  da  Silca^  não 
recebeo  sem  repugnância  as  Tropas  comman- 
dadas  por  Bagnolo  \  mas  cedo  conheceo  que 


i©4 

es*e  soeorro  inesperado  o  subtrahia  a  elíe 
mesmo  a  igual  sorte, 

O  Príncipe  Mauricio ,  animado  prla  Vic- 
toria, embarca  7,800  soldados  em  4°  navios, 
e  vai  atacar  S.  Salvador,  em  quanto  oulra 
Divisão  assalta  a  Povoação  de  Seregype,  e  a 
incendia  depois  de  horroroso  saque* 

Logo  que  a  Armada  inimiga  apareceo  na 
Bahia,  o  Governador,  apezár  de  viva  oppo- 
siçâo,  d<  o  o  commaudo  <  m  chefe  das  Tro- 
pas ao  Conde  cie  Bagnoli),  o  qual  desenvol- 
vendoentão,  pela  primeira  vez^  todo  o  valor  e 
Í637  actividade  de  que  hera  capaz,  salvou  a  Ca- 
pital de  huma  invasão  que  p  reeia  inevitável, 
pondo  Mauricio  na  necessidade  de  regressar 
ao  Recife  com  perda  de  grande  parte  do 
seu  Exercito. 


Depois  deste  destroço,  o  Chefe  Holandês 


io5 

voltou  suas  vistas  para  o  progresso  interno 
da  Colónia,  e  principiou  a  gosár  tranquillo 
da  nova  conquista.  Hum  sábio  regulamento 
tendente  a  reprimir  a  indisciplina  da  Tropa 
e  a  intolerância  religiosa  foi  posto  em  exe- 
cução j  a  administração  de  finanças  recebeo 
salutares  melhoramentos,  e  opaiz  voltou  em 
breve  espaço  á  antiga  prosperidade. 

Viagem  pelo  Amasonas.  —  O  Brasil  hé  governado  por 
Yicereys. 

A  vastidão  do  Estado  do  Brasil,  e  a  difi- 
culdade de  communicações ,  conservavão 
como  ilhados  os  differentes  estabelecimentos. 
Em  quanto  nas  Capitanias  situadas  a  meia 
costa,  se  passavão  os  factos  que  acabamos  de 
narrar,  Rio  de  Janeiro  e  S.  Vicente  jasião 
cm  perfeita  bonança,  e  os  habitantes  do 
Norte  seoceupavão  em  guerrear  contra  huma 
multidão  de  Tribus  indigenas,  que  invadião 
as  novas  Povoações. 

«4 


io6 

O  temor  de  cahír  nas  mãos  «Testas  Hor- 
das bárbaras,  tinha  prohibido  a  Jdcome 
Ray mundo  de  Noronha ,  que  havia  usurpado 
o  Governo  do  Pará ,  de  reconhecer  o  mages- 
toso  rio  Âmasonas,  até  que  finalmente  hum 
occaso  o  animou  á  empresa. 

Dois  Jesuitas  Hespanhões,  Domingos  de 
Brieba^  e  André  de  Toledo  ,  se  tinhâo  in- 
trodusido  entre  os  Selvagens  do  Perú  ,  no 
intuito  de  os  converterem  á  fé  catholica; 
mas,  perseguidos  por  alguns  Chefes  escan- 
dalisados  dos  Christãos  ,  ti  verão ,  para  esca- 
par á  morte ,  que  se  embarcarem  em  huma 
piroga  ,  e  abandonando-se  á  corrente  de 
bum  rio  desconhecido  ,  aparecerão ,  no 
fim  de  longa  e  calamitosa  viagem,  perto  da 
Cidade  de  Belém,  pela  foz  do  Amasonas. 

Exultante  e  Governador  Noronha  com  a 
narração  dos  Missionários,  e  desejoso  de 
dár  principio  á  empresa  que  gisava  desde 


107 

tanto  tempo ,  propôs  a  Pedro  Teixeira,  co- 
nhecido por  valente,  e  instruido  no  idioma 
e  costumes  dos  CaLocolos,  o  commando  da 
arriscada  expedição:  o  que  sendo  acceito  por 
este,  de  acordo  com  Bento  Rodrigues  de  Oli- 
veira, partio  immediatamente  huma  Frota 
de  /}5  canoas  guarnecidas  por  70  soldados, 
e  1,200  Indígenas,  levando  por  guias  os  dois  \fâf 
Religiosos  Castelhanos, 

Logo  que  os  navegantes  entrarão  na  em* 
bocadura  do  Amasonas,  tiverão  que  lutár 
com  as  impetuosas  correntes,  qnc  os  lança- 
va©^ já  ao  Sul,  já  ao  Norte,  com  tal  violên- 
cia, que  muitos  remadores  desanimarão,  e 
alguns  Indigenas,  no  fim  de  to  dias  de 
viagem,  se  revolucionarão ,  e  regressarão  a 
Belém,  em  4  canoas.  Teixeira  mandou  então 
que  a  Frota  se  repartisse  em  duas  Divisões, 
e  confiou  a  da  vanguarda  ao  hábil  Rodri- 
gues de  Oliveira ,  com  ordem  de  aportar  onde 
conveniente  fosse.  Assim  navegou  a  expe- 


io8 

dição  per  longo  tempo,  até  que  chegando 
ao  lugar  onde  o  rio  Paganino  se  lança  no 
Amasonas,  fizerão  alto  junto  ás  ruínas  de  hum 
pequeno  Forte 9  ali  construído  pelos  Hespa- 
nhoes  para  conservár  em  respeito  a  Tribu 
dos  Quixos.  Rodrigues  de  Olhara  mandou 
d'isto  parte  ao  Commandante,  e  este  deo 
pressa  em  se  lhe  reunir.  Como  o  rio  deixasse 
aqui  de  ser  navegável*,  seguirão  por  terra  na 
mesma  ordem ,  atravessarão  as  férteis  cam- 
pinas habitadas  pelos  indígenas  que  Teixeira 
chamou  índios  Cabelludos  ,   passarão  por 
Baeza,  antiga  Praça  hespanhola ,  centrarão 
em  Quito,  depois  de  hum  árduo  trajecto  de 
mais  de  700  legoas.  A  noticia  dos  impávi- 
dos viajantes  pareceo  fabulosa  no  Perú,  até 
que  os  correios  de  Baeza  a  confirmarão.  O 
Vicerey,  o  Corpo  Municipal,  e  todas  as  per- 
sonagens da  Cidade,  na  maior  surpresa  % 
alvoroço  vi  era  o  felicitar  os  ousados  Portu- 
guezes  por  tão  importante  descoberta ;  e  o 
Corregedor  D.  João  Fellasques  de  Âcuha^ 


io9 

©ffereceo  desde  logo  a  sua  pessoa  e  bens  a 
favor  de  huma  grande  expedição  para  acom- 
panhár  Teixeira  na  descida  do  rio. 

Pela  actividade  do  Vicerey,  em  pouco 
tempo  se  achou  a  grande  Frota  prompta 
a  partir. 

Para  evitar  a  marcha  por  terra,  Teixeira 
começou  a  viagem  entrando  por  huma  das 
origens  do  Napo,  veio  por  este  sahír  ao 
Amasonas*,  examinou  38  dos  mais  considerá- 
veis tributários  d'este  rio,  e  24  grandes  Na- 
ções cabocolas  ate  então  ignoradas,  que  ha- 
bitavão  as  suas  margens;  chegando  á  Tribu 
dos  Cabelludos,  tomou  solemne  posse  d  ;s 
Campos  dos  Açores  para  a  Corôa  de  Por- 
tugal, em  nome  de  FilippelVj  e,  depois 
de  ter  por  cinco  vezes  combatido  com  os  Sel- 
vagens ,  em  duas  das  quaes  teve  que  aban- 
donár  todas  as  embarcações,  chegou  a  Be-  1639 
leni  com  1 1  mezes  de  viagem. 


He  fácil  imaginár  o  gáudio  que  causou  a® 
Governador  Noronha,  o  bom  resultado  da 
empresa;  pelo  qual  foi  perdoado  da  usurpação. 

Se  então  a  Hespanha  tivesse  prestado  o 
devido  auxilio  á  navegação  do  grande  rio, 
se  gosariao  hoje  as  gigantescas  vantagens 
de  tao  util  achada;  porém  a  negligencia, 
mais  do  que  a  politica,  fez  com  que  as 
margens  do  abondante  Amasonas  se  con- 
servem ainda  hoje  desertas.  As  mesmas  Na- 
ções bárbaras  que  aqui  babitavão  desapa- 
recerão, e  não  tem  sido  possivel  saber  o  seu 
destino.  Talvez,  mais  prudentes  que  outros 
Selvagens ,  se  retirarão  ás  impenetráveis 
brenhas  do  Norte  \  mas ,  cedo  deixarão  de 
haver  estes  asilos  *,  e  o  vasto  território  ama- 
sonico,  descortinando-se  aos  olhos  de  intré- 
pidos viajar? tes ,  mostrará  as  deploráveis 
Tribus  escapadas  ao  furor  da  civilisação  \  aqui 
se  encontrarão  os  Topinambás  repellidos  do 
Sul,  e  os  Qmagoás ,  que  se  teráõ  pouco  a 


1 1 1 

fastado  de  sua  antiga  Patria  :  mais  longe,  os 
Tapuyas,  victimas  de  todos  os  conquistado- 
res, e  outros  de  quem  se  ignora  até  os  no- 
mes*, oxalá  que  os  respeitáveis  restos  d'estas 
poderosas  Nações  sejão  conservados ,  e  que 
possamos  oíFerecer  aos  séculos  vindouros  a 
prova  de  que  a  America  descoberta  em  nossos 
dias  não  foi  manchada  por  atrocidades ,  só 
desculpáveis  á  superstição  e  ignorância. 

Por  esta  época,  o  derradeiro  Filippe  con- 
decorou o  Governador  do  Estado  do  Brasil , 
que  então  hera  o  Marquez  de  Montalvão , 
com  o  titulo  de  Vicerey,  que  passou  aos  1640 
seus  successores. 


QUARTA  ÉPOGA. 

©  ôrasil  livvt  iro  jitga  ir^rspanlja. 


A  tirannia  dos  Filippes  tinha  abatido  o 
ânimo  lusitano,  sem  conseguir  degradal-o ; 
o  ódio  aos  Hespanhoes,  e  o  amor  da  inde- 
pendência ,  não  deixarão  hum  momento  os 
peitos  portuguezes,  durante  6o  annos  que 

sua  illustre  Patria  jaseo  oppressa  pelos  in*» 

i5 


"4 

justos  ferros  estrangeiros.  Quarenta  Nobres 
finalmente,  aíFrontando  as  colossaes  foiças 
inimigas,  escudados  pelo  valor  e  patriotismo 
nacional,  sol  ião  o  primeiro  grito  de  'liber- 
dade; Lisboa  inteira  repele:  Liberdade;  c, 
como  por  bum  eífeito  eléctrico  ,  em  poucas 
horas,  o  Duque  de  Bragança  oecopao  throno , 
com  o  nome  de  D.  João  l\ ',  e  Portugal  torna 
1640  a  ser  dos  Porluguczes. 

A  nova  da  gloriosa  restauração  foi  iccc- 
4 641  bida  no  Brasil  t  om   geral  enlbusiasmo;  os 
Hoiandezcs  porém,  mostrai ão  bum  regosijo 
de  cuja  sinceridade  há  permittido  duvidar. 

Insurreição  em  S.  Vicente. 

Os  ITcspnnhocs  residentes  em  S.  Vicente, 
e  a({dí  aUiacfos  a  muitas  famílias,  mo  sou- 
beião  sem  grando  prçár  da  feliz  revolução 
de  Portugal;  c  confiando  na  ignorância 
do  Povo  dla^Liella  Capitania,  tnluo  mais 


1 15 

propenso  ás  armas  cio  que  ás  letras,  tenta- 
râo  aproveitar  o  abandono  cm  que  se  adia- 
va esta  parte  tio  Estado,  e  conserval-a  no 
domínio  de  Caslella.  Paia  principal  iuslru- 
mento  da  revolta  ,  lançarío  vistas  soijre 
J  maior  Bueno  de  RiLeira ,  nome,  e  descen- 
dente de  ILspanlioes*,  e  tendo  conseguido 
illudír  a  plebe,  dizendo- lhe  que,  nenhuma 
sujeição  deviao  a  El  P.ey  D.  Jo  o  IV  ,  por 
ai  mia  lha  rito  lerem  jurado,  fora  o  em  chus- 
ma á  morada  de  Bueno*  exclamando:  Vira  1642 
Amador  Bueno  ,  nosso  Rey.  Este  porém,  dando 
pasmoso  evempl  j  de  obediência  ,  recusou 
a  perigosa  Coroa,  e  vendo-se  perseguido  pe- 
los amutinados,  sahe  com  huma  espada  nua 
pelas  ruas  da  Villa  ,  grilando  :  Viva  Et  Rfy 
D.  João  1F ,  nosso  senhor,  e  vai  refugiar- 
se  no  Convento  dos  Benedictiuos. 

Algumas  pessoas  notáveis  chamadas  ao 
Mosteiro  arengar 3o  ao  Povo,  descobri  ndo- 
lhe  as  cavilosas  manobras  dos  Hcspanhocs^ 


n6 

e  com  tal  veliemcncia  e  razões  animarão  seus 
discursos,  que  todos  os  rebeldes  ali  mesma 
acclamarão  El  Rey  D.  João  IV  \  e  fazendo  logo 
reunir  a  Camara  Municipal ,  nomearão  dois 
Commissarios,  Luiz  da  Costa  Cabral,  e  Bal- 
ihazar  de  Borba  Gato,  para  hirem  á  Corte 
prestar  juramento  de  fidelidade  á  nova  Caza 
Reinante,  em  nome  da  Povoação  de  S.  Vi- 
cente» 

Expulsão   dos   Holandeses.  —  O  Brasil  recebe    titulo  dg 
Principado* 

Atrégoade  ioannos,  queElReyD,  JoãoIV? 
310  princípio  do  seu  feliz  reinado  firmou  com 
a  Republica  Ilolandeza  ,  deo  lugar  ao  Prín- 
cipe Mauricio  de  Nassau ,  a  tornar  profícua 
a  fertilidade  do  território  de  suas  conquistas, 
e  crescidas  som  mas  entrarão  nos  cofres  da 
Companhia.  A  Cidade  de  Olinda  foi  recons- 
truída ,  e  augmentada  com  muitas  obras,  d© 
que  ainda  se  conserva©  preciosos  restos. 


II7 

Todavia,  a  desconfiança  do  Conselho  da 
Holanda ,  augmentava  na  razão  da  prospe- 
ridade de  Nassau  5  e,  ainda  que  este  Chefe 
não  mostrasse  jamais  nutrir  as  ideas  d'cgois- 
mo  de  que  o  accusavuo ,  o  Governo  das 
Províncias  Unidas  o  chamou  á  Europa ,  subs- 
tituindo-o  porhumaCommissão  Governativa,  1 644 
composta  de  Reynaldo  Hamel ,  Samuel  de 
Bas,  e  Victor  Bailcslrate. 

Estes  tres  homens  não  desenvolverá  a  sa- 
bedoria e  prudência  de  seu  antecessor  *,  e  á 
afteição  que  tinhâo  sabido  ganhar,  medidas 
doces  e  moderadas,  succedeo  hum  ódio  mor- 
tal, filho  das  vexações  que  agora  pesavâo  so- 
bre os  P01  tuguezes. 

João  Fernandez  Vieira ,  que  tanto  se  ti- 
nha distinguido  na  guerra  da  invasão,  me- 
ditava de  continuo  na  liberdade  do  Brasil; 
avultados  cabedaes  lhe  oíFerecião  recursos, 


que  sua  nobre  alma  consagrava  inteiramente 
ao  bem  tia  Fali  ia  adoptiva. 

A  Ilha  cio  Maranhão,  atraíçoadarnente. 
conquistada  pelos  Holandezes  já  durante  a 
4  paz,  acabava  de  ser  restaurada  pelos  Colo- 
nos d'aquella  Capitania,  e  esta  vicloria  héra 
hum  novo  incentivo  para  os  conjurados  de 
Pernambuco,  que  deviao  proceder  de  acordo 
com  aqueloutros.  Nada  mais  faltava  do  que 
a  chegada  de  Fiiippe  Camarão ,  e  Henrique 
Diasy  que  vinhão  reuni  r-se,  com  [ ,40(>  1  n- 
digenas,  e  Pretos  j  tudo  promeltia  que  em 
breve  o  heroe  descarregava  o  golpe  capitil , 
quando  huma  infame  delação  veio  perturbar 
seus  planos  ,  constrangendo-o  a  levantar 
prematuramente  o  estandarte  da  indepen- 
4645  dencia. 

0  Governo  llolandez,  tâo  timorato  quanto 
tiranno,  suf  prendido  com  a  imprevista  re- 


ii9 

volta  ,  limitou*se  a  reforçar  a  guarnição  tias 
fortificações,  e,  conserva íulo-se  na  defensiva, 
requereo  â  Corte  os  necessários  auxílios; 
porém,  estes  tinliâo  de  ser  retardados  pelos 
obstáculos  de  mais  de  2,000  legoas ,  em  quanto 
por  outra  parle,  o  Vicerey  Antonio  Telles  da 
Silva,  enviava  a  Pernambuco  Ândrè  Vidal 
de  Negreiros  ,  com  mandando  bum  corpo  de 
boas  Tropas,  as  quaes  entrando  com  o  dis- 
simulado pretexto  de  pacificadoras,  se  englo- 
barão logo  com  as  insur  gentes. 

À  guerra  tomou  enlap  bum  caracter  , 
mais  do  que  nunca  fatál  aos  ííolandezes. 
Vieira  ,  sempre  pinto  ao  perigo  ,  destribue  o 
Exercito  com  prudência  e  babilidade,  e  se 
bé  mister  destruir  as  plan  tições  e  edifícios 
que  servem  ao  inimigo,  appòc-sc  á  inteira 
ruina  de  seus  compatriotas,  mas  incendia 
as  suas  ricas  propriedades.  0  General  Hen- 
rique II  usS;  que  sabe  a  campo  com  2, 200  solda- 


120 

dos,  he  batido  e  aprisionado,  e  o  generoso 
Vieira  o  restitue  aos  seus.  O  despresivel  Fre- 
derico Hoogstrate ,  Conimandante  do  Forte  de 
Nazareth.,  vende  este  importante  posto  por 
25,ooo  cruzados  ;  Porto  Calvo  succumbe 
ao  valor  de  Chrisiovão  Cavalcanti ,  e  Valen- 
tim Rocio  ,  apodera  -  se  da  Villa  do  Pe- 
nedo. O  inimigo  3  concentrado  em  Olinda, 
contava  4, Boo  defensores,  entre  Holandezes 
e  Indígenas,  quando  Vieira  o  acommet- 
teo  ajudado  pelos  de  Camarão ,  e  Dias,  e 
com  3,200  homens  obriga  o  General  Huss  a 
1646  deixar  a  Cidade,  e  entrincheirar-se  no 
Recife. 


A  Holanda  9  finalmente  convencida  da  fra- 
quesa  e  perigosa  indecisão  da  Junta  Gover- 
nativa^ do  quanto  importava  substiluil-a 
por  bum  Chefe  militar  e  activo ,  enviou  pela 
segunda  vez  Sigismundo  de  Escup ,  como 
Governador   da  Colónia,  e  Commandante 


das  forças,  o  qual  chegou  a  Pernambuco 
com  hum  a  considerável  Armada  bem  refeita 
de  gente  e  armamento. 

Os  Portuguezes  esperarão  a  pé  firme  todo 
o  poder  do  inimigo  diregido  pelo  novo  e 
bravo  Capitão,  e  ganharão  ainda  huma  por- 
fiada batalha  ,  em  que  o  General  Belga  foi 
ferido  gravemente. 

Apenas  restabelecido  ,  o  Chefe  inimigo 
junta  a  sua  Armada,  e  deixando  no  Recife 
unicamente  a  força  necessária  para  a  defen- 
siva ,  vai  com  5,ooo  homens  surgir  inópia 
nadamente  na  Bahia ,  e  tomando  a  Ilha  de 
Itaparica,  d  ali  pede  satisfação  ao  Vicerey , 
dos  soccorros  por  clle  enviados  os  rebeldes  de 
Pernambuco.  Telles  da  Silva,  naturalmente 
fogoso,  responde,  contra  a  opinião  geral , 
mandando  Francisco  Rebelo,  á  testa  de  2,000 
Portuguezes  atacar  os  instrusos  *,  mas ,  de- 
pois de  renhida  batalha,  este  valente  Com- 

16 


I 


122 

mandante  morre  com  600  dos  seus ,  e  Si-* 
gismundo  não  volta  ao  Recife  sem  ter  arra- 
zado  a  Povoação  de  I  tapa  rica  ,  e  obtido  lumia 
ordem  em  nome  d'El  Rey ,  a  Vieira ,  para 
cessar  as  hostilidades  5  porém  este  responde  : 
lurei  receber  do  Soberano  o  castigo  da  deso^ 
bediencia ,  quando  lhe  tiver  restituído  o  mais 
bello  apanágio  da  sua  Coroa. 

O  implacável  patriota  ,  ganhando  cada 
dia  novo  valor,  não  dava  ao  inimigo  hum 
momento  de  tranquilidade;  mas  as  vanta- 
gens que  elle  tinha  até  então  obtido,  de 
foiça  se  achavão  agora  equilibradas  pelo  aug- 
mento  das  Tropas  holandezas  entregues  a 
mais  hábeis  mãos. 

El  Rey  D.  João  IV,  sabendo  que  huraa 
formidável  expedição  partia  da  Holanda  ao 
auxilio  de  Sigismundo ,  mandou,  sem  aberta 
declaração,  Francisco  Barreto  de  Menezes  9 
com  alguma  gente,  tomár  o  cominando  do 


123 

Exerci  to  pernambucano*,  mas  como  o  General 
fosse  aprisionado  nas  agoas  da  Capitania  da 
Parahyba  3  só  depois  de  nove  mezes  de  prisão 
pôde  evadir-se,  favorecido  por  Francisco  de 
Brat,  e  chegou  a  Pernambuco  a  tempo  que 
Vieira,  constrangido  ate  ali  á  simples  defen- 
siva, projectava  liuma  batalha  terminante. 
A  entrada  do  novo  General  lhe  deo  ainda 
occasiâo  de  patenteár  a  extensão  e  nobresa 
de  seu  caracter,  cedendo  irn  mediatamente 
o  commando  ,  e  continuando  a  prestar-sc 
com  sua  fazenda  para  a  sustentação  de  todo 
o  Exercito.  Barreto  soube  apreciar  as  rarag 
qualidades  de  seu  antecessor:  armonia  a 
que  se  devem  attribuír  as  victorias  successi* 
vas  alcançadas  pelos  Portuguezes. 

Sigismundo,  á  frente  de  7,0.00  homens 
Holandezes,  e  Cabocolos,  dezafia  o  General 
Barreio,  tomando  posição  nos  montes  Gua- 
rarapes j  os  Portuguezes  impacientes  por 
avançarem  aos    adversários  ,  acompanhão 


em  numero  de  2^000^  o  novo  Chefe,  que  se 
arremeça  sobre  os  Belgas,  obtendo  completa 
1647  e  brilhante  victoria. 


Como  por  este  occasião,  Sigismundo  re- 
cebesse segunda  ferida ,  o  commando  recahio 
em  Astolplw  Brinck9    que  tomando  tão  so- 
mente o  tempo  necessário  para  reorganisar , 
e  augmenlar  a  sua  gente  com  mais  1,200 
Holandezes,  e  2,000  Cabocolos  de  rezerva  , 
volta  aos  montes  Guararapes;  Barreto  apres- 
sa-se  em  disputar-lhe  a  posição,  e  ao  cabo 
de  pleiteada  e  desigual  batalha  ,  fogem  os 
Holandezes  vergonhosamente ,  deixando  ao 
Portuguez,    10  bandeiras,  6  canhões,  800 
prisioneiros,  e  2,200  mortos,  entre  os  quaes 
se  contava  o  General  Brinck  ,  e  vão  acossados 
refugiarem-se  precipitadamente  no  Forte  da 
Í643  Barretta. 

Tâo  desastrosa  derrota  exacerbou  o  animo 
nimiamente  beilicoso  de  Sigismundo,  forçan- 


125 

do-oasahíra  campo  antes  de  restabelecido; 
e  voltando  todo  o  ódio  contra  o  Vicerey  ,  que 
protegia  com- mão  occulta  os  revoltosos  de 
Pernambuco,  tratou  de  hir  em  pessoa  ata- 
car segunda  vez  a  Capitania  da  Bahia.  A  con- 
tinua reacção  a  que  o  obriga  vão  repetidos 
assaltos  do  General  Portuguez  ,  o  demorava 
no  Recife;  mas  recebendo  por  este  tempo 
dois  Regimentos,  que  de  reforço  lhe  vinhâo 
da  Europa,  foi  com  elbs,  e  mais  1,200  ho- 
mens de  desembarque,  aparecer  na  Capitai 
do  Brasil.  Em  troco  das  requisições  que  ar- 
rogantemente fez,  de  nova  satisfação,  res* 
pondeo  Telles  da  Silva,  que  ,  além  de  nada 
querer  providenciar  sobre  Pernambuco,  por 
lhe  parecer  sobejamente  justa  a  defesa  da 
própria  liberdade  contra  tirannos  aggressores, 
lhe  intimava  que  dentro  de  'a/±  horas  o  obri- 
garia a  evacuar  a  Bahia,  se  de  bom  grado 
elle  o  não  tizesse. 

Nada  porém  corroborava  a  ameaça  do 


1  26 

fero  Vieerey.  Sighmundo ,  linlia-se  apresen- 
tado inesperadamente  no  porto  ,  e  os  Bahia- 
nos  desprevenidos,  mal  podcriâo  secundàr  a 
bravura  de  seu  Chefe,  contra  4?700  soldados 
aguerridos-,  com  effeito,  o  Holandez  desem- 
barcando logo  com  a  sua  gente  nas  praias 
do  Recôncavo,  matou  muitos  habitantes, 
1649  saqueou  as  Povoações,  e  voltou  a  Pernam- 
buco, sem  ter  encontrado  a  menor  resis- 
tência. 

Depois  d'este  acontecimento ,  os  dois  par- 
tidos ,  conservando-se  sempre  em  vigilância, 
diminuirão  de  actividade,  sendo  o  primeiro 
facto  digno  de  referir-se  a  morte  do  leal  e 
í  650  y  alente  Filippe  Camarão,  perda  tanto  mais  sen- 
sivel,  quanto  sua  conducta  heróica  o  tornava 
eharo  aos  Portuguezes  ,  e  temivel  ao  ini- 
migo. 

Cançada  a  Holanda  de  enviar  despendiosos 
^occorros  ao  Brasil,  os  quaes  a  habilidade 


dos  Chefes  insurgentes  inutilisava ;  e  El 
Rey  D.  João  IV  ,  temeroso  de  comprometter- 
«e  com  as  Províncias  Unidas,  abandonando 
o  General  Barreto ,  os  dois  Exércitos  cahirao 
em  hum  a  apathia,  que  por  largo  tempo  só 
foi  interrompida  por  alguns  pequenos  ata- 
ques suscitados  pelos  Pernambucanos.  Os  Ho- 
landezes  conservava o-se  senhores  da  Villa  do 
Fiecife e  do  por  lo  ,  em  quanto  os  contrários 
occupavão  á  Cidade  de  Olinda.  1 

Mais  de  7  annosse  tinhao  passado  de  guerra 
em  Pernambuco  ,  e  a  longe  se  prolongaria 
Ião  destruidora  época ,  a  não  sobrevir 
huma  circunstancia  imprevista  e  poderosa. 

Pedro  Jacqaes  de  Magalhães ,  oíficial  de 
reconhecido  mérito,  apareceo  n'esta  Capita- 
nia, commandando  huma  Armada  por- 
tugueza  encarregada  de  comboyár  os  na- 
vios de  commercio  até  á  Europa  ;  o  General 
Barreto  apressou-se  em  communicár  ao  Ai- 


mirante  o  estado  da  guerra ,  pedindo  o  seu 
auxilio  para  a  expulsão  dos  instrusos.  Este 
porém ,  receando  tomár  parte  activa  em 
hum  *  luta  a  que  apenas  assentia  o  Governo 
portuguez,  submetteo  a  questão  a  hum  con- 
selho de  guerra  a  bordo  da  Nao  Chefe,  e 
em  consequência  de  decisão  affirmativa ,  o 
ataque  do  Recife  foi  resolvido. 

Barreio  j  desejoso  de  ver  terminar  esta 
lide  por  aquelle  que  a  tinha  começado  , 
entregou  a  direcção  do  ataque  da  Villa  do 
Recife  a  Fieira ,  e  foi  com  o  resto  da  gente 
assai  lá  r  os  outros  pontos  fortificados.  0  pa- 
triota aproxima-se  da  Praça,  apezár  dos 
esforços  dos  sitiados;  a  Esquadra  principia 
hum  fogo  successivo  sobre  as  fortificações , 
que  Barreto,  por  outra  parte  acommette , 
e  toma  ;  redobra-se  de  vaíor  e  de  artificio  ; 
e  ,  em  quanto  Vieira  ,  perto  do  Recife  avança 
a  travez  das  balas  holandezas,  o  Engenheiro 
Pedro  Dumas  abre  huma  galeria  de  mina  5 


12$ 

c  hia    fazer   jogar  o  formidável  fornillio  3 
quando  as  Tribus  indígenas,  que  auxiliava© 
os  já  atterrados  Ilulnndezes,  instruídas  da  sorte 
que  as  aguardava  ,  procurarão  ^  atravessando 
o  rio,  escaparem  aos  mortíferos  prodígios  do 
engenho  europco,  e  Sigismundo ,  do  alto  das 
baterias  propõe  capitular.   Então,  Vieira 
chega  junto  á  Traça  ,  onde  reina  a  maior 
confusão ,  reune-se  o  conselho  holandez ,  e 
convenciona-se  em  que  ,  a  Villa  c  porto  do 
Recife  sejâo  entregues  ao  General  Barreto  , 
assim  como  todas  as  fortificações  dependen- 
tes ,  as  Capitanias  oceupadas  pelos  Holande- 
zes  serão  evacuadas  á  chegada  da  primeira 
ordem  ;  ás  guarnições  se  concederá  sahirem 
com  as  honras  da  guerra  .  0  tratado  reali- 
sou-se  ,  e  o  Brasil  ficou  para  sempre  livre  do  1654 
domínio  estrangeiro. 

El  Rey  D.  João  IV,  soube  com  vivo  prazer 
que  havia  recobrado  a  posse  d\sta  parte 
de  seus  Estados;  e,  se  as  circunstancias  d@ 

*7 


i3o 

Portugal  o  tinliao  privado  de  soccorrer  eílíi- 
cazmente  os  illustres  patriotas,  a  gratidão 
e  justiça,  com  que  de  mão  larga  o  dotara 
a  natureza,  translusirao  nos  prémios  que 
liberalmente  lhes  outorgou.  João  Fernandez 
Vieira  ,  recebeo  recompensas  proporcionadas 
a  seus  nobres  feitos ,  e  El  Rey  confirmou  o 
glorioso  titulo  de  Libertador  do  Brasil ,  que  o 
Exército  unanimemente  lhe  conferira. 

Se  a  invasão  dos  ílolandezes  prejudicou  a 
Portugal  e  sua  Colónia  ,  lie  igualmente  in- 
contestável que  elles  ,  transportando  ás  pos- 
sessões de  ultra-mar  a  ordem  e  actividade 
que  os  distinguia  na  Europa  ,  concorrerão 
para  o  augmento  d 'este  paiz.  Muitos  vestí- 
gios de  sua  indústria  attestão  ainda  no  Bra- 
sil a  verdade  d 'es  ta  asserção  j  por  muito 
tempo  as  observações  de  Pison  ,  e  as  de 
Marcffgraff,  forão  as  únicas  que  podessem 
servir  de  guias  na  Historia  Natural  destas 
regiões. 


i3i 

Antes  dos  acontecimentos  que  acabamos 
de  narrar,  em  1 647  3  tinha  El  Rey  D.  João 
IV  illustrado  o  Brasil  com  o  titulo  de 
Principado  ,  hereditário  para  os  successores 
á  Coroa ,  na  pessoa  de  seu  primogénito  ,  o 
Príncipe  D.  Tkeodozio. 

Povoação  de  Santa-Catharina.  —  Rasgo  de  valor.  —  Po- 
voação das  Alagoas.  —  Fundação  da  Colónia  do  Sacra- 
mento. —  Minas  de  ouro.  —  Povoação  de  Minas  Geraes. 

Chegando  nVste  tempo  a  Portugal  a  nova  de 
que  os  Castelhanos  tentavaõ  estabelecerem-sc 
na  importante  ilha  de  Santa  Catharina,  en- 
tão chamada  dos  Patos,  e  incorporada  á  Ca- 
pitania de  S.  Vicente,  concedeo  El  Rey 
D.  João  IV  a  Francisco  Dias  Velho ,  a  posse 
da  mesma  ilha ,  e  do  território  opposto  no 
continente,  o  qual  tendo  chegado  com  pouca 
gente,  dava  principio  ao  estabelecimento, 
quando  Roberto  Lewis,  Corsário  Inglez,  j 555 
abordando  ali ,  o  assassinou.  Por  tempos 


1*2 

depois  se  conservou  descria  aquella  ilha  , 
até  que,  cm  1692,  João  Felix  Antunes , 
veio  com  260  Acolitas  dár  começo  á  Po- 
voação 3  para  o  que  achou  grande  auxilio 
nos  habitantes  da  Laguna,  que,  i35  annos 
antes,  o  Vicentista  Domingos  de  Brito  Peixoto 
havia  começado  a  povoar. 

i  656  Pela  lamentada  morte  d'El  Rey  D.  João  IV, 
a  Rainha  D.  Luiza,  sua  esposa,  como  tu- 
tora dos  Pi  incipes  menores,  nomeou  Francisco 

1 657  Barreto  de  Menezes ,  para  Vicerey  do  Estado  do 

1 662  Brasil ,  e  concluio  hum  tratado  de  sólida  paz 
com  as  Províncias  Unidas ,  concedendo  livre 
commercio  aos  Holandezes  em  todos  os  por- 
tos da  America  Portugueza. 

Chegando  o  primogénito  filho  do  defunto 
Monarcha  á  idade  própria ,  mais  desejoso 
do  que  capaz  de  governar,  subio  ao  sólio  com 
o  nome  de  D.  Afíbnço  VI,  e  enviou  o  Conde 

1663  d'0"bidos7  como  Vicerey  do  Brasil:  razãe 


i33 

única  pela  qual  seu  escuro  nome  aparece  nas 
paginas  brasileiras*,  porque,  entregando  logo 
ao  Conde  de  Castehnclhór  ,  por  ventura  varaõ 
de  crescido  mérito,  a  direcção  dos  negócios 
nacionaes,  para  d'est'arte  poder  inteiramente 
entregar-se  a  ilícitos  exercidos,  preparou  a 
a  sua  prompta  e  desairosa  queda. 

Com  effeito,  fatigado  o  Reino  da  escanda- 
losa conducla  do  Monarcha ,  obteve,  a  requi- 
sição da  Junta  dos  Tres  Estados,  que  o  Go- 
verno caliisse  nas  mãos  do  Infante  D.  Fedro,  \ 
o  qual,  aceitando  a  Piegencia ,  voltou  suas 
vistas  para  a  felicidade  das  Colónias  :  e  daqui 
datâo  as  importantes  descobertas  das  riquesas 
do  interior  do  Brasil.  As  Capitanias  do 
Norte  receberão  consideráveis  melhoramen- 
tos, e  as  transacções  marítimas  furão  prote- 
gidas por  huma  Armada,  que  regularmente 
comboyava  os  navios  do  commercio  até 
Lisboa.  0  distincto  Almirante  João  Correa 


i34 

âa  Silva,  Chefe  de  huma  d'estas  Armadas y 
pereceo  com  mais  de  400  Portuguezes,  nau- 
fragado perto  da  entrada  da  Bahia. 

Entre  os  repetidos  assaltos  dos  Cabocolos, 
que  n'estes  tempos  experimentou  a  Capital 
do  Brasil ,  cumpre  distinguir  o  da  Povoa- 
ção de  Cayrú. 

Estando  os  habitantes  da  Villa  reunidos 
na  Igreja  Matriz ,  por  occasiao  de  grande 
festividade  ,  800  Indígenas  armados  de  fle- 
chas vierâo  cercar  o  Templo,  e  começavão 
horrorosa  matança,  quando  o  Capitão  Manuel 
Barboza  de  Mesquita,  encarregado  da  guarda 
d'aquelle  Ponto  ,  cahio  denodadamente  sobre 
os  bárbaros ,  com  7  soldados ,  únicos  que  ou* 
sarão  seguil-o,  e  cortando  a  hum  e  outro 
lado  ,  abrio  larga  estrada  no  meio  dos  ini- 
migos, succumbindo  finalmente  trespassado 
por  cinco  mortaes  feridas,  depois  de  salvar 


i35 

as  vidas  dos  habitantes  cuja  segurança  lhe 
estava  cenfiada :  tal  hera  ainda  o  ânimo  por-  1672 
tuguez. 

Nas  sábias  providencias  que  o  Brasil  deveo 
ao  Regente  D.  Pedro,  hé  rniste'r  conlár  a 
expressa  ordem  ao  Vicerey  A jfonço  Furtado 
de  Mendonça,  para  mandar  povoar  o  terri-  ^ 674 
tório  dos  Alagoas ,  e  fortificar  o  porto  de 
Maceió  contra  o  ingresso  dos  Indígenas  ,  e 
dos  Estrangeiros  contrabandistas  de  pao 
brasil,  que  a  cada  passo  acommcttiâo  e  sa- 
quearão as  raras  cabanas  estabelecidas  á 
beira-már.  Esta  Povoação  se  conservou  su- 
bordinada á  Capitania  de  Pernambuco  até 
ao  anno  de  1817,  em  que  foi  d'ella  desmem- 
brada ,  tendo  por  primeiro  Governador  , 
Sebastião  Francisco  de  Melo  Póvoas. 


Por  morte  do  Vicerey,  hum  triumvirato  1675 
ficou  encarregado  do  Governo ,  ate'  á  chegada 
de  Roque  de  Castro  Barreto.  \  573 


m 

Em  quanto  os  habitantes  de  toda  a  costa 
entre  o  Pará  e  Rio  de  Janeiro,  gosavao  da 
prosperidade  que  lhes  procurava  o  desvelado 
Regente,  os  Vicentistas,  quasi  independen- 
tes ,  longe  de  participarem  da  sorte  de  seus 
compatriotas ,  se  occupavao  em  pelejar  cou- 
tra  os  líespanlioes  do  Paraguay  e  Buenos 
Ayres,  os  quaes,  estendendo  seus  dominios 
até  ás  visinhanças  do  Uraguay,  fazião  assim 
recuar  os  limites  de  Brasil. 

D.  Manuel  Lobo ,  nomeado  Governador  do 
Rio  de  Janeiro,  veio,  por  ordem  do  Infante 
D.  Pedro,  no  intuito  de  obstar  a  continua- 
ção doestes  estabelecimentos ,  fundar  a  Co- 

1680  lonia  do  Sacramento. 

Construída  a  Praça,  D.  José  Garro  ,  Go- 
vernador de  Buenos  Ayres,  surprendendo  e 

1681  passando  á  espada  a  guarnição,  se  apossou 
(Telia.  Por  convenção  das  duas  Coroas,  foi 
depois  a  Colónia   restituída  a  Portugal,  e 


i3j 

reedificada  por  Duarte  Teixeira  Chaves.  Em  1683 
i^o3,  D.  Alonso  Valdez,  pondo- lhe  per- 
tinaz e  rigoroso  sitio  ,  obrigou  o  Governador 
Sebastião  da  Veiga  Cabral  a  evacuar  a  for- 
tificação, que  voltando  ao  domínio  portu- 
guez  em  1718,  pelo  tratado  de  Utrecht, 
em  i^35  D.  Miguel  de  Salcedo  a  atacou, 
e  apezár  de  redusir  a  guarnição  á  mais  cala- 
mitosa extremidade  ,  foi  a  final  repeli  ido 
pelo  valeroso  Antonio  Pedro  de  Vasconcello <$, 

Tianquillisados  os  Yiccntistas  com  a  bar- 
reira opposta  pela  Colónia  do  Sacramento 
ás  empresas  dos  seus  limitiophos  do  Sul, 
poderiâo  oceuparem-se  na  cultura  do  vasto 
território  em  que  vivião  independentes;  mas 
seu  espirito  inquieto  necessitava  exercícios 
mais  árduos. 

Ja ,  como  dissemos,  em  1573  Sebastião 
Fernandes  Toyrinho  ,  havia  dado  exemplo 
na  pesquisa  de  terras  auríferas;  e  se  esta 


s38 

expedição  ,  e  outras  que  se  lhe  seguirão ,  não 
tinliao  alcançado  vantajosos  resultados,  sup- 
punha-se  ,  por  outra  parte  ,  que  as  montanhas 
visinhas  do  Peru  encerrarão  valiosos  the<- 
souros,  e  isto  deo  causa  a  que  muitos  Seria- 
1685  nojos  se  reunissem  em  Bandeiras ,  e  se  intro- 
dosissem  peio  interior,  em  Bifferentes  direc- 


Imaglnem-se  estes  exploradores  ,  percor- 
rendo paizes  sobre  osquaes  não  tinliao  outros 
indícios  mais  do  que  as  informações  vagas , 
e  muitas  -vezes  falsas ,  dos  Indígenas  *,  vivendo 
annos inteiros  no  centro  de  medonhas  matas, 
do  pr  o  dueto  da  caça ,  ou  recorrendo  a  peni- 
veis  culturas ,  para  poderem  subsistir  no  de- 
serto 5  e  se  fará  exacta  idéa  do  caracter 
d\*stes  homens  em  prendedores,  a  quem  a 
ambição  tornava  mais  perseverantes. 

4  Depois  de  muitas  incursões  infructuosas , 
Antonio  Rodriguez,  natural  de  Thaubaté , 


i3g 

acompanhado  por  5o  homens  ,  atravessou 
os  sertões  de  Cxiyaté,  e  foi  aparecer  na  Ca- 
pitania do  Espirito  Santo,  onde  apresentou 
3  oitavas  de  ouro.  1693 

Por  morte  de  Rodrigues,  Bartiwlomeo 
Bueno,  e  Miguel  d' Almeida,  continuarão  a 
empresa*,  Manuel  Garcia,  e  Salvador  Fer- 
nandez, se  lhes  reunirão  no  seguinte  anno? 
na  serra  de  Itaberava ,  e  acharão  maior 
cópia  do  procurado  metál.  Por  outra  lado, 
Fernando  Dias  Paes,  penetrava  nos  sertões 
do  Serro  Frio,  e  descobria  parte  das  pre- 
ciosidades queelles  oceul  tavão.  Os  Yicentistas, 
animados  pela  esperança  de  avultadas  rique- 
sas,  afíluiruo  então  em  grande  numero  n'a- 
quelle  território,  e  ali  formarão  huina  con- 
siderável Povoação  com  o  nome  de  Aldèa  dq  Igo^ 
Ouro  Preto ,  a  qual  foi  em  1711  mudada 
para  mais  apropriada  posição,  com  o  titulo 
de  Villa  Rica,  sempre  sujeita  a  S.  Vicente 7 
até  1720,  em  que  a  Capitania  de  Minas  Ge- 


raes  se  desmembrou  da  de  S.  Paulo,  tendo 
por  primeiro  Governador ,  D.  Lourenço 
d'  Almeida. 

O  respeito  que  desejámos  guardar  á  or- 
dem chronológica  dos  faclos,  nos  obriga 
agora  a  interromper  a  Historia  dos  desco- 
brimentos devidos  aos  "Vicentistas,  para  re- 
latarmos outros  successos  não  menos  inte-» 
ressantes. 

Kegros  de  Palmares* 

Os  Negros  que  procurao  escapar  á  escra- 
vidão, bem  vezes  insupportavel  pela  tiran- 
nica  injustiça  de  seus  senhores,  formão  quasi 
sempre  pequenas  associações  nos  matos,  onde 
liuma  má  ou  nulla  administração,  concorre 
para  es  entregar  as  primeiras  tentativas  da 
policia;  a  Povoação  de  Palmares,  porém  9 
oíTcrece  liuma  excepção  d'esta  negligencia, 
geral. 


«4> 

Entre  os  annos  de  i5:>o  e  i53o,  se  tinhão 
formado  doas  d'estas  reuniões  com  alguma 
regularidade  na  Capitania  de  Pernambu- 
co ,  perto  de  Porto  Calvo  5  os  líolandezes 
as  extinguirão  em  1 6^ 4- 

Pouco  antes  da  expulso  dVstes  instruas, 
mais  de  zjo  negros  fugitivos,  fornecidos  de 
armas  de  fogo  ,  foi  5o  estabelecesse  no  mesmo 
lugár,  para  onde  affluirão  em  pouco  tempo 
mui  los  outros.  Pernambuco,  primeiro  oceu- 
pado  na  grande  luta  de  sua  independência,  e 
depois  desfalecido  pelos  resultados  de  tào 
pi\  longada  crise,  não  pôde  obstar  o  pro- 
gresso da  nova  Povoação  de  Palmares,  que 
ganhou  hum  rápido  e  assombioso  cresci-* 
mento. 

Como  os  fugitivos  não  possuiâo  snííiciente 
numero  de  companheiras,  as  procurarão  á 
maneira  dos  Fiomanos,  cahindo  brutalmente 
«obre  as  habitações  visinhas,  e  apoderando- 


3e  de  todas  as  mulheres  de  cor  :  Pwcfia  Pitta, 
diz,  que  o  roubo  das  Sabinas  nao  foi,  nem 
mais  completo,  nem  mais  geral.  Os  Palma- 
rienses  imitarão  ainda  os  antigos  domina- 
dores do  mundo  ,  saqueando  as  Povoações.* 
e  commettendo  mil  outras  barbaridades. 

Os  Agricultores  de  Porto  Calvo  ,  obrigados 
a  comprarem  a  alliança  dos  Negros  ,  lhes  mi- 
nistrarão armas ,  munições  e  outras  merca- 
dorias ;  e  a  Colónia  Africana  tornou  hum 
aspecto  ílorecente  e  terrível. 

A  agricultura,  a  que  os  Palmarienses  se 
entregarão  com  hum  a  ordem  e  previdência 
que  fazem  pasmar,  adoçou  seus  costumes. 
Hum  Chefe  electivo  e  vitalício  escolhido  den- 
tre os  mais  bravos,  denominado  o  Zumbe , 
estava  encarregado  de  vigiar  sobre  a  segu- 
rança e  auginento  da  Povoação  9  executando 
por  meio  de  Ministros  de  sua  nomeação, 
huma  espécie  de  código ,  hoje  infelizmente 


i43 

ignorado.  A  Religião  adoptada  hera  o  Chris- 
tianismo,  alterado  por  muitas  superstições. 

A  população  de  Palmares  crescia  pois  por 
admirável  maneira;  as  matas  virgens  apa- 
recerão em  breve  transformadas  cm  terrenos 
cultivados,  e  numerosos  edifícios  occupavão 
os  arredores  da  Cidade.  \  Capitai  foi  forti- 
ficada por  meio  de  enormes  troncos  cravados 
em  estaca  ,  formando  huma  muralha  circum- 
dante  de  grande  altura. 

Cincoenta  annos  tinhao  decorrido  desde 
o  começo  do  estabelecimento  ,  quando  o 
Governo  de  Pernambuco  ,  amedrontado  , 
resolveo  aniquilal-o.  João  de  Lencasíro , 
que  governava  esta  Capitania  ,  de  acordo  com 
Caetano  de  Melo  ,  então  Yicerey  ,  fez  marchar 
7,000  homens  de  Infanteria ,  porém  os  Ne- 
gros os  repellirão  vigorosamente.  Com  tudo, 
como  os  atacantes  conservassem  em  sitio  a 
Povoação  s  em  quanto  lhes  chegava  a  Ar  ti- 


i.44 

lhei  ia  que  requisitarão  ,  e  os  habitantes  cir- 
cunivisinhos  se  tivessem  eoncentraclo  na  Ca- 
pital ile  Palmares,  a  fome  veio  complelár 
a  ruína  dos  audases  Africanos,  fazendo-os 
suocun.bír  aos  primeiros  tiros  do  canLão. 
Este  acontecimento  deo  lu0ár  a  hum  d'a- 
queííes  rasgos  qoe  atteslão  ser  o  verdadeiro 
valor  o  mesmo  em  todas  as  espécies  do  gé- 
nero humano.  Zumbe  vio  os  h  ri  os  que  se  lhe 
destinav^o,  e  seus  companheiros  lendo  nos 
olhos  do  Chefe  o  horror  que  lhe  inspirava 
o  captiveiro,  souberão  imital-o ,  e  morr<  rao, 
i  697  despenhando-se  do  cume  de  hum  alto  rochedo. 
Os  velhos,  mulheres  e  doentes  forão  ven- 
didos, extinguirao-se  as  mesmas  rui  nas  da 
Cidade,  e  só  resta  hoje  de  Palmares,  a  me- 
moria de  seus  célebres  habitantes. 

Oulras  expedições  francezas.  —  Decadência  no  Norte.  —  Po- 
voação de  Piauhy  ,  de  Mallo  Giobso  ,  e  de  Goyaz. 

i  703     A-  alliança  com  a  Inglaterra,  contra  a  Fran* 


i45 

ça,  foi  para  Portugal  hum  gérmen  des- 
truidor de  todo  o  engrandecimento  devido 
á  sábia  administração  do  Conde  da  Ericeira. 
Este  tratado,  que  estipulava  união  oíFen- 
siva  e  defiensiva ,  mas  que  na  realidade 
hera  hum  tratado  de  com  mor  cio ,  abrio  fa- 
vorável senda  á  invasora  cobiça  dos  ne- 
gociantes Inglezes,  que,  livres  de  Iodas  as  leis 
prohibilivas ,  inundarão  Portugal  dos  va- 
riados productos  de  suas  fábricas,  paraly- 
sando  a  indústria  nacional. 

A  França,  pois,  nao  conseguindo  enla- 
bolár  mais  vantajosas  relações,  no  princípio 
do  oneroso  reinado  d'El  Rey  D.  João  V;  1707 
pretextando  a  regcição  de  sua  alliança ,  pela 
de  seus  antigos  rivaes  ,  resolveo  trascr  a 
guerra  ao  seio  das  Colónias  portuguezas  da 
America. 

Sete  náos  com  1,000  homens  de  Tropa  s 

*9 


\46 

ao  cominando  de  Carlos  Duclerc  ,  vierão 
1710  aportar  na  Capitania  do  Rio  de  Janeiro. 

O  Governador  Francisco  de  Castro  de  Mo 
racs,  avisado  da  aproximação  do  inimigo  ? 
mandou  tudo  dispor  para  a  reacção ;  porém  ? 
sabendo  que  Duclerc ,  tendo  desembarcado 
no  porto  da  Guaratuba,  eslava  em  marcha 
sobre  a  Cidade,  em  vez  de  lhe  disputar  o 
passo  em  hum  terreno  para  isso  tão  pro- 
picio, se  conservou  quedo  em  posição ,  e 
o  Chefe  fraricez,  penetrando  na  Cidade, 
passou  pela  frente  das  Tropas  do  Go- 
vernador, sem  que  este  se  movesse,  nem  de 
suas  fileiras  se  disparasse  hum  só  fusíL  Du- 
clerc ,  animado  com  tão  pusillanime  resistên- 
cia, sè'  diregio  sobre  o  palácio  do  Governo, 
e  o  teria  oceupado,  se  Gregorio  de  Castro  de 
Moraes  .  com  quem  a  natureza  fora  tão  pró- 
diga em  coragem  ,  como  avara  para  com 
o  Governador  seu  irmão ,  não  defendesse  o 


i47 

poslo  durante  3  horas,  até  cahir  mortal- 
mente ferido.  A  este  tempo  ,  aproximando- 
se  finalmente  as  Tropas  nacionaes ,  o  ini- 
migo se  retirou,  e  foi  loucamente  postar- 
se  no  trapiche  da  Cidade.  Entuo,  o  Go- 
vernador ,  fazendo  para  ali  transportar  mui- 
tos barris  de  pólvora,  Francisco  de  Mace- 
i/o Brito,  que  rTaquelle  lugar  possuia  ,  a- 
lém  de  importantes  propriedades^  sua  es- 
posa, may  e  íilhos,  mais  patriota  que 
Bruto  ,  ou  Maiio,  sc  ofierecco  pajsi  lançar 
o  fogo  ao  combustivel  *,  mas  o  Francez  ,  sue- 
eumbindo  a  tão  poderosa  insídia,  se  apressou 
cm  "depor  as  armas,  entregando-se  e  os  seus 
como  prisioneiros  de  guerra.  Poucos  dias  de- 
pois, o  Chefe  se  achou  aleivosamente  assassi- 
nado em  sua  prisão  :  tão  vil  he  a  covardia.  Í710 

Recebendo-se  em  França,  no  regresso  da 
Esquadra  de  Duclerc^  a  noticia  do  desastroso 
resultado  da  empresa,  o  Almirante  Dugtwy- 
Trouin,  obtendo  de  Luiz  XIV,  4)^00  s0^" 


0 

da Jos ,  e  concordando  com  hum  a  Companhia 
commerciál  ,  que,  aproveitando  a  ensejo, 
lhe  fornece©  o  cabedal  necessário,  veio  a- 
parecer  com  i5  náos  na  barra  do  Rio  de 
1711  Janeiro. 

0  Govrrno  de  Portugal,  mandou  em  au- 
xilio da  Colónia,  4  náos,  e  outras  embar- 
cações, entregues  a  Gaspdr  da  Cosia  d'  Atayde. 

Trouin  ,  apesar  da  resistência  das  fortifi- 
cações, ganha  a  bahia,  e  vai  tomár  a  For- 
leza  da  Ilha  das  Cobras,  onde  alvora  o  pa- 
vilhão francez.  D'esta  posição  se  convence  de 
que  ordens  previdentes  tem  disposto  a  Cidade 
para  reagir  ao  ataque  \  todavia,  fazendo  pri- 
meiro varrer  as  praias  pelo  fogo  de  4  navios, 
eífeitua  o  desembarque,  e,  ponclo-se  á  frente 
do  centro  do  seu  pequeno  Exercito,  confia 
a  vanguarda  ao  Cavalheiro  de  Goyon ,  e  a  re- 
serva a  Adolfo  Courserac,  e  avançando  impá- 
vido, a  poucos  passos  está  senhor  do  Forte 


de  S.  Bento 9  e  de  outras  posições  impor- 
tantes. 

Antes  de  começar  o  assalto,  Trouin  escreveo 
a  Castro  de  Moraes,  exigindo,  os  assassinos 
de  DuclerCj  a  liberdade  de  todos  os  prisio- 
neiros, e  h  u  ma  quantia  capaz  de  o  indemnisár 
das  despesas  da  expedição.  0  Governador, 
procedendo  por  maneira  que  mal  se  compa- 
dece com  sua  condueta  anterior,  responde, 
que  não  satisfará  a  nenhuma  das  condicções, 
e  conclue  protestando  que  saberá  morrer  no 
seu  posto. 

Os  Froncezcs,  reservando  então  o  assalto 
para  o  dia  seguinte 9  mandarão  desde  logo 
a  favor  das  trevas  algumas  chalupas  bem 
armadas,  para  se  apodei  arem  de  5  embarca- 
ções poi  tuguezas  surtas  no  porto  :  bum  raio  , 
que  caldo  quando  se  aproxima  vão  das  presas, 
fez  descobrir  os  atacantes,  e  hum  chuveiro 
de  balas  de  mosquetaria  se  disparou  contra 


i5o 

elles.  Troutn ,  receando  perder  esta  preciosa 
parte  de  suas  Tropas ,  eh  egeu  o  morrão  a 
fruma  peça  d'artilheria,  e  deo  assim  o  signá! 
convencionado  para  que  todas  as  baterias 
rompessem  o  fogo  sobre  a  Cidade .  Esta  deto- 
nação simultânea,  o  ruído  dos  trovões,  cem 
vezes  repetidos  pelos  echos  da  bahia ,  e  o  cla- 
rão interrompido  das  bocas  de  fogo  e  dos  re- 
lâmpagos,  atterrarão  os  habitantes ,  contra 
quem  os  elementos  pareei&o  juniár  sua  guerra 
á  guerra  dos  invasores,  forçando-os  a  ganhar 
o  interior  do  paiz ,  com  o  possível  de  seus 
thesouros ;  os  mesmos  militares  abandonarão 
as  muralhas  :  a  Cidade  íieou  deserta» 

Trouin  ,  prevenido  da  existência  de  hum  a 
mina,  que  hia  fazer  voár  o  Forte  dos  Be- 
nedictinos  com  a  guarnição  franceza  ,  se  deo 
pressa  em  entrar  na  Cidade  ,  e  dcixando-a 
primeiro  saquear,  foi  logo  ao  encontro  de 
Castigo  de  Moraes,  Depois  de  hum  pequeno 
YJ\\  debate  ?  o  Portuguez  capitulou,  assignando 


I 


i5i 

a  affrontosa  condicção  de  pagar  610,000 
cruzados  a  Buguay*Trouhi)  o  que  foi  realisado 
dentro  de  i5  dias*,  e  o  inimigo  regressou  á 
Europa,  levando,  n£o  obstante  o  naufrágio 
de  huma  das  mais  preciosas  embarcações, 
92  por  100  sobre  o  custo  da  expedição. 

Se  os  Portuguezes  se  sustentuo  mais  2^ 
horas,  teririo  recebido  o  possante  soccorro 
de  3,ooo.  homens,  que  descerão  de  Minas 
Geraes  ,  commandados  por  Antonio  de  Al- 
buquerque Coelho ,  2  ,00o  dos  quaes  herao 
de  boa  Cavaliaria,  elníanteria.  Assim,  outro 
que  não  fosse  o  inerte  e  timorato  Castro  cie 
Moraes ,  caro  teria  feito  pagár  ao  invasor, 
seu  temerário  arrojo. 

Ate'  aqui,  Portugal,  debaixo  ainda  da  in- 
fluencia de  antiga  prosperidade,  pòdeconcluír 
hum  tratado  por  intervenção  da  Rainha  Anna  \ 
d'Ingla  terra,,  pelo  qual ,  o  território  do  Brasil 
se  estendia  do  Oyapock  ao  Prata;  em  pouco 


i5a 

porem,  o  Governo  á"E\  Rey  D.  João  V,  to- 
lhendo a  actividade  e  indústria  poríugueza  r 
foi  produsír  iguaes  effeitos  em  todas  as 
Colónias.  Mais  de  4o  annos  que  este  Prín- 
cipe occupou  o  throno  ,  offerecem  humu 
longa  e  humilhante  retrogradação  para  os 
séculos  do  brutal  monaquismo ,  e  fazem  do 
seu  reinado  liuma  época  de  luto  nos  annaes 
de  Portugal.  O  fanatismo  ,  que  até  ali  tinha 
ajudado  o  espirito  bellicoso  da  Nação,  nas 
suas  gloriosas  e  ineomprehensiveis  façanhas, 
se  achava  agora  lubstituidp  pela  abominosa 
hypocrisia ,  só  fértil  en  acções  negras  e  de- 
gradantes. 

O  commercio  do  Brasil  paralysava  pro~ 
gressi vãmente,  á  medida  que  as  Colónias 
Holandezas,  Francezas  e  Inglezas  enviavao 
aos  mercados  da  Europa  maior  cópia  dos 
géneros,  de  que  elleaté  então  os  fornecia  ex- 
clusivamente. Muitos  mezes  se  passavâo  ,  e 
hum  só  navio  estrangeiro  nuo  aparecia  nos 


m 

seus  portos,  em  busca  dos  productos  agrí- 
colas, as  seccas  assolavão  o  paiz  desde  Per- 
nambuco até  Maranhão,  tudo  definhava, 
c  jasia  na  apathia  e  na  mizeria,  sem  que  1 
o  Governo  despertasse  de  tão  ruinoso  lelhargo. 
Só  huma  Povoação  inteira  não  participava 
cTes te  despereci mento.  Os  Paulistas,  que  ti- 
nhão  observado  sem  alteração  as  épocas  fe- 
lizes do  resto  do  Brasil,  se  conservavão  agora 
igualmente  alheios  da  triste  vicissitude  que 
experimentavão    as    Capitanias   do  Norte; 
occupados  em  conquistar  *os  terrenos  do  in- 
terior, e  em  guerrear  com  as  Tribus  dlndi- 
ge nas  que  se  lhes  oppunhão  ,  não  soffrião  os 
males  de  seus  compatriotas,  porque  não  se^ 
alimentavão  da  mesma  fonte. 

A  furiosa  mania  de  conquistar,  tinha 
levado  estes  célebres  Colonos  aos  mais  re- 
motos lugares  do  Brasil.  Eni  1666,  Domín~ 
gos  Jorge ?  penetrando  pelos  sertões  até  as 
cabeceiras  dos  rios  Piauhy  e  Gurguéa,  foi 

39 


i54 

combater  com  os  Indígenas  denominados  Pi- 
menteiras, e recolheo-se  a  seus  lares,  trasendo 
mais  de  200  prisioneiros.  Domingos  Affonço, 
que  o  tinha  acompanhado  ,  foi  o  primeiro 
Europeo  que  residi  o  n"aquellas  terras ,  onde 
estabeleceo  l\i  fazendas  de  creár.  Depois,  o 
Governo  do  Maranhão  enviou  para  ali  algu- 
mas fa  mi  lias,  que  juntas  a  mais  de  3oo  de- 
gradados vindos  de  Portugal,  formarão  a 
primeira  Povoação  de  Piauhy,  fundando  a 

1718  Villa  da  Mocha,  que  se  conservou  subor- 
dinada ao  Maranhão,  até  passar  a  Lugar 
Chefe  de  huma  nova  Capitania. 

Ern  outras  direcções  avançava  o  igualmente 
os  Paulistas  a  largos  passos  pelo  interior  do 
paiz.  Pascoal  Moreira  Cabral,  subindo  o  rio 

1719  Cucliipómirim ,  reconheeeo  que  o  terreno 
de  suas  margens  encerrava  abundância  de 
ouro,  elogo  com  seus  companheiros  ali  edi- 
ficou algumas  cabanas,  depois  augmentadas, 
com  a  chegada  de  huma  nova  Bandeira.  No 


1 55 

seguinte  anno,  se  mudou  o  Arrayál  para  o  1790 
lugar  da  Forquilharem  cujas  visinhanças, 
o  ouro  se  ofFerecia  em  tamanha  cópia  ,  que 
no  espaço  de  hum  mez  se  extrahirão  $00  ar- 
robas deste  metal,  exeavando-se  apenas  a  4 
braças  de  profundidade.  O  Governador  de  S. 
Paulo ,  Rodrigo  Cesar  de  Menezes ,  enviou 
huma  Commissâo  encarregada  de  receber  o 
importe  do  quinto,  a  qual,  abusando  da  autho- 
ritlade  para  proteger  alguns  mineiros,  com 
quebra  dos  direitos  dc  outros,  ateou  tal  dis- 
córdia entre  elles,  que  estes  insensatos,  como 
feras  se  dilaceravao  sobre  os  montões  do  se-  ^79^ 
ductor  e  perigoso  inetál,  encontrando  a  morte 
no  mesmo  princípio  que  huma  ávida  cobiça 
lhes  figurava  como  a  origem  de  todas  as  ven- 
turas. Dois  annos  depois,  a  Povoação  foi 
transferida  para  o  lugar  cio  Cuyabá,  como  ^y^i 
filial  de  S.  Paulo,  e  recebeo  o  titulo  de  Villa 
em  1729. 


A  primeira  Divisão  que  sahio  de  Cuyabá  3 


m 

em  1730,  transportando  65  arrobas  de  ouro, 
foi  acommeltida  por  huma  Frota  de  mais 
de  80  canoas  com  800  Payagoas,  que,  depois 
de  porfiado  combate,  se  apossarão  da  ri- 
quesa,  matando  90  Portuguezes,  com  perda 
de  4  00  dos  seus. 

De  peleja  em  peleja  ganhavão  os  Paulistas 
novos  terrenos.  Em  1660,  tinha  Bartholomeo 
Bueno  ,  com  12  annosde  idade,  acompanhado 
Seu  pay,  atravessando  o  Districto  dominado 
pelos  Goyazes,  e  já  então  havia  observado 
que  estes  Cabocolos  se  adornavão  com  folhe- 
tas de  ouro.  O  Descobrimento  das  minas  do 
Cuyabá ,  lhe  despertou  a  idéa  de  ali  voltar, 
e  como  o  Governo  de  S.  Paulo  fornecesse 
100  espingardas  á  expedição  ,  o  Sertanejo  se 
pôs  em  marcha,  acompanhado  de  numerosa 
comitiva.  Sua  curta  idade  quando  visitara 
aquelles  lugares,  ha  via  o  09  annos,  lhe  tinha 
feito  perder  a  memoria  dos  signaes  que  o  de- 
vião  guiár3  de  forma  que,  ao  cabo  de  ire* 


,57 

annos  de  perigosa  e  enfadonha  viagem,  re- 
gressou o  septuagenário  a  S.  Paulo,  deixando 
nas  matas  a  maior  parte  dos  seus,  mortos  de 
desastres  ou  doenças.  Voltou  de  novo  o  Ser- 
tanejo, no  seguinte  anno,  e,  com  mais  feliz 
successo,  encontrou  a  desejada  paragem  ,  e  se 
estabcleceo  no  lugar  onde  hoje  está  o  Ârrayál 
do  Ferreiro.  Tanto  abundava  o  ouro  no  paiz, 
que,  não  sendo  escassos  os  mantimentos,  hidos 
regularmentede  S.  Paulo  ,  hum  porco  se  com- 
prava por  28  libi  as  deste  metal.  Foi  destas  mi- 
nas (pie  hum  filho  do  nosso  respeitável  Bueno, 
extrahio  o  ouro  de  que  formou  huma  collecçâo 
dos  frucios  brasileiros,  em  grandesa  natural, 
e  que  pessoalmente  oftertou  a  El  Rey  D.  Joio 
V.  Em  pouco  tempo,  se  achou  a  Povoação  1728 
com  mais  de  4,000  almas,  e  foi  então  trans- 
ferida para  as  margens  do  rio  Vermelho, 
onde  tomou  o  titulo  de  Villa  Boa,  cm  1730. 


i.58 


Minas  de  diamantes.  —  Povoação  do  Dio  Grande  do  Sul.  — 
Guerras  de  limites.  —  A  Capilál  do  Brasil  passa  ao  Ri» 
de  Janeiro, 

Este  período  da  Historia  do  Brasil  se  torna 
mais  rernarcavel  ainda  pelo  descobrimento 
de  novas  e  íicticias  riqnesas,  que  arruinando 
o  Estado  5  hião  pejar  os  cofres  estrangeiros, 
Antonio  da  Fonceca  Lobo ,  tendo  penetrado 
no  Serro  Frio,  em  caía  de  terras  auríferas, 

1729  achou  o  primeiro  diamante,  em  huma  mina 
que  enriqueceo  os  futuros  exploradores.  Mui- 

1730  los  Sertanejos  se  diregirão  logo  para  aquella 
paragem,  que  a  natureza,  como  querendo 
occultal-a  aos  olhos  humanos ,  cercou  de  altas 
e  escarpadas  montanhas. 

O  celebre  diamante  à:\  Coroa  de  Portugal, 
foi  achado  no  córrego  de  Abaythé,  em  1800, 
por  tres  malfeitores  comdemnadtfs  a  exílio. 
Hum  Ecclesiastico  o  apresentou  ao  Gover- 


i5c) 

nador  de  Minas  \  o  volume  prodigioso  do  pro- 
ducto,  fez  duvidar  de  que  fosse  diamante, 
até  que  reiteradas  experiências  convencerão 
da  identidade.  Este  maravilha  foi  enviada  a 
Lisboa,  e  os  degradados  tivera  o  o  perdão. 
Huma  Companhia,  que  depois  foi  explorar 
as  margens  do  Abaythé,  colhco  apenas  com 
que  equilibrar  as  despesas. 

A'  intrépida  ambição  paulistana  se  deve 
pois  o  descobrimento  dos  thesouros  bra- 
sileiros. Esta  época  porém,  da  qual  pareceria 
datár  a  prosperidade  da  Colónia,  he  aquella 
em  que  mais  se  abandonarão  as  artes,  e  par- 
ticularmente a  agricultura,  únicas  sólidas 
bases  da  felicidade  das  Nações,  por  isso 
nenhum  monumento  existe  de  sua  ephémera 
grandesa.  Hoje  a  industriosa  Europa  em- 
presta aos  Eslados  da  America  Meridional, 
com  avultados  ganhos ,  o  mesmo  ouro  em 
que  ha  hum  século  nadavão  os  ociosos  Colo- 
nos. 


i6o 

Em  quanto  nas  Capitanias  do  Norte,,  con- 
tinuado novas  seccas  a  devastar  os  poucos 
terrenos  cultivados ,  e  que  tudo  ali  ameaçava 

1738  tolál  decadência,  se  alargaváõ  os  Paulistas 
para  o  Sul  de  seus  limites  ,  e  estabelecido  pe- 
quenos Arraya  es  nas  terras  adjacentes  ao  gol- 
fão do  Rio  da  Praia ,  já  concedidas  ao  Vis- 
conde d'Assêca.  D 'aqui  transferirão  algumas 
fazendas  de  creár  para  as  visinhanças  da  la- 
goa dos  Patos  j  avançando  sempre  na  direcção 
S.  O. ,  ao  passo  que  os  Cabocolos  lhes  aban- 
donava o  o  terreno.  A  primeira  Povoação  com 

1743  algl,ma  regularidade,  foi  a  de  S.  Pedro  ,  no 
lugar  do  Estreito,  a  qual.,  Gomes  Freire 
d' Andrade  mudou  para  o  locál  que  hoje  oceu- 
pa.  Aqui  foi  a  Capital  do  Piio  Grande  do  Sul , 
até  1763,  em  que  esta  primasia  se  concedeo 
a  Portalegre,  que  foi  fundado  pelo  Governa- 
dor José  Marcelino  de  Figueiredo ,  e  teve  o 
titulo  de  Villa  em  1808. 


Muitos  casaes  de  Açoriías  vieião  por  ve- 


i6i 

ses  reforçar  a  Povoação.  Dois  navios  que 
transportavão  700  d'estes  Colonos,  naufra- 
gârâo  desgraçada  mente  em  1774?  na  barra 
do  Sul  do  Canál  de  S.  Calharina,  sem  que 
hum  só  passageiro  guardasse  a  vida. 

Pela  elevação  d'El  Pvey  D.  Jozé  ao  throno,  1750 
se  firmou  hum  tratado  de  limites  ,  entre  Por- 
tugal e  Hespanha.  Os  Commissai  ios,  que  por 
parte  de  huma  e  oulra  Corôa  vieruo  demarcar  \  752 
a  raia,  o  não  poderão  realisír,  porque,  a 
sugestão  dos  Jesuítas,  se  lhe  oppôs  hum  corpo 
de  3,ooo  índigenas  de  Missões*,  á  vista  do 
que  ,  enviarão  os  dois  Governos  contratantes, 
Tropas  de  huma  e  outra  parte,  no  intuito 
de  redusirem  os  hái  baios.  Gowes  Freire 
d' Andrade,  Governador  do  Pvio  de  Janeiro , 
marchou  com  1,200  homens,  e  o  Conde  de 
Valdelirios ,  Governador  de  Buenos  Ayres, 
com  2,3oo.  Perto  da  foz  do  Caziquey  lhes 
Eahirrjo  ao  encontro  12,000  Tappes,  mas  os 
alliados  os  forçarão  a  retrogradar,  matando- 

2 1 


l(}2 

1756  lhes  i,5oo  homens,  e  capturando-lh.es  todas 
as  munições  de  guerra. 

1762  Chegando  depois  á  America  a  nova  do 
rompimento  da  guerra,  os  líespanhoes  ata- 
carão dimproviso  a  Colónia  do  Sacramento, 
o  Governador  Vicente  da  Fonceca  ,  resistia 
com  geral  admirarão  por  25  dias  consecu- 
tivos; mas  obrigado  a  ceder  ao  poder  do  nu- 
mero, sahio  pela  brecha  com  toda  a  guar- 
ptçâo,.  Os  inimigos  continuarão  a  marcha, 
è  f orâo  oeeupár  os  Fortes  de  S.  Miguel,  S» 
Thereza  ,  e  S.  Pedro ;  e  d  aqui ,  avançando 
em  numero  de  i,6oo  ,  começarão  o  ataque  ao 
Forte  do  Piio  Pardo.  Hum  corpo  de  Dragões 
de  S.  Paulo  ,  de  sós  a3o  homens ,  ca h indo  de 
surpresa  sobre  elles ,  os  derrotou  comple- 
ta men  te. 

1763  Sobrevindo  n  par  ,  o  Governador  de  Buenos 
Ayres,  D.  Pedro  Cerados,  reslituio  a  Colónia 
do  Sacramento  a  Pedro  de  Sarmento,  para 


i63 

isso  nomeado  ;  ficando  indevidamente  os  on-> 
tios  Presídios  no  domínio  hespauhol,  até 
1777,  que  fora  o  restaurados  pelo  General 
João  Bo/temi. 

PTaquelle  mesmo  anno  mandou  El  Rey  Pft 
Jozé  transferir  a  Capital  do  Estado  do  Bra- 
sil, da  Bahia  para  o  Bio  de  Janeiro,  a  fim 
de  que  os  inquietos  Povos  limilrophos  do 
Sul,  achassem  prompta  reacção  ás  suas  con- 
tínuas e  atrevidas  incursões. 

Melhoramentos  no  Brasil!  —  Os  IIe?panhops  tomâo  S.  Ca- 
tbatina.  —  Limites  definitivos.  —  Intento  revolucionário 
em  Minas  Geraes.  —  Guerra  com  Buenos  Ayres, 

Eis-nos  chegados  pela  rapidez  da  nossa 
marcha,  a  huma  nova  época  de  regeneração 
para  Portugal  c  seus  domínios. 

Se  he  verdade  que  os  grandes  homens  fazem 
a  força  e  gloria  de  huma  iNação ,  justo  he  dl- 


£er-seque5  Sebastião  Jozé  de  Carvalho,  depois 
Marquez  de  Pombal,  deve  figuiár  no  alio  da 
lista  das  grandes  influições  iudividuaes,  que 
tem  fundado  ou  sustentado  Estados.  Munido 
de  hum  poder  immenso,  devido  á  absoluta 
confiança  d'El  Rey ,  marchou  por  invariável 
róta,  rompendo  colossaes  obstáculos,  a  seu 
fim  ,  que  hera  a  regeneração  de  Portugal , 
e,  rrgoroFo  medico  da  moribunda  Monarchia, 
tocando  irritáveis  feridas,  e  cica Irisando  in- 
veteradas chagas,  devia  excitar  gritos  dolo- 
rosos ,  e  tramas  de  vingança  assim  ,  nenhum 
homem  il lustre  tem  sido  tão  diversamente 
julgado.  Todavia,  a  hesitação  na  escolha  dos 
retratos,  que,  em  contraste,  dVíle  fazem  os 
d  i  fie  rentes  escri piores  nacionaes  ,  e  estran- 
geiros ,  não  pode  ser  longa.  O  Marquez  de 
Po  mb  dl,  foi  inimigo  dos  Jesuítas,  foi  o  Her- 
cules que  derribou  a  hydra  de  cem  cabeça 
e  dVquí  nasce  o  tresbordo  de  ódio  e  ca  Som» 
nia  ,  que  intentou  submergir  sua  memória» 
OsJeauitas  tem  em  todos  os  tempos  3  sobic» 


i.65 

pujado  em  destruir  a  reputação  de  sens  ad- 
versários*, porém  as  sérias  e  duradouras 
controvérsias  a  que  o  caracter  de  hum  grande 
homem  d'Eslado  está  sujeita,  não  permUtetia 
que  o  erro  seja  eterno  a  seu  respeito  :  a  pos-« 
ter  idade  o  anniquila.  1 

Mal  toma  as  rédeas  do  Impeli  o  o  ?darrj'rz 
de  Pombal,  trata  com  todas  as  Côrles,  ne- 
gocia com  todos  os  Gabinetes.,  c  mostra  aos 
Soberanos  d  Europa  ,  que  Portugal  torna  a 
ser  Potencia  j  organisa  hum  Exército  formi- 
dável; acrescenta  a  Armada;  derroga  leis 
imiteis,  e  promulga  as  necessarks;  minora 
o  poder  dos  grandes;  restabelece  a  subordi- 
nação ;  regnla  a  policia  interna  ;  augmenta 
as  finanças,  prohibindo  a  exportação  do 
numerário;  acode  ás  artes;  vivifica  o  co  n- 
mercio  ;  junta  novos  ramos  á  in  lústria  na- 
cion  d  ,  e  estabelece  hum  cslenço  svsiema 
fabricante.  Tranrpiillo  sobre  o  estado  politico 
e  económico  da  Nação,  cura  cL  homem  moral, 


i66 

c  o  arranca  aos  nós  da  Eirâft-má  sagrátTa  ; 
proscreve  os  Jutas  da  /p,  c  apaga  os  aliares 
sanguinários,  cerrando  a  tremebunda  inqui- 
sição nos  estreitos  limites  de  meia  disciplina 
ecclesiásiica. 

Se  a  America  Portngueza  n~opóde  utíTisâr 
de  todos  os  bens  que  lhe  preparava  e  incom- 
parável- Ministro  ,  participou  ao  menos  de 
sua  benigna  influencia.  A  armada  ,  que 
desde  a  morte  d'El  Piey  D.  Pedro  II  , 
cessara  de  acompanhar  annual  mente  os  na- 
vios do  eommercio  até  aquém  do  Atlântico, 
1/68  f0i  (]e  novo  posta  em  actividade;  por  con- 
í  j  4  0  yeneces  com  o  Gabinete  de  Londres,  conside- 
ravel  porção  de  géneros  brasileiros  entrava 
regularmente  nas  alfândegas  britânicas ;  mais 
de  20,000  Açoritas  vierãoaugmentár  o  numero 
dos  agrícolas  em  todo  o  Estado;  liuma  lei 
sábia  e  philanthrópica  restituio  a  liberdade 
a  todos  os  indígenas,  indevidamente  escravi- 
sados3  e  convidou  muitas  Tribus  á  catequi- 


zaçao»,  razoáveis  e  bem  administrados  tribu- 
tos, repararão  muitas  fortificações  e  edifícios 
públicos,  de  que  apenas  se  vião  as  ruínas*,  e 
finalmente,  10  escolas  regulares  de  Bellas 
Letras  forão  erradas  nas  d i Aferentes  Capita-  1 
nias.  Francisco  Xavier  de  Carvalho ,  irmão 
do  illuslre  Marquez,  veio,  na  qualidade  de 
Vicerey ,  encarregado  da  execução  d  estas  sa- 
lutares medidas. 

A  inveja,  porem,  e  abaixa  intriga,  não 
tardarão,  por  moí  te  do  Monarcha  ,  em  der- 
ribar o  esclarecido  Protector  de  Portuga]  ,  e 
com  elle  o  ediíicio  da  prosperidade  da  Nação. 

A  queda  do  Marquez  de  Pombd' ,  no  co-  \ 
meço  do  reinado  da  Rainha  D.  Maria  I,  foi 
assignalada  no  Brasil,  pela  execução  de  lium 
tratado  oneroso,  que  a  sagacidade  do  liabil 
Ministio  tinha  sabido  evitar. 


JNTa  tranquillidade  da  paz ,  huma  Armada 


íicspanhola ,  ])om  provida  de  Tropas ,  aó 
4777  conimando  de  /).  Ppí/ r.fl  Cevallos,  se  tinha 
apoderado  da  liba  deS.  Calhai  ina,  e  commet- 
tido  as  mais  indignas  barbaridades^  sem  que 
fosse  possível  resistir-lhe ,  pelo  estado  de  des- 
falque da  Capitania-,  e  esk'  aUcntaelo obrigou  a 
4777  ^,Jíq^<  sa  do  Governo  portuguez  á  conclusão 
tio  vergonhoso  tratado  de  S.  íldefonço,  pelo 
qual  se  fixarão  novos  limites  ao  Brasil,  per- 
dendo Portugal,  a  Colónia  do  Sacramento, 
todo  o  ieriilorloao  Norte  do  Caparannatuba; 
e,  na  Afi  iça,  as  ilhas  de  S.  Gabriel,  Annohom, 
e  Fernando  Pó,  em  troco  de  hum  mcsquiniio 
terreno  ao  Oriente  do  Uraguay . 

Pelo  derradeiro  tratado,  em  iCoí  ,  se  mar- 
carão definitivamente  as  raias  geraes.  Esta 
linha  divisória  com  todes  os  paizes  limitrophos 
do  Brasil  ,  ainda  ilfiò  rcalisada  ,  deve  começar 
na  boca  do  riacho  de  Castilhos  Grandes*,  segue 
pelo  Aricá  aoseptentriâo,  procurando  a  íoz  do 
Piquiiy,  e  daqui  á  origem  deste  rio-,  se- 


i6.9 

auindo  depois  pela  serra  de  S.  Fernando, 
buscando  o  Paeoré;  e  entrando  no  Iguassu, 
vai  aguas  deste  a  baixo  até  á  sua  emboca- 
dura no.  Parannâ ;  passada  a  correntesa  das 
Setequedas,  sobe  pelo  Iguiahy,  e  vai  entiár 
no  mais  visinlio  tributário  do  Paraguay,  de 
cuja  confluência  em  diante,  este  a  continua 
até  hum  ponto  que  dista  igualmente  da  sua 
emboradusa  no  Maranhão  ,  e  da  união  com 
o  Ma  more ;  donde  segue  L.  O.  até  ao  Yabary  $ 
avançando  ao  Norte  ás  cabeceiras  c!o  Aciary, 
vai  logo  pelo  Parai  leio  tomar  o  rio  Negra, 
e  por  este  até  ao  lago  Paiirné  j  depois  ,  aguas 
do  rio  Branco  a  baixo,  á  serra  de  Tumucu- 
raque,  e  d  aqui  L.  O.  ás  montanhas  de  Pi* 
riús.*,  e  cortando  ao  Marony  ,  vai  topar  com 
o  Amary ,  na  forquilha  de  Ba  labuto;  ga- 
nha, na  mesma  direcção  o  Oyapock  }  e, 
por  elle  até  ao  Oceano.  0  terreno  entre  o 
arroio  de  Chuhy  ,  e  o  rio  Thahim ,  conserva- 
se  neutral, 

22 


s7o 

Por  muito  tempo  depois  se  conservou  © 
Estado  em  perfeita  quietação,  até  que  hum 
facto,  ião  notável  por  sèr  o  primeiro  que  no 
Brasil  envolve  idéas  de  independência,  como 
pela  singuíár  incúria  com  que  se  hou verão 
os  principaes  que  nelle  figurão,  veio  occu- 
pár  todos  os  espíritos, 

I^Qg  Sendo  Luiz  da  Cunha  e  Menezes  Governador 
de  Minas  Geraes,  teve  aviso  de  rpie  hiinia 
conspiração,  com  o  tilo  de  declarar  indepen- 
dente aquelía  Caphan  a  ,  sob  bum  Governo 
republicano,  á  imitação  da  America  Ingleza, 
estava  a  ponto  de  rebentar.  Tão  quimérico 
intento  não  mereceo  a  a  l  tenção  do  Governa- 
dor;  e  os  revolucionários,  ganhando  maior 
vigor  ,  ti  verão  tempo  de  grangearem  novos 
sócios  nos  di Aferentes  Povoados  de  Minas.  Com 
a  chegada  do  novo  Capitão  General ,  Visconde 

1788  ^e  ^ar^accnai  Por  occasião  de  se  effcituár  a 
derrama  da  contribuição  de  ouro,  em  que  a 
Capitania  hera  taxaJa ,  e  de  que  estava  de» 


m 

vedora ,  quisera  o  os  insur  gentes  romper  na 
revolta  ;  mas  vindo  então  a  consideiâr  que  a 
sua   posição   lopográphica,  no  interior  d© 
paiz,  hera  menos  propícia  para  tal  projecto^ 
destacarão  ao  Rio  de  Janeiro,  Joaquim  Jozè 
da  Silva  Xavier ,  denominado  o  Tiraclentes 9 
com  o  fim  de  allieiár  maior  pai  tido  n'este 
porto.  Jaze  Alves  Maciel,  natural  de  Minas, 
que  aqui  se  achava  de  volla  da  Europa  ,  asso» 
verou  ao  emissário,  que  as   Folencias  que 
tinhâo  protegido  a  emancipação  da  Coloma 
inuleza  ,  não  deixariâo  de  igualmente  abraeár 
a  causa  de  Minas  Geraes  }  e  que  evidente 
hera  o  terem  hum  forle  Exército  francez,  e 
huma  mais  forte  Armada  hespanh<da,  ou, 
holandeza  em  seu  favor  ,  ao  primeiro  grito 
de  liberdade,  que  soasse  no  Brasil.  Nada  mais 
necessitou  o  inexperto  Xavier,  para  transpor- 
tar-se  a  Villa  Rica,  contente  da  missão;  e9 
o  que  mais  espanta,  isto  bastou  para  que  os 
mais  dos  conjurados  contassem  com  ítiizsuc- 
cesso. 


\ 


I72 

Em  último  acordo,  os  rebeldes,  depois  de 
adoptarem  novas  leis,  e  nova  bandeira*  re- 
solverão que  ,  no  momento  em  que  o  Governo 
mandasse  realisár  a  capitação ,  expressamente 
retardada,  se  porião  em  movimento,  sol- 
tando vivas  á  Republica  ,  e  que  a  Tropa  de 
Ia.   Linha  ,    commandada    pelo  conspirado 
Francisco  de  Paula  Freire  d 'Andrade ,  se  1  lies 
uniria.  Huma  proclamação  faria  conhecer  ao 
Povo  que  ficava  desonerado  de  todos  os  im- 
postos ;  o  Governador  seria  preso,  ou  assassi- 
nado em  caso  de  resistência  -  e,  em  derra- 
deiro apuro,  se  prometteria  a  liberdade  aos 
escravos.   JN'estas    circunstancias  ,  Joaquim 
Silvério  di  s  Reis  ,   instruído  do  trama,  por 
*|739  a  elle  pertencer,  denunciou  seus  sócios  ao 
Visconde  de  Barbacena ,  o  qual  por  ordem 
do  Vicerey  D.  Luiz  de  V ase once lios  ^  os  fez 
prender,  sem  achar  a  mínima  opposiçlo. 
Joaquim  Jozè  da  Sii  a  Xavier  ,  julgado  Chefe 
da  insurreição,  expiou  só,  na  forca  ,  od( lirio 
de  todos  os  rebeldes,  Cláudio  Manuel  da  Costa9 


•:3 

e  Joaquim  da  Silra  Pinto  do  Rego  Fortes  ,  pe- 
recerêo  na  prisco;  10  outros,  igualmente 
condemnados  ao  suplício,  espera¥$o  a  horâ 
fínál,  encarcerados  no  mesmo  edifício,  Onde 
por  hum  notável  cnconho,  alguns  d'ellcs 
vierão  depois  figurár  na  Asserriblea  Consti- 
tuinte, quando  lhes  foi  intimada  huma  Carta  1792 
Regia  da  Rainha,  diregida  ao  Yicerey  Conde 
de  Rezende,  commulando-lhcs  a  pena  em 
exílios  para  diversos  Presídios  da  Africa; 
Assim  se  mal  logrou  o  insensato  projecto  de 
liuma  sociedade  ,  rpie  em  seu  seio  guardava  o 
gérmen  da  própria  destruição. 

A  Rainha  D.  Maria  I  ,  at  içada  de  mo- 
léstia mental,  encarregou  de  governar  em  1793 
seu  nome  ao  Príncipe  do  Brasil,  D.  Joio; 
porem  ,  como  o  mal  da  Soberana  se  aggra- 
vassè  no  seguinte  anno,  ficou  o  Príncipe 
governando  em  qualidade  de  Regente  dc 
Portugal  e  seus  Dominios.  1794 


i<74 

Chegando  ao  Rio  Grande  do  Sul ,  a  no- 
iSOÍ  Licia  da  declaração  de  guerra  pela  llespa- 
nlia  a  Portugal,  inconlinente  partirão,  P<í- 
tricio  Correa  da  Camara,  com  Tropas,  aoc- 
cuj  ár  a  fionteira  do  Rio  Pardo,  e  Manuel 
Karcjtifs  de  Souz-i ,  a  do  Rio  Grande.  Simão 
Soares ,  com  i5o  homens  foi  atacar  o  acam- 
pamento de  Címy,  eo  surprendeo  e  saqueou. 
Jozé  Antunes,  que  havia  passado  até  o  Hcr- 
■vál,  foi  demolir  os  postos  avançados  caste- 
lhanos do  Jaguaraâ.;  e  iguál  sorte  tiverâo 
todas  as  posições  até  ás  visinhanças  do  Jacuhy, 
sem  exceptuar  o  forte  de  S.  Tecla*,  retiran- 
do-se  o  inimigo  ao  Serro  Largo,  não  sem 
perda  de  todas  as  munições  e  petrechos  de 
guerra,  que  lhe  forHo  capturados  pelos  Por- 
tuguezes  no  lugár  doBatuvy.  Os  Hespanhoes 
postai  ão-se  na  margem  meridional  do  Ja- 
guarfo,  e  os  contrários  na  septcntrionál , 
d  onde,  depois  de  terem  os  últimos,  em  dif- 
fe  rentes  avançadas,  feito  5o  prisioneiros  5 
partirão  em  numeio  de  1^200 ,  ao  ataque 


4 


t7§ 

\ío  Serro  Largo.  Aos  primeiros  liros  ficarão 
os  Porluguezes  senhores  de  hunia  obra  avan- 
çada ;  porém  a  aproximação  de  grande  re- 
forço, que  ao  inimigo  vinha  de  Montevideo, 
os  obrigou  a  retirar  ao  abarracamento  do 
Jaguar ao ,  onde,  já  em  presença  de  todo  o 
Exercito  rival,  es  ta  vão  dispostos  a  huma  de- 
cisiva acção,  quando  ali  chegou  a  noticia  da 
paz.  \ 302 

Rompido  o  tratado  dWmiens,  começou  a  1£03 
guerra  entre  França,  clnglaterre,  succedendo 
o  systema  continental  ,  ao  impraticável  pro- 
jecto de  huma  invasão  furtiva  na  Gran  Bre- 
tanha. P  ortugal ,  que  pela  mediação  da  Rússia 
e  Prússia  ,  caro  comprara  a  neutralidade,  que 
escrupulosamente  guardou  até  ao  famigerado 
Decreto  de  Milão,  recusou  fechar  seus  portos 
á  bandeira  britânica*,  e  Napoleão,  quiz,  em 
troco,  riscar-lhe  o  nome  da  carta  politica 
d  Europa.  A  ambiciosa  inépcia  do  Príncipe 
da  PaZ)  secundou  os  intentos  do  Guerreiro, 


■  %. 

e  pelo  aério  tratado  cie  Fontainebleau  ,  foi 
otlominio  de  Portugal  repartido  entre  aqm  lie 
Ministro,  e  o  Rey  iVEtrúria.  Iluma  Divislo 
ao  cominando  do  General  J unot ,  marchou 
1807  logo  sobre  Lisboa. 


QUINTA  ÉPOCiL 


brasil  como  &foe  ira  Monavclpa  poviu- 


No  momento  em  que  a  vanguarda  do  Exer- 
cito francez  pizava  a  terra  lusitana,  o  Prín- 
cipe Regente,  cedendo  ás  instancias  de  seus 
Conselheiros  collaboradores  da  politica  in- 
gleza ,  se  dispunha  a  sahír  do  Tejo,  com  a 
Real Familia ,  e abandonando ,  Reino,  forti- 


178 

ficaçoes,  arcenaes  e soldados,  a  hum  inimigo 
pérfido,  Trio  buscar  asilo  no  Estado  do 
Brasil.  Assim,  chegado  hera  o  tempo  em 
que  a  vasta  America,  até  ali  refugio  de  obs- 
curos desvalidos,  devia  oílerecer  nova  Patria 
aos  Príncipes  perseguidos  pela  revolução. 

Á  Real  Armada  de  9  náos  de  linha,  acom- 
panhada por  huma  Esquadra  ingleza,  e  com 
destino  ao  Rio  de  Janeiro,  fendo  experimen- 
tado contratempos  que  a  dividirão,  alguns 
vasos,  e  entre  estes,  o  que  transportava  o 
Príncipe  Regente,  arribarão  á  Capitania  da 

1803  B*liia- 

Liberdade  de  eommercio.  —  Conquista  de  Cayenn». 
Pahiótiea  administração.  —   O  Brasil   elevado  a  Rei- 
uo.  —  Campanha  do  Sul. 

Mal  hera  chegado  o  Príncipe  Regente, 
aos  seus  Falados  da  America,  quando,  annuin- 
do  ás  representações  do  Conde  da  Ponte , 


'79 

Governador  da  Bahia,  soltou  o  último  am'l 
do  grilhão  co'omál ,  que  prendia  o  Povo  Rra- 
sileiíoá  Metropoli ,  promulgando  na  Cidade  i 808 
de  S.  Salvador  a  immortál  Carta  Regia,  que 
concedeo  livre  e  franca  entrada  nos  portos 
do  Brasil,  aos  navios  de  todas  as  Nações  em 
paz  com  a  Coroa  portngueza,  que  transpor- 
tassem quaesquer  mercadorias. 

Depois  de  curta  residência  na  Balua,  veio 
o  Príncipe  Regente  unir-se  ao  lesto  da  Real 
Familia  no  Rio  de  Janeiro,  onde  estabcíeceo 
a  primeira  Corte  monárchica  do  Novo  Mun- 
do. 

A  guerra  em  que  laboravão  a  Inglaterra 
e  Portugal  ,  contra  Napoleão  ,  justiíicava 
qualquer  empresa  tentada  por  estíS  Poten- 
cias, sobre  possessões  íianc^zas ;  assim,  ex- 
pedio-se  ordem  ao  Governador  do  Paia,  Jozé 
Nareizo  de  Magalhães  e  Menezes  ^  para  que 
fizesse  marchar  as  Ti  opas  d  aquella,  Capitania 


,i8o 

eontrs  a  Guyanna  Franceza ,  enviando-lhe 
em  apoio  2  embarcações  de  guerra.  João 
Guilherme  Fo,  commandando  huma  Fragata 
ingleza,  devia  cooperar  para  a  conquista. 
Manuel  Marques ,  Chefe  da  expedição,  com- 
posta  de  55o  homens,  soldados,  e  marinhei" 
ros ,  senhoreou-se  cm  dois  dias  de  todos  os 
pontos  fortificados  do  continente;  e,  ao  au- 
xilio de  falsa  promessa  de  liberdade  aos  es- 
cravos de  Cayenna,  obrigou  o  Governador 
Victor  Hugo  a  pedir  capitulação.  Os  Por- 
tuguezes  entrarão  íriumph antes  na  Praça, 
1809  onde  se  arvorou  a  bandeira  nacional ,  sabindo 
a  guarnição  franceza,  de  600  praças,  com 
todas  as  honras  da  guerra,  sob  condieçao  de 
ser  transporta  á  França  em  navios  portugue- 
zes.  Dest'arte  avançarão  os  limites  do  Brasil 
á  foz  do  Marony  ,  ate  ser  a  Colónia  resti- 
tuída ao  antigo  dominio,  pelo  tratado  de 
paz  geral  em  1 8 1 5 . 


Nao   poucos  forao  os  augmentos  que  e 


iSi 

Brasil  recebeo  com  a  fixação  do  domicilio 
Real  em  seu  fértil  seio.  No  armo  de  i3o8 
começou  a  brotar  para  este  continente  huma 
fonte  de  prosperidades,  devida  principal* 
mente  á  solicitude  do  Ministro  D.  Rodrigo  de 
Souza  Coutinho,  depois  Conde  de  Linhares  , 
benignamente  acolhida  por  hum  Príncipe 
bemfazejo.  A'  influencia  dVste  benemérito 
varão  na  governança  se  deve  o  Alvará  de 
aboli  cio  dos  obstáculos  que  to]  Lião  a  indús- 
tria, permittindo  no  Brasil  todo  o  género 
de  manufacturai  j  a  ereação  do  Banco  do 
Brasilj  a  instalação  de  hum  Tribunal  en- 
carregado de  vigiar  pelas  cousas  do  comurer- 
cio,  fabricas,  agricultura ,  e  navegação  a 
Escola  Mcdico-Cirúrgica;  o Archivo  Militar, 
e  huma  Typographia.  A  milícia  recebeo  do 
conspícuo  Ministro,  a  ereaçuo  da  Academia 
Militar,  a  cio  Arcenál  do  Exercito,  e  Fabrica  ^  §j  \ 
de  Pólvora.  Aos  Governadores  das  diíTercntcs 
Capitanias  se  proporcionarão  os  meios  de 
abrir  e  facilitar  as  communicaçces  entre  os 


182 

P  voados;  e  riVste  artigo  se  deve  agradecer 
ao  Conde  de  Linhares,  atém  de  outras,  a 
estiada  de  \i\   legoas  entre  o  Registo  de  S. 

1812  Maiia,  e  o  Porlo  do  Pontal,  concluída  com 
pasmosa  brevidade.  A'  lavoura  coube  o  con- 
tingente de  54o  casaes  de  Açoritas,  que  se 
espalharão  pelo  11  i o  ele  Janeiro,  Baliia,  Es- 
pirito Santo,  S.  Faido  ,  e  Minas.  Cento  e  oi- 
tenta plantadores  Ciiinezes  vierao  oceuparern- 
se  na  cultura  do  xa  *,  e  deo-sc  começo  a  4 
Jardins  Botânicos,  em  diversas  Capitanias  5 
concedendo-se  generosos  prémios,  pecuniá- 
rios, ou  bonoriíicos ,  aos  que  introdusissem 
110 Brasil  quaesquér  plantas  rarase  forasteiras. 
Tacs  são,  mui  resumidamente ,  os  principaes 
traços  da  administração  deste  acrisolado 
amante  do  Brasil ,  que  a  mais  alto  o  elevaria, 

1C12  se  tão  cedo  a  morte  o  não  aeommettera  :  gra- 
tidão tributem  os  Brasileiros  á  memoria  d® 
Ministro  Cidadão. 


Os  successores  do  Conde  de  Linhares  ,  nâ» 


i83 

tem  infelizmente  direito  a  igual  histórica 
mens^o*,  o  Governo  jaseo  3  annos  em  quasi 
perfeita  apathía,  até  que  o  Príncipe  Regente , 
tendo  creado ,  além  de  muitos  Tribunaes 
necessários  á  moderna  Côrte  de  tão  cs tensos 
Dominios,  10  novas  Comarcas,  e  29  Villas  , 
ill  ustrou  o  Brasil  com  o  titulo  de  Reino,  unido  181 
aos  de  Portugal  e  Algarves. 

Havendo-se,  pelos  annos  de  1808,  e  1809, 
atea  lo  em  Buenos  Ayres  o  fogo  da  insurreição, 
alçando  aquelles  Povos  o  estandarte  da  inde- 
pendência, ali  começou  a  lavrár  a  horrorosa 
guerra  de  partidos,  que  tão  longa  c  san- 
guinária Linha  de  ser.  As  fronteiras  do  Bra- 
sil se  acha  vão  ameaçadas,  c  Montevideo,  fiel  á 
Metropoli,  pedia  soccorro  ao  Governo  portu- 
guezj  mal  logrados  os  meios  de  concórdia,  se 
ordenou  em  18 1 1  ,  ao  General  D.  Diogo  dt 
Souza,  que,  com  hum  bom  corpo  de  Tropas  de 
S.  Paulo,  Rio  Grande,  eS.  Catharina,  fos  e 
levantar  o  cerco  daquella  Praça,  e  repelar 


i&4 


os  rebeldes  para  âlétn  do  Prata.  O  General 
penetrou  até  Maldonado  \  mas  o  inimigo 
apressa  ndo-se  em  firmar  armistício  com  o  Go- 
verno de  Montevideo,  voltarão  sem  fructo 
os  Poriuguezes,  ao  cabo  de  mil  sofrimentos. 

Tornando  ainda  os  insurgen tesa  invadirem 
o  território  do  lado  oriental  do  Prata,  mar- 
iQ\6  chou  a  combatel-os  burna  luzidissima  Divisão 
do  Exército  de  Portugal,  que,  debaixo  do 
com  mando  do  General  Carlos  Frederico  Lccor, 
depois  Barão ,  e  Visconde  da  Laguna,  tinha 
voluntariamente  vindo  d'aquelle  Reino.  Eni 
quanto  esta  Divisão  lutava  para  livrar  Mon- 
tevideo dos  ataques  praticados  pelos  bravios 
bandos  do  Chefe  D.  Fructuoso  Rivera  ,  o  Ge- 
neral Joaquim  Xavier  Curado ,  que  foi  Conde 
de  S.  João  das  Duas  Barras,  se  achava  no 
território  do  Uraguay ,  com  as  babeis  Tropas 
do  Sul  do  Brasil  >  para  obstar  a  sublevação 
dos  Povos  de  Missões,  queemprendia  o  Chefe 
D.  Jozé  Artigas,  trasendo  suas  correrias  até 


i85_ 

ao  Rio  Pardo.  DVsta  Divisão,  destacou  aJozé 
de  Abreo,  depois  Barão  do  Serro  Largo  ,  com 
63o  homens,  o  qual,  depois  de  ter  varrido 
a  margem  do  Uraguay,  desde  Japejú  até  S. 
Borja,  das  partidas  epie  a  infestavão,  doo  ba- 
talha ás  forças  de  Artigas  neste  liltimo  ponto, 
e  obrigou  a  debandarem  1,400  insm  gentes, 
ficando  no  campo  muitos  Portuguezes.  Parte 
dos  inimigos,  que  na  retirada  procurarão 
o  Passo  do  Uraguay,  íorao  perseguidos,  e 
forçados  a  precipitarem-se  no  rio.  Pouco  de- 
pois o  General  João  de  Deos  Mcna  Barreto  , 
por  ordem  de  Curado,  marchou  com  53o  ho- 
mens contra  hum  troço  do  inimigo,  que  veio 
assolar  o  território  entre  o  Guaraim,  e  o 
Ubaraguay,  e  carregando  com  vivesa  sobre 
ellc,  lhe  rompeo  e  desbaratou  a  principal 
columnaj  vindo  depois  reunir-se  ao  resto  da 
Divisão,  nas  fronteiras  do  Rio  Grande. 

Recebendo-se  depois  aqui  notícia  de  que  o 
inimigo    destacara    3,  Soo    homens  coa- 

24 


i86 

dnsiilos  pelo  Chefe  D.  Jozé  Verdum ,  ao 
encontro  dos  Portuguezes,  mandou  o  Ge- 
neral Marquez  de  A le  grele ,  a  Joze  de  Abreo  y 
com  5oo  soldados  acommetler  Artigas,  na 
sua  posição  do  A rapa y,  ent~o  mal  guarneci  la; 
o  que  aquclle  Chefe  executou  por  maneira 
que,   matando  700  homens  aos  de  Arti- 
gas ,    senhoreou- se    do    poslo  ,  perdendo 
aliás  120  dos  seus.  Chegando  Verdum  ao  lu- 
gar do  Ca  talam  ,  onde  acam  pavão  as  Tropas 
portuguezas  ,  achando-as  desprevenidas,  ca- 
hio  de  improviso  sobre  ellas  ,  e  as  teria  cor- 
tado ,  se  o  General  Joaquim  de  Oliveira  Alva- 
res  3  não  remediasse  a  lâo  imperdoável  negli- 
gencia ,  oppondo-se  bizarramente  com  a  Le- 
gião de  S.  Paulo,  até  chegar  Abreo,  que  de 
prompto  veio  soccorrer  a  direita  da  columna  j 
e  tal  foi  a  disposição  e  bravura  das  Tropas, 
que  o  inimigo  experimentou  a  mais  completa 
derrota:  hum  estandarte ,  muito  armamen- 
to, 1  canhões,  214  prisioneiros,  e  5, 000  ca- 
1817  vallos,  forão  os  despojos  da  victoria. 


■ 


i$7 

Constando  mais  ao  General  Curado ,  que 
os  insurgcntes  tinhão  a  sua  vanguarda  de 
Soo  homens  em  Belém 4  enviou  100  praças 
coinmandadas  por  Z?fnto  Manuel  Ribeiro,  para 
os  surprender-,  a  intrepidez  deste  official 
vingou  o  projecto,  e  Verdum  foi  aprisionado 
e  condusido  a  Portalegre  com  muitos  outros 
He.spanhoes.  1817 

Em  Missões,  o  General  Francisco  das  Cha- 
gas Santos,  se  oppunha  com  vantagem  ás 
numerosas  e  bárbaras  guerrilhas  inimigas, 
que  percorri ão  todo  aquelle  território*,  em 
quanto  o  General  Manuel  Marques  de  Souza, 
distribuía  com  acerto  *j5o  homens  pelas  fron- 
teiras do  Rio  Grande,  e  as  garantia  do  con- 
tágio revolucionário. 

Por  outra  parte,  o  General  Lecor ,  á  testa 
da  sua  Divisão,  avançando  pelas  campinas 
do  Sul,  dtstacou  o  General  Sebastião  Pinto 
de  Araujo  Correa^  com  alguma  Tropa;  e  est» 


m 

se  apossou  do  Forte  de  S.  Thereza  ,  quasi  sem 
resistência;  e  transportando-se  ao  Passo  do 
Chafuiote,  ali  bateo  os  insurgentes ,  causan- 
do-lhes  perda  de  1 5  mortos,  e  mais  prisio- 
neiros. Como  o  inimigo  voltasse  a  campo, 
em  maior  número ,  condusido  pelo  Chefe 
Rivera ,  foi  o  mesmo  General  Pinto  recebel-o 
no  lugár  da  Índia  Mor  la,  onde  se  travou 
porfiada  acç?o  ,  ficando  a  final  a  Victoria  aos 
Portuguezes,  com  perda  de  sós  34  guerreiros, 
em  troco  de  160  inimigos.  Foi  o  General  Le- 
cor ,  depois  acampar  em  Maldonado ,  d'onde 
marchou  sobre  Montevideo,  tendo  previa- 
mente combinado  os  seus  movimentos  com 
os  da  pequena  Esquadra  corn mandada  pelo 
Conde  de  Viãnna.  Hum  a  deputação  do  Cavildo 
o  veio  receber,  entregando-lhe  as  chaves  da 
7  Praça,  onde  entrou  tríuinplianíe;  havendo-a 
já  a  esle  tempo  evacuado  o  Chefe  D.  Manuel 
Barreros,  delegado  de  Artigas ,  fugindo  pre- 
cipitadamente com  a  guarnição.  D'aquí  man- 
dou o  General  em  Chefe  5  a  Manuel  Jorge 


igg 

Rodrigues,  com  i  Batalhões  occnpár  a  Coló- 
nia do  Sacramento,  revolucionada  a  favor 
dos  nossos,  pe  lo  Portuguez  Fasqiies)  e  huina 
Brigada  a  senhoreai -se  do  Serro  Largo. 

Tacs  forao  os  principaes  feitos  do  Exército 
naaberlura  tia  campanha  do  Sul.  A  (ninada 
de  Montevideo,  Colónia,  é  Maldonado,  alem 
de  sei"  hum  bi  ilhante  começo  de  operações  , 
muito  cÒncòrreo  â  princípio  para  oHiminui- 
mento  dos  numerosos  Piratas  que,  com  ban- 
deira de  Artigas 3  infestavão  os  mares,  por 
ficarem  assim  privados  dos  principaes  portos 
onde  se  arma  vão  ,  c  recclJiiâo, 

Revolução  em  Pernambuco.  —  Cnznmmto  elo  Príncipe 
Real.  —  Àcelamação  d'El  Pey  D.  Jo^o  \I.  —  Segundo 
período  da  campanha  do  bui. 

Em  quanto  as  armas  do  Príncipe  Rebente 
tr  umphavuo  na  parte  meridional  do  Brasil, 
se  forjava  em  Pernambuco  huma  conspirae  o 


enraizada  na  Europa  ,  cm  que  en travão  pes- 
soas influentes  de  iodas  as  classes,  com  o  fito 
de  piomover  a  mudança  politica  ,  que 
teve  depois  lugâr.  0  conjurado  Jozé  de 
Barros  Lima,  por  alcunha  Leão  Coroado, 
officialde  Artilheria,  sendo  reprehendido  pelo 
General  Manuel  Joaquim  Barboza  de  Castro, 
julgou-se  traindo,  e  arrancando  da  espada  o 
assassinou  ^  pondo  logo  os  soldados  em  deci- 
dida rebelliâo  \  acodio  hum  delegado  do  Go- 
vernador ,  o  Coronel  Alexandre  T/wmaz^  que 
igualmente  expirou  aos  tiros  dos  revoltados; 
entre  tanto,  o  Chefe  da  insurreição,  Domin- 
gos Jozé  Martinz,  congrega  os  conspirados; 
amulina  o  Povo  ,  e  a  demais  Tropa,  fazendo 
scár  hum  rebate  geral;  calca  aos  pe's  a  ban- 
deira nacional  ;  proclama-se  independente 
1817  do  Príncipe  Piegente  ,  e  institue  hum  Go- 
verno Provisório  composto  delíe,  e  5  dos 
r/iais  sanhudos  revolucionários,  em  despeito 
das  fracas  providencias  do  Governador  Caetã" 
no  Pinto  de  Miranda,  Montenegro ,  que  corre 


J9* 

a  encerrar-se  no  Foi  te  do  Brum  ,  onv  c  foi 
logo  posto  em  sitio,  e  obrigado  a  capitulár, 
e  recolher-se  á  Corte  ,  trasendo  tSo  infausta 
nova. 

Em  quanto  os  insurgentes,  contando  com 
a  adhesão  de  ou  tias  Capitanias,  vacila  vão  na 
escolha  da  constituição  que  deviâo  adoptar  , 
para  tirmarem  seus  mal  baseados  planos,  o 
Conde  dos  Arcos  ,  Governador  da  Bahia  ,  ins- 
truido  da  explosão,  que  havia  rebentado  no 
Recife,  e  começava  a  lavrar  por  longe,  faz  mar- 
char toda  a  sua  Tropa  sobre  Pernambuco, 
commani!ada  pela  General  Joaquim  de  Melo 
Leite  Cogominliode  Lacerda,  e  ao  mesmo  tempo 
liuma  Esquadrilha  entregue  a  Rufino  Peres 
Baptista,  punha  rigoroso  sitio  ao  porto  do 
Recife. 

Do  Rio  de  Janeiro  se  expede  incontinente 
huma  Esquadra  ao  cominando  do  Chefe  Ro- 
drigo Jozé  Ferreira  Lobo,  para  augmentár  o 


bloqueio,  e,  pouco  depois,  outra,  transpor-* 
tando  huma  vistosa  Divisão,  preparada  com 
rapidez ^  e  commandada  peio  General  Luiz 
do  Rego  Barreio,  nomeado  Governador  de 
Pernambuco. 

A  este  tempo  se  aproxima  vâ  o  j  \  as  Tropas 
da  Bahia  *,  e  Martinz ,  deixando  a  cadeira  eu- 
riál  a  Domingos  Tkeotonio  Jorge,  sahio  a 
campo  para  debellár  es  do  General  Lacada', 
porem  ,  não  obstante  faltarem  a  estes  as 
precisas  munições  de  guerra,  forao  ven- 
cidos e  postes  em  fuga  os  revoltados,  nos 
campos  dlpojuea;  embrenbandp*se  huns ,■ 
outros  sendo  Jogo  presos,  e  remetlidos  para 
a  Ca  pi  lá  l  de  Pernambuco,  e  para  a  Bahia; 
e  com  estís  Martinz,  cabeça  da  insurreição. 
Instruídos  os  do  Provisoiio,  do  mio  êxito 
da  peleja,  e  succuinbindo  ao  aperto  do  blo- 
queio, dissolver.lo-sc ,  e  entregarão  o  Governo 
ao  Çhefe  Iferr eira  Lobo, 


>9^ 

Cbégándo  o  General  Rego  á  Bahia ,  e  sa- 
be" rn!  o  da  dissipação  da  revolta,  seguio  paia 
Pernambuco,  ònde  tomou  posse  do  Governo. 
Huma   Commis>ão  Militar  instalada  nYsta 
Capitania,  e  ou  Ira  na  Bahia,  julgarão  os 
rcos.  Domingos  Jozê  Martini ,  e  11  outros, 
perderão  ávida;  muitos  sofrerão  degredo,  1317 
e  os  demais  complicados  forno  absolvidos 
por  hum  decreto  do  Príncipe  Regente.  A  paz 
se  restabelcceo  em  Pernambuco,  depois  de 
mallogrado  este  immaturo  plano  de  libertado, 
cuja  execução  rompeu  |>or  d;  is  assassínios  do- 
brad  mente  crimino  os.  Esta  Capitania  apre- 
sentou ern  pouco,  o  mais  brilhante  aspreto 
mililár  cftie  se  tenha  visto  em  nenhuma  das 
do  Brasil. 

Em  contraste  com  as  scenas  do  Norte,  se 
celebravão  na  Corte  os  desposórios  do  Prin- 
cipeRealD.  Pedi  o  d'A:cantara  ,  com  a  Archi- 
duqueza  cPAustria  D.  Maria  Leopoldina  Jo- 
zefa  Carolina;  e  o  Principe  Regente  D.  ^817 

20 


*94 

í§\8  João,  subia  ao  primeiro  sólio  da  America, 
vago  pela  morte  da  Rainha  D.  Maria  I. 

A  funesta  lição  que  o  Governo  acabava 
de  receber  no  movimento  revolucionário 
de  Pernambuco,  foi  todavia  mal  pezada  na 
Capital.  El  Rey  D.  João  VI,  que  melhor 
conhecia  o  damnOj  do  que  bera  capaz  de 
appliear-Uie  as  rigorosas  medidas,  a  que  se 
oppunha  seu  caracter  plácido  e  hemfazente, 
contenloiwe  com  mandar  vir  de  Portugal 
buma  porção  de  Tropas  regulares,  que  se 
repartirão  pelo  Rio  de  Janeiro,  Bahia,  e 
Pernambuco,  deixando  a  interna  adminis- 
tração,, na  sua  quasi  absoluta  decadência; 
tudo  permanecia  na  mornidlo  que  costuma 
presagiár  os  grandes  successos  políticos. 

Còntimiavao  a  vagar  ousados  nos  cam-' 
pos  de  Mentevideo,  c  margens  do  Uraguay, 
as  guerrilhas  de  D.  Jose  A  rti gas ,  mais  con- 
fiadas na  ligeuesa  de  seus  cavaílos,  e  na 


"95 

summn  destresa  com  que  mancjav^o  o  laço  e 
Lolas,  do  que  na  disciplina  militar,  e  conli- 
nuavão  sempre  os  nossos  a  rcpillil-o£.  O 
General  Bernardo  da  Silveira  Pinto ,  enviou 
45o  homens  surprender  algumas  partidas 
postadas  no  silio  do  Figueredo ,  o  que  con- 
seguido pela  boa  direcção  de  Caetano  rílberio 
df  Souza  Canavarro ,  repassando  este  o  arroio 
do  Pando,  veio  cahír  sobie  o  ílanco  direito 
de  huma  grande  columna  inimiga,  e  a  dis-  3 1 3 
persou. 

0  General  Francisco  das  Chagas  S  mtos , 
em  Missões,  eo:n  700  homens  ataça  (;oo  ini- 
migos, no  lugar  de  S.  Cai  los*  os  Insurgen- 
tes  se  entrincheirão  no  Collegio,  e  pelas 
ja  11  cl  las  e  abertas  da  Igreja  fazem  aetivissimd 
fo^o  -,  mas  o  General  manda  cercar  em  roda 
o  Povoado  pela  Cavai laria-  e  ^.00  infantes  de 
S.  Catharina,  subindo  ao  alto  das  cazas,  fí- 
zerâo  e  m  successivo  tiroteio  suecumbír  es 
contrários,  que  deixarão,  alJm  cie  muitas 


iqô 

petrechos  e  munições,  90   mortos,  e  384 
prisioneiros ,  perecendo  íi  elos  nossos,  e  fi- 
cando prisioneiros  34.  Retirou-se  o  inimigo 
ao  Povoado  da  Purificação,  onde,  perseguido 
pelo  General  Curado ,  lhe  abandonou  a  po- 
sição, e  marchou  a  acampar  jnnlo  ao  ar- 
roio de  Gnahejú.  Aqui,  o   General  Mata 
Barreio  o  foi  acommetíer  com  io3o  homens*, 
e  ,  aproveitando  com  o  maior  acerto  todos  os 
favoráveis  accidenles  do  terreno,  e  distri- 
buindo as  suas  Tropas  de  todas  as  Armas, 
com  rara  habilidade,  caminhou  para  o  ini- 
migo ,  e  o  pôs  em  fuga  depois  de  curta  batalha, 
deixando  no  campo  o  Chefe  Aron  la  1 33  mor- 
tos, e  2"jo  prisioneiros,  além  de  outros,  que  ac- 
cossados  pelos  nossos  lanceiros,  <e  precipitai  âo 
no  lago.  Todo  o  armamento,  e  600  cavallos, 
ficarão  ao  General  Mena  Barreio.  Esta  bri- 
jg  lhante  victoria  he  assistida  da  pasmosa  cir- 
cunstancia, de  só  ter  custaio  a  vida  a  hum 
único  soldado  nosso. 


197 

Escandalisado  o  inimigo,  das  muitas  per- 
das que  em  seus  irregulares  cornija tes  tinha 
sempre  experimentado  contra  os  nossos*,  aban- 
donado da  esperança,  não  só  de  assim  poder 
ainda  regauhár  os  principaes   pontos  for- 
tificados, mas  de  conservar  o  terreno  que 
occupava  ,  projectou  dár  Luma  batalha  em 
ordem  com    toda  a  sua  força para  isto  , 
reunio  na  margem  do  Uraguay  as  Tropas  dos 
Chefes  Aguidr,  Aedo ,  e  Ramires ,  que  mon- 
ta\âo  a  800  homens,  e  pertendia  marchar  a 
encontrar-se  com  as  forcas  de  Ar  ligas ,  a  quem 
já  se  havia  juntado  a  gente  de  Rivera.  Ins- 
truído efisto  o  General  Curado  ,  mandou 
Bento  Manuel  Ribeiro,  com  56o  homens , 
atacar  este  reforço.  O  inimigo  dividio-se  cm 
duas  columnas,  ameaçando  os  flancos  dos 
nossos  j  porém  o  Commandante  Portuguez  r 
ca h indo  sobre  huma  ,  a  desbaratou  ,  e  a  ou- 
tra tomou  a  fuga.  Foi  notável  o  valor  que 
nVsta  acção  desenvolverão  os  oííiciaes.,  Jozé 
Luiz  ftUna  R atrelo,  e  Jozé  Cardoso  de  Souza  5 


195 

rívalisando  com  ?eu  valente  Capit~o.  Oâ 
Chefes  Jguidr,  e  Acéo,  u  33o  dos  seus,  se  reffe- 
18  trerão  pHsioBtiçot. 

Muito  honrosa  mcnsão  aqui  merecem  o% 
serviços  prestados  pela-  Esquadrilha  de  5  va- 
sos, com  ma  ndada  por-  Jacinto  Roque  de  Sena 
Pereira ,  que  tendo  cons<  guido  penetiár  e 
sul)ír  o  rio  Uraguay,  a  brio  communicoe~o 
coín  as  Tropas  de  Curado ,  cortando  a  da  van- 
guarda de  Artigas ,  com  seus  depósitos*  NVsta 
última  acç*o  ,  a  Esquadrilha,  depois  deter 
ofíerecido  transporte  aos  de />.  M.  Ribeiro , 
com  admirável  rapidez,  aprisionou  no  espaço 
de  5  dias  ,  1 9  embarcações  inimigas. 

Ao  mesmo  tempo,  Antero  Jozé  Ferreira  dê 
Brito,  Commandante  do  Posto  de  Castilhos  , 
surprende  as  partidas  de  La  Torre  ,  e  Pa  nxo, 
8  e  aprisiona  estes  Chefes. 

Da  Divisão  do  Barão  da  Laguna,  foi  © 


m 

General  Jorge  de  Acilez  Zuzatte,  bater  o 
inimigo  noPasso d' Arenas  ,  em  quanto  da  eo- 
lumna  de  Curado,  sahia  de  novo  B  M.  /ií- 
beiro  com  600  homens ,  a  atacar  o  Chefe 
Rivera,  que  se  liavia  transportado  ao  Airoio 
Grande,  sahindo  dVstas  pelejas  os  nossos,  co- 
mo as  mais  das  vezes?  victoriosos  :,  3jo  inimi- 
gos  suecumbirâo.  1819 

Conseguindo  Artigas^  alguns  mezes  depois 
juntar  2,000  homens,  tenum  traser  até  ao 
nosso  território  a  vingança  de  tão  repetidas 
desfeitas;  e  avançando  ás  fronteiras,  veio  fa- 
zer gerál  saque  e  destroço.  O  General  Abrea 
se  lhe  oppos  com  4°^>  homens,  para  proteger 
a  retirada  dos  fazendeiros',  porém,  atacado 
com  vigor  pelo  inimigo,  foi  cortado*,  e  cons- 
trangido a  retirar-sc  em  debandada  ao  Passo  1S19 
do  Rosario,  deixando  5o  mortos ,  e  60  pri- 
sioneiros* Pieunindo-se-llie  aqui  o  General 
Benlo  Correa  da  Camara,  marcharão  juntos 
ao  encontro  dos  de  Artigas ,  c,  depois  de 


200 

trez  acções  parceaes,  lendo  na  principal, 
que  foi  no  Passo  do  Ibicuy,  sofrido  o  ini- 
migo a  perda  de  6o  soldados.,  foi  ao  fazer 
face  a  toda  a  força  contraria ,  que  sob  a  di- 
recçc.o  do  Chefe  La  Torre,  acampava  na 
margem  esquerda  do  Taquarembó.  O  Gene- 
ral Conde  da  Figueira,  que  a  este  tempo  tnha 
vindo  tomar  o  cominando  dos  nossos,  man- 
dou o  General  Ahreo  com  a  sua  Brigada  aía- 
cár  de  frente  o  inimigo,  em  quanto  o  Gene- 
ral Camara,  passando  bum  ramo  de  Taqua- 
rembó, lhe  ameaçava  o  flanco;  o  primeiro 
arrostou  com  tal  impetuosidade  que,  forçan- 
do primeiro  La  Torre  a  perder  terreno,  e 
tomar  segunda  posição,  defendida  pelo  rio , 
o  compeli io  a  fonál,  não  obstante  a  forte 
Artiiheria  adversa ,  por  meio  de  bum  fogo 
continuo,  e  bem  condusido,  a  retirar- se  em 
desordem,  abandonando  ,  alem  de  numerosos 
petrechos  de  guerra,  e  muita  munição,  800 
mortos  ,  incluido  o  Chefe  Solelío,  e  49°  pri- 
sioneiros, perdendo  nós  somente  36  homens. 


201 

Depois  (Testa  gloriosa  victoria,  o  Conde  det 
Figueira  ,  mandando  varrer  o  resto  da  cam- 
panha até  ao  Uraguay,  estabelecco  postos 
avançados  ao  longo  a  este  rio  ,  e  do  Arapay ; 
os  quacs,  combinados  com  a  Esquadrilha, 
derão  huma  tran qni  11  idade ,  bem  que  tran- 
sitória, ás  nossas  fronteiras,  que,  por  tempos 
depois,  só  forâo  ameaçadas  por  pequenas  par- 
tidas inimigas. 

Este  segundo  período  da  guerra  do  Sul , 
como  o  primeiro,  mostra  a  vantagem  em  que 
os  nossos  quasi  sempre  se  mantiverâo,  o*u  ba- 
tendo os  msurgèntes.,  quando  clles  ousavão 
apresentarem-se,  ou  obrigando-os  a  fugirem, 
para  nlio  eombalerem.  Com  tudo,  os  Piratas 
Artiguenhos,    encontrando  na  desleal  ma- 
lícia ingleza,  protecção  e  abrigo,  coalhavão 
cs  mares,  e  nos  iiiterceptavão  a  navegação 
costeira.  Mais  sofríamos  nós  vencedores,  do 
que  os  contrários  vencidos. 


26 


202 


Noya  Constituição  Politica.  —  Reunião  eleitoral  no  Rio  de 
Janeiro.  —  Regresso  cTEl  Rey  D.  João  VI.  —  O  Principe 
Real  D.  Pedro  fica  Regente  do  Brasih 

Se  a  infância  das  Nações  se  prolonga  pela 
falta  de  movimento  social,  o  excesso  d'este 
movimento  as  decompõe;  a  Historia  da  Mo- 
narchia  porto gueza  dá  óbvio  exemplo  desta 
verdade. 

Portugal ,  sendo  hum  peejueno  Estado , 
estendeo  o  seu  dominio  sobre  mais  vasto  uni- 
verso, do  que  aquelleque  outrliora  fez  appel- 
lidar  os  Romanos  Reis  do  mundo ;  porém, 
estes  fortificavao-se  ao  passo  que  sealargavao, 
pela  incorporação  dos  Povos  vencidos,  o  que 
Portugal  não  podia  fazer,  por  que  a  menor 
das  difficnldades  seria  o  longo  aífastamenío 
das  terras  conquistadas.  Os  Romanos  forão 
os  mais  tolerantes  dos  conquistadores  \  Lerão 
polylheistas,  e,  por  toda  a  parfe  encontrando 


20  3 

polytheismo  ,  só  impunhão  leis  civis*,  os  Po- 
vos cliristãos  que  engrandecerão  pela  força 
das  armas,  não  offerecerão  hum  pantheon 
aos  Deoses  estrangeiros:  vencerão,  mas  não 
conservarão.  Assim,  Portugal  não  pôde  ser- 
vir-se  de  Povos  contra  outros  Povos  \  durante 
mais  de  hum  século  precisou  recrutar,  de 
annos  a  annos  em  novas  gerações  ,  para  sus- 
tentar as  conquistas  por  combates  successivos: 
eis  a  primeira  causa  de  sua  decadência. 

A  segunda  está  na  repelida  expulsão  das 
raças  moura?,  e  judias  ,  que  formavãoa  parte 
essencialmente  agrícola  e  industriosa  da  Na- 
ção, 

A  terceira  se  encontra  no  resultado  da  falsa 
prosperidade  proveniente  das  riquesas  orien- 
tacs,  e  das  minas  d' America.  O  ouro  fugia  , 
e  o  abandono  phisico  e  morál.,  o  horror  ao 
trabalho,  gerados  pela  sua  possessão,  íicavão 
incuráveis  *,  desaparecia  o  ouro,  e  a  industria. 


20  4 

filb.a  da  poferesa  ■  se  nascia  ,  não  vingava  •  de 
lodos  os  lados  aírluião  cobiçosos  alliados  ,  pre- 
nhes do  producto  de  seus  apurados  trabalhos. 

A  quarta  causa,  finalmente,  da  decadência 
portugueza ,  e  amais  radical  ,  se  reconhece 
na  superstição  e  monaquismo.  0  progresso 
das  artes  manuaes  hé  sempre  proporcional 
ao  das  sciencias  inlellectuaes  j  e  como  pode- 
iiao  estas  florecer  á  face  da  inquisição? 

O  Marquez  de  Pombal ,  pertendeo  ,  como 
vimos ,  reedificar  o  gôthico  mon u  mento  d'esta 
illustre  sociedade  ;  porém  ,  se  para  isto  abun- 
dava em  forças,  faltou-lhe  o  tempo;  depois 
d'elle  ,  a  derradeira  recahida  foi  fatal  \  a  roá- 
china  politica  se  achava  já  desmontada  pelos 
choques  de  tantas  transições  súbitas  de  hum  a 
a  outra  existência,,  e  a  Inglaterra  saltou  de 
novo  sobre  a  moribunda  Lusitânia. 

Se  aos  ponderados  motivos  da  desgraça  d© 


205 

Portugal,  se  junta  o  abandono  em  que  o  dei- 
xara o  Governo,  redusindo  para  sempre  huni 
velho  Reino  da  encanecida  Europa,  hum 
Reino  fundador  d'Estados,  a  desdenhado' vas- 
salo de  hum  paiz  remoto,  se  verá  quanta  ne- 
cessidade de  completa  regeneração  sentiria  o 
natural  orgulho  portuguez,  no  momento  em 
que  soou  na  Hespanha  a  voz  da  liberdade, 
e  com  quanta  electricidade  revolucionaria  ?e 
devia  ali  cotamunicàr  o  nobre  movimento 
de  seus  visinhos. 

A  guarnição  militar  da  Cidade  do  Porto  íleo 
o  exemplo,  proclamando  a  convocação  de  aiím  \  g0() 
Congresso  nocionál,  no  qual  se  reconheces- 
sem como  prineipaes  bases  da  deforma',  a  Reli- 
gião dominante,  e  El  Rey  D.  João  Ví,  com  sua 
Real  Dynastia;  lodo  o  Portugal  repeti  o  logo 
unissone  :  Constituição  \  e  este  mágico  son, 
transpondo  o  immenso  Oceano,  sem  nada 
perder  do  seu  vigor  ,  veio  repercutir  nas  ma* 


2QÚ 

gestosas  plagas  brasileiras,  apczâr  da  mm* 
tenciado  Monarcha,  habilmente  capeada  pelo 
Ministro  influente  Tlwmaz  Antonio  de  Villa 
Nova  Portugal. 

0  Pará  foi  primeiro  em  erguer  a  voz  re- 
1821  volucionaria,  depondo  o  Governador  Conde 
de  Villa  Flor ,  e  substitui  ndo-lhe  huma  Junta 
Provisória.  Domingos  Simões  da  Cunha ,  hum 
dos  que  mais  cfFicaz  mente  tinha  cooperado 
na  revolta ,  foi  levár  congratulação  ás  Cortes 
Constituintes,  já  instaladas  em  Lisboa. 

Na  Bahia,  Jozc  Pedro  de  Freitas  Guimarães y 
1821  amutinandoa  Tropa,  á  frente  d'ella  rompeo 
no  grito  constitucional ;  e  como  Hermógenes- 
Francisco  de  Agtáldr,  se  lhe  opposesse  com 
alguns  soldados  por  parte  do  Governo  ,  man- 
dou contra  cile  disparár  hum  tiro  de  mi  tra- 
lha ,  e  o  assassinou,  matando,  e  ferindo  ou- 
tros. Instaiou-se  huma  Junta  Governativa 


207 

com  só  obediência  ás  Cortes,  cuja  presidência 
foi  recusada  pelo  Governador  Conde  de  pal- 
ma. 

L.  do  Rego  Barreto*  Governador  de  Per- 
nambuco ,  instruído  do  humor  revolucionário 
de  que  estava  possuída  aquella  Capitania, 
quiz  transigir  com  a  quasi  geral  opinião  , 
e  se  declarou  adhercnte  a  Portugal,  por  iiu-  1821 
ma  proclamação  cm  que ,  n^o  obstante  seu 
brio  militar,  timoratas  malignamente  attri- 
buía  todos  os  vícios  que  se  podessem  nolár  no 
seu  Governo ,  ao  abuso  de  a uthor idades  secun- 
dárias. 

Chegando  á  Capital  a  nova  do  rompi- 
mento na  Bahia,  o  General  Jorge  de  Avilez 
Zuzarte,  Commandante  das  Tropas  poriu- 
guezas  aqui  estacionadas,  passando  secretos 
avizos  a  diíFerentes  oíliciaes  dos  Corpos,  foi 
formár  a  guarnição  no  largo  do  Rocio ,  no 
intuito  de  ali  proclamár  a  nova  Ordem  Poli- 


3o8 

tica.  O  Príncipe  D.  Pedro,  porem,  que  ,  por 
activíssima  vigilância  linha  alcançado  prévio 
conhecimento   cias   manobras  do  General  e 
seus  sócios,  solícito  em  garantir  o  Estado 
e  El  Rey  seu  Pay  ,  de  qualquer  terrível  con- 
ílicto,  veio  aparecer  á  frente  das  Tropas, 
e,  tomando  a  iniciativa,  subi  o  á  varanda 
exterior  do  Theátro  de  S.   João,  e  ali  leo 
hum  decreto,  pelo  qual  El  Rey  D.  João 
VI  aprovava  a  Constituição  da  Monarchia , 
tal  como  a  fizessem  as  Cortes  em  Lisboa  •  e 
1  82 1  h>go  prestando  juramento,  em  nome  d7 El  Rey, 
e  cm  seu  nome ,  o  fez  repetir  por  todas  as 
personagens  ali  chamadas  ,  e  pela  Tropa  ; 
publicando  depois  o  novo  Ministério  nomeado 
por  El  Rey.  Assim  se  concluío  pacificamente 
este  magestoso  acto,  ao  son  de  geraes  e  sin- 
ceros  vivas,  redobrados  ainda  com  a  pre- 
sença do  Monarcha,  algumas  horas  depois. 

Resolvendo  El  Puy  inopinadamente  partir 
para  a  antiga  Metrópolí,  mandou  convocar 
hum  Congresso  dos  Eleitores  de  Parróchia5 


209 

debaixo  da  presidencial  do  Magistrado  Joa- 
{fuimJozê  de  Queiroz,  para  ali  elegerem  os 
Eleitores  de  '  Comarca,  que  devião  escolher 
os  Deputados;  c  ao  mesmo  tempo  lhe  mos- 
trava o  modo  de  governança  que  ficava  no 
Brasil,  concedendo  a  esta  Junta  oppôr  a  tu- 
do suas  observações. 

Reunidos  os  Eleitores,  e  numeroso  povo  , 
quasi  todo  occultamente  armado ,  no  edifício 
da  Praça  do  Commercio;  mal  acabou  o  Pre- 
sidente a  leitura  do  Aviso  de  convocação, 
quando  rompeo  o  auditório  em  súbito  alai  ido, 
receitando  todos  os  meios  propostos,  e  cla- 
mando que  a  Constituição  hespanhola  fosse 
logo  provisoriamente  adoptada.  Altcrrados 
os  do  Collegio,  consentirão  que  huma  Depu- 
tação fosse  a  El  Rey,  expor-llie  a  requisição, 
á  qual  o  Monareha  timidamente  assentio,de- 
clarando-o  por  decreto.  Por  outra  parte,  or- 
denava a  Junta,  queas  Fortalezas  da  barra  n"o 
deixassem  sahir  El  Rey.  Palavras  menos  de- 

37 


210 

corosas  á  authoi  idade  Real  abundavao  nas 
Locas  de  muitos  dos  circunstantes,  exacerba- 
dos com  a  baldada  intimação  do  Governo  ao 
Presidente  para  levantar  a  sessão.  Finalmente, 
a  noite  se  tinha  passado  na  maior  confusão  e 
delírio  n'este  tumultuoso  Tribunal,  quando 
d  improviso  hc  o  edifício  cercado  por  hum  cor- 
po de  Tropas,  que,  começando  por  atirar 
sobre  os  do  Povo  que  resistirão  armados,  aca- 
1821  bou  com  horrível  matança  nos  Cidadãos  que 
estavao  no  recinto.  Avalia- se  em  6  mortos, 
e  25  feridos,  o  número  das  víctimas  de  tão 
bárbara  medida.  Justo  e  gcrál  ressentimento 
causou  tal  violência  na  Capilál. 

Concluídos  os  preparativos  da  Esquadra  , 
<j$21  H  Rey  seguio  viagem  para  Portugal,  tendo 
antes  revogado  o  decreto  de  adopção  da  Cons- 
tituição liespanhola  ;  deixando  no  Brasil  o 
Príncipe  Real  D.  Pedro,  como  Regente  do 
Reino,  e  nelle  seu  Lugár-Tenente,  com  am- 
plos poderes. 


/ 


211 


SEXTA  ÉPOCA. 


©  Ôraeil  Jmpn-ia  Constitucional  3nirrpfn- 


Entre  os  espectáculos  que  mais  enlevão  na 
Historia  das  Nações,  se  distinguirá  sempre  a 
Independência  do  Brasil.  A  heróica  revolu- 
ção dVsta  a  mais  preciosa  porção  da  America, 
conseguindo  a  regeneração  de  hum  Povo  ar- 
dente e  nobre,  curvado  por  3  longos  séculos 


212 

ao  duro  rigor  colonial,  apresenta  a  singular 
circunstancia  de  ter  por  Chefe  aquelle  mes- 
mo Príncipe,  a  quem  por  direito  indisputável, 
tinha  de  primeiro  caber  a  Coroa  do  Tríplice 
Império.  Tal  foi  o  dote,  que  só  ao  selecto 
Brasil  concedeo  a  Providencia,  nas  austraes 
rigiôes  do  Novo  Mundo,  para  o  subtrair  á 
deplorável  sorte  de  seus  míseros  visinhos. 

Começou  o  Príncipe  D.  Pedro  a  Regência 
do  Brasil,  por  assign alados  actos  de  pura 
constitucionalidade,  promulgando  salutares 
decretos,  e  acudindo  com  pessoal  vigilância 
á  pública  administração. 

Todavia,  as  Cortes  de  Lisboa,,  na  ausência 
dos  Deputados  Brasileiros,  lançava*.»  os  fun- 
damentos de  iuima  Constituição,  que  parecia 
©ílVnder  os  direitos  do  Reino  limão.  O  en- 
thusiasmò  pela  Melr  poíi  parai vsou  de  sú- 
bito; e,  em  breve,  a  creaçâo  de  Juntas  Go- 
vernativas em  todas  as  Províncias  do  Brasil, 


2l3 

com  directa  responsabilidade  á  Corte,  se- 
guida da  ordem  a  D.  Pedro  para  hir  instruir-» 
se  viajando  pela  Europa ,  acabou  cie  exaeer^ 
bar  os  Brasileiros,  mormente  aqiteli.es  que 
não  cahirão  no  verdadeiro  fito  do  Congresso. 

O  Príncipe  Regente,  desobedeci  do  nas  Pro- 
víncias do  Norte,  e  rednsido  aos  curtos  ren- 
dimentos da  Capital,  resolveo  cumprir  a 
determinação  das  Côi  tes  ,  e  regressar  a  Lis- 
boa. 

Em  quanto  tudo  se  dispunha  para  a  sabida 
do  Príncipe  D.  Pedro,  pelo  Sol  do  Brasil 
se  manifestava  decidida  opposiçao  ás  ordens 
de  Portugal.  No  Rio  de  Janeiío,  Joze  Joa~ 
quim  da  Rocha  dava  impulso  a  bum  reque- 
rimento do  Povo  á  Camara  Municipal,  a  íim 
de  (pie  esta  pedisse  ao  Pi incipe  para  sobrestar 
a  sua  partida  ;  e  o  corpo  do  commercio  adop- 
tava o  mesmo  expediente 5  mas,  antes  de  le- 
gadas a  eííeilo  estas  medidas,  apareceu  na 


3  I  4 

Capital  huma  enérgica  reprezen  tacão  cio  Go- 
verno de  S.  Paulo,  agenciada  por  Jozé  Bo- 
nifacio de  Andrada  e  Silva ,  por  concessão  do 
Presidente  João  Carlos  Augusto  de  Orynhau- 
$W,  contra  as  disposições  do  Congresso;  a 
qual ,  sendo  precedida  de  dois  dias,  por  pro- 
testo em  iguál  sentido,  com  posterior  data, 
obtido  pelo  P.  Manuel  Rodrigues  da  Costa , 
e  pelo  emissário  da  Corte  Paulo  Barboza  da 
Silva,  da  Municipalidade  da  Villa  de  Barbace- 
na, emMinas  Geraes,  para  onde  havia  eseripto 
J.  B.  de  Andrada ,  determinou  o  Regente  a 
responder  ao  Presidente  da  Camara  da  Ca- 
pital ,  Jozé  Clemente  Pereira,  que  lhe  apre- 
zentou  a  petição  fluminense,  com  estas  me- 
moráveis palavras  :  Como  hè  para  o  bem  de 
todos ,  e  felicidade  gerdl  da  Nação ,  estou 
2  promplo :  diga  ao  Povo  que  fico  \  e  chegando 
á  varanda  do  Paço,  disse:  Agora  só  tenho  a 
recommendar-vos :  União  e  tranquillidade. 


Sobremodo  contentou  a  Capital  esta  Real 


2l5 

resolução  \  porém,  o  General  Jorge  de  Âvllez 
Zuzarte ,  zelozo  defensor  dos  direitos  do  Con- 
gresso ,  quiz-se  oppôr  á  transgressão  das  suas 
ordens,  e  obrigar  o  Príncipe  a  cumpril- as }  che- 
gando a  apoderar-se  com  a  Divisão  lusitana, 
do  morro  do  Castelo,  que  domina  o  recinto  da 
Cidade,  sob  pretexto  de  se  defender  contra 
atraiçoados  ataques  da  milícia  do  paiz;  mas, 
á  vista  das  promptas  e  violentas  providencias 
do  Regente,  pedio  passar  ao  outro  lado  da 
bahia,  donde  regressou  com  os  seus  a  Por  tu-  1822 
gal. 

0  Governo  de  Minas  Geraes,  que  tinha 
sido  instalado,  debaixo  da  presidência  do 
Governador  D.  Manuel  de  Portugal  eCastro, 
por  hum  partido  das  Cortes  ,  em  que  princi- 
palmente tiguravâo  Jozé  Maria  Pinto  Peixoto^ 
e  Cassiano  S per idi tio  de  Melo  e  Matos,  negava 
sujeição  ao  Rio  de  Janeiro*,  porém  o  Prínci- 
pe, em  rápida  viagem  áquella  Província, 


ii6 

1  £22  conciliou  as  facções  ,  e  as  fez  entrar  na  obe- 
diência. 

De  volta  á  Capital,  aceitou  o  Regente  o 
Cargo  e  Titulo  de  Defensor  Perpetuo  rio  Brasil, 
que  lhe  foi  ofFereeido  pela  Camara,  a  requi* 
1822  sição  do  Povo  e  Tropa* 

Na  Província  de  S.  Paulo  se  haviâo  des- 
pei  tado  antigos  ódios  de  famílias  influentes, 
e  liuma  luta  começava  entre  diversos  compe- 
tidores ao  com  mando  das  Tropas ;  a  Junta  do 
Governo  participava  das  desavenças,  dei- 
xando a  recear  maiores  comnrsoções.  NVstas 
circunstancias,  o  Regente,  transportando -se 
ali,  conseguio  com  sua  prezença ,  e  com 
1822  adequadas  providencias  ,  apkxár  os  ânimos* 

Vindo  o  Príncipe  D.  Pedro  nos  Campos 
de  Piranga,  com  grande  séquito  militár, 
recebeo    novos  decretos  das  Cortes ,  nos 


i 


2*1 

quaes  se  dava  por  nullos  e  irritos  todos  os 
actos  do  Governo  do  Brasil,  praticados  a 
pedido  dos  Povos e  que  declara  vão  crimi- 
nosa a  Junta  de  S.  Paulo.  Taes  decisões, 
produsindo  geiál  indignação  ,  fornecerão 
benigno  ensejo  á  execução  dos  traçados  pla- 
nos*, as  circunstancias  urgido,  e  D.  Pedro 
levantou  o  grito:  Independência  ou  morte, 
geralmente  aplaudido.  i822 

7  &CL 

Chegando  ao  Rio  de  Janeiro  ,  foi  o  Príncipe 
Libertador ,  por  unanime  voto  ,  no  meio  do 
mais  fervoroso  entliusiasmo  acclamado  Zm- 
perador  Constitucional e  Defensor  Perpetuo  do 
Brasil.  iQ^"> 

Reunião  da  Assembtéà  Constituinte.  —  Movimentos  em  dif- 
ferentes  rrovincias.  —  Incorporação  de  Montevideo  ao 
Brasil. 


Já  a  este  tempo  se  retiravão  de  Portugal 
os  Deputados  Brasileiros,  e  se  procedia  a  no- 

28 


2iS 

vas  eleições  para  a  AsseínMea  Geral  Consti- 
tuinte e  Legislativa  do  Império,  mandadas 
fazer  por  anteriores  decretos  do  Príncipe  Re- 
gente ,  promulgados  pelo  preponderante  Mi- 
nistro Jozé  Bonifacio  de  Andrada  e Silva.  Con- 
cluídas as  eleições,  congregou -se  a  Âssembiéa. 

Entre  tanto,  nas  Províncias  do  Norte, 
partidos  dissidentes  embargavão  que  ali  vin- 
gasse a  frondosa  árvore  dos  Campos  de  Pi- 
ranga. 

Já  a  BaLia  havia  sido  o  theatro  de 
dolorosas  scenas,  promovidas  pela  rivalidade 
dos  partidos  dos  Generaes  Ignacio  Luiz  Ma- 
deira de  Melo ,  e  Manuel  Pedro  de  Freitas 
Guimarães,  ambos  aspirantes  ao  cominando 
das  Armas;  o  primeiro,  Chefe  do  destaca- 
mento lusitano,  hera  designado  por  El  Rey 
para  acjuelle  exercício,  ainda  que  sem  legál  ti- 
tulo, e  o  outro,  de  popular  nomeação,  se  havia 
n'elle  encartado  por  voto  da  Junta  Provisória. 


O  Governo  da  Província  tentou  evitár  pre- 
judie iaes  choques,  instalando  hum  Conselho 
Militar  para  commandár  as  Tropas*,  porém 
a  oííicialidade  lusitana  compeliio  o  General 
Madeira  a  não  ceder.  Grandes  perturbações 
succederão  a  esta  resolução;  Os  dois  partidos 
antagonistas  romperão  em  encarniçados  com- 
bates, que  todos  reverterão  em  calamitosas 
vexações  para  os  pacíficos  habitantes  *,  ficando 
a  final  Madeira  na  posse  da  authoridade 
militar. 

Baldadas  todas  as  providencias  da  Corte, 
para  que  de  bom  grado  evacuasse  o  General 
Lusilanoo  território  da  Bahia,  se  enviou  con- 
tra elle  huma  Divisão  entregue  ao  General 
Pedro  Labatut,  auxiliada  por  foiças  maríti- 
mas ao  co  mm  ando  do  Almirante  Lord  Co~ 
chrane.  Madeira  defendec-se  com  denodo  em 
repetidos  ataques.  Quem  conhecer  os  curtos 
recursos  que  ofíereceni  os  próximos  arredores 
da  Cidade  da  Bahia ,  fará  justa  idéa  da  des- 


esperada  situação  a  que  se  virão  redusidos 
os  habitantes  d'ella ,  durante  muitos  mezes. 
Sem  o  nobre  patriotismo  dos  Proprietários 
Joaquim  Ignacio  de  Siqueira  Bulcão,  e  An- 
tonio Joaquim  Pires  de  Carvalho  e  Albuquer- 
que,  depois,  respectivamente  remunerados 
com  os  Títulos  de  Barão  de  S.  Francisco >  e 
Visconde  da  Torre,  tudo  teria  talvez  succum- 
Lido  á  fome  e  á  miséria. 

Finalmente,  o  General  Madeira,  de  huma 
parte  fortemente  cerrado  pelas  Tropas  bra- 
sileiras, e  abandonado  da  Esquadra  portu- 
gueza  commandada  por  João  Felix  Pereira  de 
Campos  ,  que  fugia  de  travar  combate  com  o 
Almirante  Cochrane\  e  por  outra,  temeroso 
de  ofíender  as  delicadas  relações  que  existiâo 
entre  El  Rey  B.  João  VI,  e  seu  Filho,  vendo- 
se  forçado  a  deixar  a  Çahia  ,  firmou  capitu- 
lação com  Jozè  Joaquim  de  Lima  e  Silva  ,  em 
quem  recahira  o  cominando  dos  nossos;  pois 
que  d  elle  havia  sido  deposto  o  General  La- 


11 1 

balut ,  por  estranha  cabala  suscitada  no  Exer- 
cito pelo  Chefe  de  Brigada  Felisberto  Gomes 
Caldeira,  Só  depois  do  regresso  dos  Por- 
tugnezes,  se  unio  a  Bahia  francamente  á  Ca- 
pital. 1823 

A  Província  de  Pernambuco  aíFectava  obe- 
diência ao  Rio  de  Janeiro-,  porem  a  dominante 
facção  se  declarava  contra  todas  as  authoi  ida- 
des que  não  fossem  de  escolha  sua.  Depois 
de  horríveis  commoções,  e  de  terem  sucees- 
sivamente  sido  expulsos  os  Generas ,  Luiz  do 
Rego  Barreto,  Jozé  Maria  de  Moura,  Jozé 
Correa  de  Melo  ,  e  Joaquim  Jozé  de  Almeida, 
e  bem  assim  a  Brigada  lusitana,  ali  des- 
tacada ,  apareceo  Pedro  da  Silca  Pedrozo 
eleito  Commandante  das  Armas  da  Província. 
Este,  porém,  desconfiando  do  Governo,  seu 
coevo,  se  insurge  para  o  destruir,  e  o  obriga 
a  retirar-se  á  Villa  do  Cabo,  mas  forçado 
logo  a  ceder,  hé  preso,  e  remettido  para  a 
Corte.  1823 


222 

Restabelecida  a  paz,,  foi  jurada  a  Indepen- 
dência. Bernardo  Jozè  da  Gama ,  ora  Vis- 
conde de  Goyana ,  havia  anteriormente  pres- 
tado para  este  efíeito   notáveis  serviços. 

Alagoas,  Parahyba,  Rio  Grande  do  Norte, 
e  Ceará ,  imitarão  em  tudo  a  marcha  de  Per- 
nambuco. 

0  bravo  João  Jozè  da  Canha  Fidié ,  a  ro- 
gos e  instâncias  dos  Piauhyenses,  se  propôs 
a  sustentar  ali  o  systema  das  Cortes  portu- 
guezas.  De  acordo  com  o  Governo  do  Mara- 
nhão ^  pedio  soccorro  ao  Pará ,  que  lhe  enviou 
i5o  homens*,  porem,  o  Povo  cearense  em 
massa,  invadio  o  Piauhy,  capitaneado  por 
Jozè  Pereira  Filgueiras ,  e  á  força  de  mil  ex- 
1823  cessos,  ali  fez  jurar-se  a  Independência.  Fi- 
dié retirou-se  a  Caxias  com  hum  punhado 
de  soldados,  e  sustentou  valente  e  generosa 
defeza ,  até  que,  redusido  a  sós  90  defensores, 
fez  a  sua  brilhante  capitulação  do  morro  da 


22$ 

Taboca-,  e,  recusando  agradecido  os  empregos 
com  que  os  Brasileiros  lhe  querião  retribuir 
generosidade,  por  generosidade,  deixou  o  paiz, 
onde  com  respeito  se  lhe  escuta  ainda  o  no- 
me :  tão  bom  hé  ser  honrado  \ 

Proclamada  a  Independência  em  todo  o 
Fiauhy,  d^quí  se  diregio  convite  ao  Governo 
do  Maranhão  ,  para  que  adherisse  á  causa  bra- 
sileira- e  ao  mesmo  passo  se  lhe  enviou  hum  ex- 
presso cornminatorio  de  hostilidades,  as  quaes 
logo  se  manifestarão  pela  suppressão  dos  ga- 
dos. O  GovernoProvisorio,  que,  por  fundadas 
anteriores  razões,  temia  que  tão  violenta  in- 
timação tivesse  mais  por  objecto  compíical-o 
em  huma  Independência  puramente  demo- 
crática ,  do  que  fazel-o  concordar  com  a  reso- 
lução, até  então  ignorada  ,  do  Imperador, 
não  só  se  recusou  a  eila,  como  fez  marchar 
para  Caxias,  em  ponto  confinante  com  Piauhy, 
huma  força  commandada  por  Manuel  de  Souza 
Pinto  de  Magalhães.  Este,  porém  ,  inopinada- 


mente  se  destacionou  cTaquelle  lugár,  e  re- 
gressou á  Cidade  de  S.  Luiz,  allegando 
frívolos  motivos.  O  Governo  ,  de  acordo  com 
o  Commandante  das  Armas  Agostinho  An- 
tonio de  Faria,  ordenou  então  que  a  Tropa 
marchasse  para  a  Villa  d'Alcántara.  Esta  de- 
cisão transpirando  no  meio  do  Povo,  pro- 
dusio  amcaçadoura  irrupção;  numeroso  con- 
curso, com  estrondosa  vozeria,  clamava  que 
aquella  Tropa  fosse  desarmada ,  e  remettida 
para  Lisboa  *,  n'este  conílicto  o  Governo  fez 
executar  a  vontade  populár. 

Assim  se  achavão  as  cousas  quando  ali  che- 
gou noticia  de  que  a  Independência  se  havia 
proclamado  na  Corte  á  sombra  do  throno  Im- 
perial; por  outra  lado,  Jozê  Felix  Pereira 
de  Burgos,  que  condusia  as  Tropas  anti- 
independentes  em  Itapicurúmirim,  de  sú- 
bito se  declarou  pelo  opposto  partido  ;  então 
o  Governo  marcou  dia  para  o  solemne  ju» 
ramento  da   Independência.  Todavia,  na 


225 

madrugada  d 'este  dia  ,  fortes  grupos  de  povo, 
instigados  por  homens  rivaes  do  Governo, 
sollando-se  em  assuada ,  invadirão  os  quar- 
téis, largarão  e  armarão  os  presos,  e  vierão 
exigir  do  Commandante  das  Armas  imme- 
diata  proclamação  da  Independência  5  a  Tro- 
pa os  repellioj  porem  novo  embaraço  sobre- 
veio com  a  chegada  dos  navios  que  reconclu- 
siâo  os  soldados  porluguezes  da  Bahia.  Tudo 
se  achava  em  inteira  perplexidade,  quando 
apareceo  a  Esquadra  brasileira  commandada 
por  Lord  Cochranc,  o  qual,  achando  nas 
intenções  do  Governo  benigno  acolhimento, 
acabou  de  dissolver  os  obstáculos,  ea  Inde- 
pendência foi  geralmente  proclamada.  Bem  1323 
violências  então  praticou  o  Almirante  Inglez*, 
aliás  guerreiro  de  grande  nomeada. 

Do  Maranhão  destacou  Lord  Coe fira ne  hum 
Brigue  ao  cominando  de  João  Pascoé  Green- 
ffell,  para  intimar  ao  Pará,  que  annuisse  á 
proclamação  da  Independência.  A  chegada 

29 


226 

dVste  ofliciál,  que  aíFectou  ser  emissário  de 
huma  forte  Esquadra  surta  perto  da  Cidade, 
exaltou  o  partido  da  Independência  ,  o  qual 
1823  logo  triumphou ,  sem  embargo  da  obstinação 
do  General  Jozè  Maria  de  Moura  de  concerto 
com  todos  os  Chefes  da  Tropa  regular.  0 
General,  e  outros  militares  forão  presos, 
remei  ti  dos  para  Lisboa ,  e  sofrerão  a  confis- 
cação de  seus  bens. 

Em  vez  de  succeder  alegre  e  benigna  tran- 
quillidade  ao  juramento  da  emancipação  na- 
cionál,  foi  este  sagrado  acto  seguido  no  Pará 
pelos  maiores  excessos.  Grupos  de  homens 
máos  percorrião  a  Cidade  em  todos  os  sen- 
tidos, e,  ao  soa  de  vivas  ao  Imperador,  com-» 
mettiao  insultos,  arrombamentos,  espólios  e 
assassínios.  Trinta  horas  de  perfeita  guerra  ci- 
vil, obrigarão  finalmente  o  Commandante 
Greenffell  a  descerá  terra  com  sua  equipagem, 
e  prender  3oo  dos  mais  encarniçados  pertur- 
badores, e  decidirão  o  Governo  a  mandár 


227 

fusilár  hum  individuo  de  cada  corpo  militái 
complicado  nas  desordens.  Todavia ,  tudo 
fazia  recear  que ,  no  estado  actual  do  movi- 
mento popular, os  criminosos  i:*:  j*  tivessem 
seguros  na  cadèa,  e  GreenffeM  fez  recolher 
258  homens  ao  poráõ  de  huma  galiera ,  para 
onde  disparou  contra  elles  alguns  tiros. 
A  madrugada  do  seguinte  dia  veio  aclarar 
o  mais  pungente  espectáculo  :  254  homens 
asphyxiados  cobi  ião  em  montões  as  cavernas 
do  navio!  As  desordens  continuarão  n'esta  1823 
Província,  até  á  chegada  do  Presidente 
Jozé de  Araujo  Rozo,  que  prendeo  os  motores 
apparentes  d  e! las. 

A  Divisão  lusitana  estacionada  em  Monte- 
video, havia,  por  hum  Manifesto  promovido 
por  Antonio  Claudino  Pimentel,  em  1821, 
resistido  ao  decreto  que  a  desligava  do  Exér- 
cito portuguez  5  e ,  subtraindo-se  ao  com- 
inando de  seu  Chefe  ,  o  Barão  da  Laguna  ,  lhe 
substituío  hum  Conselho  Militár  soh  a  presi- 


328 

delicia  dVste  General.  Quando  ali  se  soube 
o  rompimento  do  vínculo  que  unia  o  Brasil 
a  Portugal,  o  General  D.  Alvaro  da  Costa  de 
Souza  Macedo,  concentrando-se  na  Praça  com 
4,000  soldados,  sustentou  hum  sítio  de  17 
mezes  contra  o  resto  das  forças  do  Barão  da 
Laguna ,  declarado  a  favor  da  Independência; 
mas ,  recebendo  a  nova  de  que  todos  os  seus 
compatriotas  destacados  no  Norte,  particular- 
mente os  da  Bahia  ,  havião  succumbido,  eva- 
cuou a  Praça  por  capitulação;  e  dando  assim 
azo  á  execução  do  resolvido  em  1821  pelo 
Cavildo,  ficou  Montevideo  incorporado  ao 
Brasil,  com  o  nome  de  Estado  Cisplatino. 

Desde  esta  época ,  hum  só  soldado  Luso  não 
mais  pizou  o  solo  brasileiro;  e  a  bandeira 
da  Primavera  e  do  Ouro  ondulou  altiva  do 
Prata  ao  Amasonas.  Oxalá  que  tal  se  houvera 
conseguido  sem  o  sacrifício  de  tantas  víctimas; 
4,000  cidadãos  úteis,  tiverão  que  transportar 
para  além  do  Oceano  seus  cabedaes,  montantes 


229 

a  mais  de  8o  milhões  de  cruzados,  para  es- 
caparem ao  impune  punhal  da  populaça  ,  a 
quem  animava  com  tremendas  recom- 
mendações  hum  Governo  terrorista,  que, 
pretextando  hum  a  fantástica  expedição  do 
Tejo,  em  nome  da  Patria  assolou  a  Patria, 
em  crescente  progressão  do  Sul  ao  Norte. 

Dissolução  da  Constiluinte.  —  Constituição  ofTeroeida  pelo 
Imperador.  —  Segunda  revolução  em  Pernambuco.  — 
Atteulado  na  Bahia. 

A  agitação  dos  espíritos^  crescia  na  Capi- 
tal de  dia  em  dia;  a  discórdia  tinha  pene- 
trado ate  ao  sanctuario  augusto  da  lei.  As  dis- 
cussões á  cerca  da  marcha  do  Governo  se  ti  n  hão 
tornado  demasiadamente  animadas*,  e  o  re- 
cinto da  Camara  hera  occupado  por  povo  ,  em 
parte  aunado ;  alguns  Deputados,  em  menos 
parlaiiiétitár  linguagem,  parecião  fulfriinár 
contra  o  Executivo  terrível  anathema.  O  ím- 
perador  convencido  de  que  o  procedimento 


23o 

cTestes  poucos  Representantes  da  Nação,  que 
aliás  gosavão  de  popular  crédito,  tendia 
a  destruir  o  poderio  que  lhe  ha\ia  con- 
ferido a  unânime  vontade  brasileira,  resolveo 
anniquilár  a  Assembiéa  !  He  assim  que,  na 
cadèa  das  cousas  politicas,  hum  erro  traz 
com  sigo  de  rojo  hum  maior  erro!  O  Impera- 
dor fez  reunir  a  Tropa  no  Campo  de  S.  Chris- 
tovão,  e  marchando  á  frente  d'ella,  estacionou 
na  praça  d'AcclamaçSo,  donde  enviou  hum  a 
Brigada  cercar  o  Palacio  dos  Deputados.  Hum 
decreto  promettendo  mais  liberal  Constitui- 
ção do  que  a  composta  pela  Assembiéa,  dis- 
solvia este  Corpo  ■,  seis  de  seus  Membros  forão 
deportados  para  a  Europa,  como  pensionarros 
1823  do  Governo,  e,  tempos  depois,  julgados  inno- 
centes. 

Em  Pouco  se  publicou  a  Constitui- 
ção, organisada  no  Conselho  d'£*stado,  e 
a  mais  liberal  de  quantas  existem  em  Monar- 
chias.  Em  todas  as  Provindas  do  Sul  foi  ella 


s3i 

logo  jurada,  por  voto  de  grande  maioria 
dos  Cidadãos,  sem  prévia  discussão. 

Todavia,  na  parte  septentrionál  do  Impé- 
rio produsio  o  violento  golpe  mais  sérias  con- 
sequências. Em  Pernambuco,  as  idéas  suffo- 
cadas  em  1817  tomarão  com  os  fogosos  es^ 
criptos  de  Cypriano  Jozè  Barata  de  Almeida, 
homem  sobremaneira  ardente,  e  avezado  a 
revoluções,  huma  expansão  amedrontadora. 
Manuel  de  Carvalho  Paes  de  Andrade,  posto 
por  seus  comprovincianos  á  testado  Governo 
do  paiz  >  diregio  convite  a  todas  as  Províncias 
do  Norte,  dcclarando-se  independente  do  Rio  1824 
de  Janeiro,  e  Chefe  da  Confederação  do  Equa- 
dor. Francisco  Paes  Barreto ,  nomeado  pelo 
Imperador  ,  Presidente  de  Pernambuco,  ten- 
do feito  inúteis  esforços  para  se  apossar  da 
authoridade,  retirou-se  ao  lugár  da  Barra 
Grande,  com  a  diminuta  força  que  a  seu  fa- 
vor pôde  reunir.  João  Taylor  bloqueiou  o 
porto  do  Recife,  e  protegeo  por  már  a  Tropa 


2S2 

fugitiva,  a  qual,  com  este  auxilio  pode  re* 
sistír  ás  mui  superiores  forças  que  Carvalho 
destacou  logo  em  seu  seguimento.  A  Corte 
quiz  conciliar  os  partidos  nomeando  hum 
terceiro  individuo  para  Presidente,  e  fazendo 
retirár  o  bloqueio  *,  porém  os  insurgentes 
recorrerão  então  a  medidas  terminantes  para 
acabarem  como  punhado  de  enthusiaslas,  que, 
abatidos  com  a  retirada  das  forças  de  mar, 
se  achava®  fortemente  entrincheirados  na 
Barra  Grande.  Quatro  centos  homens  sem 
recursos,  souberão  resistir  a  toda  a  Tropa 
de  Carvalho,  diregida  por  Jozê  A nlonio  Fer- 
reira. Hum  pequeno  bloqueio  enviado  pelos 
de  Pernambuco,  foi  presa  de  duas  embarca- 
ções de  guerra,  que  no  momento  chegarão, 
ao  cominando  do  Conde  de  Beaurepaire. 

Carvalho pertendeo ,  mas  debalde,  occupár 
as  Alagoas,  eParahyba. 

Tristão  Gonçalves  de  Alençdr  Ararype ,  e 


/ 


233 

Jczè  Pereira  Filgueiras,  decidir?  o-sr  a  ar- 
voiár  no  Ceará  o  estandarte  da  Confederação; 
mas  o  Povo  enfurecido  teria  feito  sobre  aque lie 
partido  horríveis  estragos,  a  nlo  ser  enviada 
do  Recife  liunia  foiça  pai  a  restabelecer  a  or- 
dem. 

Oecupavao  ainda  os  pertinases  defensores 
da  integridade  do  Impei  io  as  margens  do  rio 
Uaa,  quando  nas  Alagoas  desembalou  linma 
expedição  mandada  da  Corte,  ao  cominando 
do  General  Francisco  de  Lima  e  Silva  ;  o 
qual,  incorporando  a  sí  aqueloutra  força, 
e  levando  o  Engenheiro  Conrado  Jacob  de 
Riemcycr  ,  que  havia  fortificado  a  Barra 
Grande,  íoi  entiár  por  surpresa  no  Recife^ 
não  obstante  os  esforços  dos  contrários, 
que  sofierâo  grande  estrago,  sem  matar  hum 
só  dos  atacantes.  Quatio  di^s  depois  voltarão 
os  insur gentes  ao  combate;  e  esla  última  e 
desesperada  acção  foi  mortífera  para  ambas 
as  partes.  A  Esquadra,  comi  us  ida  |>or  Lord 

3o 


^34 

Cochrane,  coadjuvou  a  inteira  occupaçâo  do 
Recife. 

Os  da  Confederação  ,  em  número  de  800, 
abandonados  de  seu  Chefe,  procurarão  refu- 
gio no  ínteiior,  onde  forão  obrigados  a  en- 
tregarem-se  ás  Tropas  que  os  perseguirão. 
Iluma  Cominissio  Militar  em  Pernambuco  , 
c  outra  no  Ceará  ,  julgai âo  os  reos  ,  dos  quaes, 
12  perderão  a  vida.  Restabelecida  a  tranquil- 
idade em  Pernambuco  pelas  prudentes  me- 
didas do  General  Lima  ,  foi  a  Constituição 
geralmente  jurada  em  todo  o  Norte. 

Entre  as  vielimas  da  revolução  de  182^  , 
que  geralmente  magna  r2o  os  corações  , 
se  distingira  João  Guilherme  Redtíiff,  ho- 
mem instando  e  generoso,  sentenciado  á 
morte  nos  Tribunaes  da  Còrie,  pelo  crime  de 
ter  hiiSo,  por  parte  de  Carvalho »  ,  com  2  pe- 
quenas embarcações,  no  intuito  de  contratar 
com  os  acantonados  nu  Barra  Grande. 


s35 

He  na  B.jJiia  de  piíblica  notoriedade,  que, 
o  Comrnandante  das  Armas  Felisberto  Gomes 
Cal  leira  ,  tendo  a  principio  dado  viso  de  que- 
rer annuir  ao  convite  do  Cabeça  da  revolu- 
ção pernambucana,  se  mostrou  nos  fins  de 
1824  acérrimo  e  injusto  perseguidor  de  todos 
os  militares  em  quem  translusião  ieléas  de  li- 
berdade, e  mormente  dos  pancgvrislas  da 
C  n federação  do  Equador;  entre  esles,  pareceo 
ao  General  que  Jozè  Antonio  da  Si  Ira  Castro- 
oceupava  distincto  lugar  ;  e,  dando  d  isto 
conta  d  Corte,  o  suspendeo  do  commaudo 
do  corpo  que  llie  eslava  confiado.  Desde  lo- 
go bum  tumulto  militar  se  patenteou;  o 
Batalhão  do  Comrnandante  Silva  Castro,  com 
insubordinada  arrogância  exigioa  reintegra- 
ção d'este  oííiciál ;  e,  como  o  General  perse- 
verasse nas  medidas  tomadas,  cresceo  a  revo- 
lução a  ponto  que,  100  homens  dVsle  corpo 
se  arrojarão  a  hir  cercar  o  quartel  do  Chefe 
Militar  da  Província,  e  intimar-lbe  ordem 
de  prisão.  0  General  cedeo,  di&endo :  Vou 


236 


fmo,  com  a  condição  de  qrtc  s  *  me  nfio  hade 
tacdr  ;  pomn  ,  mal  a  confiante  vir  ti  ma 
se  mostrou  a  peito  descoberto.,  hum  dos 
oííiciaes  que  condiisiao  o  piquete  deo  o 
tremendo  signal,  e  o  General  eahio  Iréspas- 
Í824  sa<}°  por  14  balas!  Quatro  dos  ^ompiomrtti- 
dos  no  a  l  tentado  perdei âo  a  vida*  outros, 
teinero  os,  se  expatriarão  voluntariamente. 

Reconhecimento  da  independência.  —  Nascimento  rio  Prín- 
cipe imperial  0.  Pedro.  —  O  Imperador  dá  Constituição 
a  Portugal,  e  abdica  a  Coroa  d'aquelle  Reino.  —  Morte 
du  tmneraU"i}A 

1825  0  seguinte  anuo,  em  quf  por  ventura  co- 
meçou o  Brasil  a  gosár  de  bonançosa  exis- 
tência,  foi  assignalado  pelo  reconhecimento 
da  Independência,  obtido  do  Governo  portti- 
guez  por  mediação  d 'Inglaterra-.  As  Potencias 
eus  opeas  vierâo  logo  'x  porfia  buscár  a  alliança 
do  Bi  a  il  *,  assim  não  se  tivera  o  nosso  Governo 
precipitado  cm  firmaí-a  por  tratados  cujas 


287 

consequências  promettem  longa  e  funesta  In- 
fluencia na  nossa   vindoura  prosperidade» 


N^ste  mesmo  anno  teve  lugar  o  nascimento 
«Je  hum  Príncipe,  que  veio  suprir  a  falta 
que  nos  deixara  a  morte  do  primeiro  FilLo 
do  Imperador. 

Kâo  menos  célebre  se  torna  nos  annaes 
brasileiros  o  anuo  de  1826,  em  (pie  o  Fuu- 
daJor  da  nossa  Monarehia ,  reconhecido, 
por  morte  d'EI  Rey  D.  Joio  VI,  eomo  o  ?V 
Pedro  de  Portugal,  preferindo  o  grandioso 
Brasil  ao  sólio  dos  Aiiouços,  abdicou  aqucfl  1 
Coroa  em  D.  Maria  da  Gloria,  sua  primo- 
génita Fillia  nascida  Pòrtugueza ;  depois  de 
ter  dado  aos  Lusitanos  adequada  Constimiç^o 
Politica.  Embora  hum  fascinado  Príncipe 
privasse  acpu  lia  parte  dos  humanos ,  da  mo  le- 
ia la,  doce  liberdade;  a  hora  soou,  em  qiie^ 
jm  lo  natural  progresso  das  luzes,  o  despotis- 
mo tem  de  ceder  seu*  ihronos  a  mais  braado 


238 


regimen. 

He  também  digna  cie  memorar- se  a  dolorosa 
perda  que  n'este  anuo  de  1 8^(5  sofrco  o  Brasil 
fom  a  morte  de  sua  jovcn ,  amável  e  instruída 
Imperatriz  D.  Mai ia  Leopoldina,  modelo  de 
tirtudes. 

Terceiro  período  da  campanha  do  Sul.  —  Matança  no  Rio 
de  Janeiro.  —  Fim  da  campanha  do  Sul  ,  e  separação  de 
Montevideo. 

Com  o  regresso,  qnc  antes  mensionamos, 
de  grande  parte  do  Exército  do  Sul  ,  ficarão 
summamente  limitadas  as  Tropas  do  Barão 
da  Laguna ,  e  mais  enfraquecidas  ainda  com 
as  faltas  de  pagamento  que  sofrião,  apezár 
de  todas  as  providencias  d  "es  te  General ,  e 
das  generosas  prestações  feitas  por  D.  Tlwmaz 
Garcia  de  Z urtiga  ,  oi  a  Barão  da  Carrera. 

Não  ignoravão  os  Argentinos  a  fiaquesa  cm 


23g 

que  se  acbavão  os  nossos;  e  aproveitando  se 
do  partido  existente  em  Montevideo  a 
favor  da  união  com  a  Piepublica ,  1  lie  en- 
viavão  armamento ,  c  fomentdVcIo  a  revolta 
em  toda  a  Banda  Oi  iental  ,  a  fim  de  des- 
ligar do  ímperio  aquella  Província ;  estas, 
e  outras  manifestas  manobras,  juntas  a  rei- 
teradas reclamações  da  Cisplatina,  derao 
iugár  á  declaração  da  guerra  entre  o  Brasil 
e  Buenos  Ayres. 

Constando  a  Bento  Manuel  Ribeiro,  que  os 
adversários  se  havião  reunido  em  número 
de  2,5oo  sob  o  Cacfe  D.  João  Antonio 
Lavalleja,  e  que,  no  lugar  do  Durasno  , 
espera  vão  novos  reforços  para  marcharem 
sobre  as  nossas  fronteiras,  se  diregio  ao 
Barão  da  Laguna,  propondo-lhe  hir  bater 
o  inimigo  em  sua  própria  posição.  0  Ge- 
neral Barão  de  Villa  Bella ,  que  governava 
a  Praça  de  Montevideo,  rcquereo  a  primasia 
no  cominando  das  Tropas  que  se  destacassem. 


240 

mas  o  Chefe,  sem  dar  definitiva  decisão,  or« 
denou  a  Bento  Gonçalves,  que,  com  a  sua 
Cavallaria  viesse  juntar-seao  corpo  que  de- 
\ia  marehár.  jS'este  comenos ,  sabcndo*se  que 
©inimigo  principiava  a  manobrar,  concedeo 
o  General  ena  Chefe  a  B.  M.  Ribeiro,  que, 
com  seus  sós  i,o<o  homens  mal  armados,  lhe 
fosse  reconhecer  o  campo;  porem  ,  este  oííi- 
ciai,  ancioso  por  travar  combale,  topando 
com  Lavalle ja  no  lugar  «'o  Sarandy  , 
rompeo  encarniçada  e  temerária  acção.  O 
inimigo,  no  Em  de  breve  pleito,  carregando 
com  vivesa  sobre  os  flancos  dos  nossos,  con- 
seguio  logo  envolvel-os,  e  passár  á  espada 
grande  parle  d'esta  pouca  gente,  qne  aqui 
4825  ficou  completamente  derrotada,  B.  M.  Ribei* 
ro,  retirou-se  em  debandada  ás  fronteiras  do 
Rio  Grande;  só  Joaquim  Jozè  d ' A 'Lencastre  f 
com  200  homens  persistio  na  luta  ,  entre» 
jraralo- se  depois  prisioneiro  por  capitulação. 
Foi  eslo  o  primeiro  completo  destroço  que, 
no  Hm  de  1 4  anuo»  dc  árdua  cauiuunha  p 


241 

sofremos,  víctimas  de  liuma  imprudente  d 
ambiciosa  bravura. 

Sobre  as  aguas  tsnhão  os  nossos  mais  feliz 
sorte*,  a  Esquadra  brasileira  ao  commando 
de  Pedro  Antonio  Nunes,  disputava  com  van- 
tagem á  do  Almirante  Guilherme  Brwn ,  o  se- 
nhorio do  rio  da  Prata. 

Não  teve  o  inimigo  muito  tempo  para  jae* 
tar-se  da  victoria  que  sobre  nos  alcançara  *, 
porque,  transportando-se  poucos  mezes  de* 
pois  o  Cíiefe  Lavallejci  sobre  a  Colónia  do  Sa- 
cramento, teve  que  experimentar  desastrosa  1526 
derrota  ,  vendo-se  obrigado  a  cederá  pequena, 
mas  brava  guarnição,  que,  hábil  mente  con- 
dusida  pelo  General  Manuel  Jorge  Rodrigues^ 
pós  em  debanddda  os  numerosos  atacantes. 
Igual  sorte  ti  verão  as  Tropas  que  posterior- 
mente, ao  commando  de  D,  Manuel  Oribes  f 
tentarão  sitiar  aquella  Praça. 


3i 


Muito  cooperarão  3  pequenos  vasos  desta- 
cados  da  Esquadra  de  Rodrigo  Jozé  Ferreira 
Lobo ,  e  entregues  a  Frederico  Mariatt,  para 
reagir  ao  ataque  da  Esquadsilha  inififtiga, 
que  veio  ao  mesmo  tempo  acommeller  a  Co- 
lónia. 

Resolveo  inopinadamente  a  Corte  mandar 
substituir  o  Chefe  do  nosso  Exercito,  Visconde 
da  Laguna,  pelo  General  Marquez  de  Barba- 
cena. Este  chegou  ao  acampamento  de  S. 
Anna.  e  sisando  lo 2:0  atacar  o  inimigo  em 
campal ,  e  regular  acçlo ,  principiou  por 
inspeccionar  as  Tropas;  porém,  durante  este 
tempo  aparecendo  os  de  Buenos  Ayres,  por 
3  vezes  em  diversos  e  distantes  lugares,  e 
c  nhecendo-se  que  sua  verdadeira  direcção 
hera  por  S.  Tecla  ,  se  resolveo  em  conselho 
que,  visto  o  mao  estado  do  Exército,  peque- 
no, desarmado,  e  sobrecarregado  de  doentes, 
e  attendendo  a  que  sò  no  Rio  Grande,  e  S. 
Francisco  de  Paula  ,  teria  os  necessários  soe- 


coitos,  dos  quaes  o  Lia  privár  o  inimigo, 
cortando  a  meio  a  linha  de  communicaçno , 
se  posessem  logo  as  Tropas  em  movimento-, 
isto  &  eíTeiUiou,  deixando  o  General  no  lugár 
do  Serro  todas  as  bagagens,  e  mais  de  26*0 
doentes,  entregues  a  Pedro  Jozè  da  Costa  Pa* 
checo.  Segnio  o  Exército  buscando  o  Icama- 
cuan,  a  fim  de  rece  ber  os  reforços,  ou  peio 
Icamacuanchico  ,  ou  pelo  Passo  dos  Enforca- 
dos; e  ifesta  marcha  houve  tanta  habilidade, 
e  atrevimento,  visto  não  serem  os  nossos 
mais  de  4i200  homens  mal  armados,  que 
quando  acabarão  de  passár  algumas  can  etas 
pelo  Icamacuanchico ,  já  o  inimigo  oecupava 
Magé,  e  as  suas  avançadas  tinhao  rompido 
em  tiroteio  na  próxima  collina  com  as 
avançadas  do  General  Sebastião  Barreto  Pe- 
reira Pinto.  Eííeituada  a  passagem  ,  fora  o 
os  nossos  postar-se  no  arroio  das  Palmas  , 
onde,  recebendo  reforços  de  Cavallai  ia  ,  e  In- 
fanteria,  esperarão  os  adversários.  0  Chefe 
Argentino  D.  Carlos  de  Alcedr ,  conhecendo 


344 

a  pociç~.o  occupada  pelos  Brasileiros,  evitou 
de  aqui  romper  o  ataque,  e,  para  os  deslocar, 
entra  nhou-se  pela  Provincia  até  S.  Gabriel  \ 
com  r fiei  to  ,  o  Marquez  de  Barbacena  ma"rchou 
logo  em  seu  seguimento,  e  foi  entrar  n*a«* 
quella  Villa  na  mesma  manhan  em  que  d'a- 
li  sahira  o  General  Alcedr.  Este  procurou  o 
Caciquy,  e  os  nossos  o  Passo  do  Tiozario,  no 
intuito  de,  ou  encontra  J-o,  se  tentasse  ahí  a 
passagem  9  ou  interseptar-lhe  a  retirada  para 
o  seu  território,  se  cortasse  mais  aLaixp  o 
rio  de  S.  Maria.  Dois  dias  depois  avistou-se  a 
inimigo. 

0  General  Barão  do  Serro  Largo,  e  Bento 
Gonçalves ,  á  testa  da  vanguarda,  tiverão  or- 
dem de  começar  o  fogo.  O  nosso  Exe'rcito 
tinha  5,2oo  homens,  e  o  argentino  parecia 
de  a 9,000.  A  acção  foi  começada  com  mais 
ânimo  do  que  prudência-,  nenhum  plano  ha- 
via. Ainda  a  segunda  Divisão  não  estava  pos- 
tada, já  a  primeira  tinha  aberto  a  peleja. 


â45 

De  parte  a  parte  se  fizerâo  muitas  cardas  de 
Cavallviiia  ;  a  nossa  Infan teria  avançou  á 
posição  dos  contrários  ,  e  ah  repcllio  furtes 
ataques  (Turma  branca,  resistindo  com  intre- 
pidez  ao  fogo  de  toda  a  bateria  rival,  que 
hera  bem  condusida ,  em  quanlo  a  nossa  es- 
tava dispersa  ,  e  com  sós  5  praças  a  cada  ca- 
nhão. Todavia,  o  inimigo  conseguindo ront- 
pcr  ,  e  lomar-nos  todas  as  bagagens  e^ muni- 
çCes  ,  que,  sem  guarda,  nem  rczerva ,  se 
achavâo  expostas,  obrigou  os  nossos  a  retira-  1827 
rem-se,  sem  que  a  isso  os  compelltsse  a  força 
do  inimigo  ,  o  qual  experimentou  triplica- 
das perdas,  e  nuo  ousou  perseguil-os,  desde 
que  anoileceo. 

Se  o  Chefe  Brasileiro,  em  ycz  de  escutár  o 
aviso  ('os  militares  da  Província  que,  jul- 
gando do  inimigo  pela  disciplina  que  d'antes 
tinha,  o  animarão  a  romper,  tem  esperado 
a  incorporação  ao  Exército,  dos  1,200  homens 
de  bem  provida  Cavallaria  coaimandados 


246 

por  Bento  Manuel  Fábeiro,  por  certo.,  se  pode 
çonçír  que  se  leria  evitado  aquelle  desastre  %  e 
com  elle  a  perda  de  muitas  vidas  brasileiras, 
enlre  as  quaes  devemos  memorar  a  do 
valente  General  Barão  do  Serro  Largo* 

Foi  depois  d'esta  infeliz  accao,  que  o  in- 
trépido D.  Boni  fado  Isac  Calderon,  com  100 
bomens  atacou  o  acampamento  do  Serio  Lar- 
go, hateo  i5o  Argentinos,  e  aprisionou  o 
Chefe  D.  Ignacio \Qrioes ,  com  todas  as  suas 
bagagens. 

Iíuma  Esquadra  Brasileira,  de  proxima- 
mente 4°  vasos,  capitaneada  pelo  Almirante 
Rodrigo  Pinto  Guedes,  aliás  Barão  do  Rio  da 
Prata,  bloqueia va  os  portos  da  República, 
c  procurava  destruir  a  Armada  inimiga 
de  até  27  pequenas  embarcações,  comman- 
dadas  por  Guilherme  Brwn*  A  superioridade 
das  nossas  forças,  e  a  conhecida  perícia  de 
seu  Chefe ,  nos  fez  senhores  da  navegação  d@ 


i47 

Prata.  Jamais  pode  impunemente  o  inimigo 
mostrar-se  dentro  dó  Rio  ;  2 1  navios  armados 
argentinos  forâo  aqui  tomados  ou  destruí- 
dos. 

Fora  deste  distrieto  na  o  ti  verão  os  nossos 
tão  felizes  êxitos.  Huma  Esquadrilha  entregue 
a  Jacinto  Roque  cie  Sena  Pereira,  que  linha 
hido  oceupár  provisoriamente  o  Uraguay, 
teve  de  sofrer  vigoroso  ataque,  por  muito 
superior  força,  e  irremediável  lhe  foi  ren-  1827 
der-  se 5  talvez  por  lhe  faltar  o  apoio  da  ilha 
de  Martini  Garcia  ,  que  qttási  se  pode  conside- 
rar como  chave  d\iquclle  rio,  e  que  a  nossa  ne 
gligencia  tinha  abandonado  ao  inimigo. 

Duas  expedições  que  o  Almirante  empren- 
deo  á  Patagonia,  no  intuito  de  obrigar  á 
divergência  os  de  Buenos  Ayres,  forão  suc- 
cessivamente  mallogradas.  A  primeira,  en- 
tregue a  Roberto  Skepeld,  que  se  compunha 
de  4  vasos,  e  gente  de  desembarque,  levava 


2# 

©rdem  dc  tomar  huma  curveta  inimiga,  que 
ali  se  achava,  e  de  destruir  a  bateria  da  en«* 
irada porém  este  Commandante,  querendo 
imprudentemente  penetrar  até  á  Povoação, 
e  sendo  morto  antes  de  lá  chegar  *,  quando 
os  nossos  voltarão  s  achando  entre  si  e  a  praia 
todo  o  pasto  incendiado,  se  renderão  prisio- 

1 827  neiros.  A  segunda  expedição,  de  3  navios i 
diregida  por  Guilhei  me  Eyre ,  perdeo  i  d^s- 

1827  tas,  á  entrada  da  ha  lua  de  S.  Braz. 

Muitas  foi  ao  as  presas  feitas  pela  Esquadra 
brasileira  sobre  embarcações  neutraes,  que 
violarão  o  bloqueio;  mas  fácil  foi  á  arro- 
gância diplomática  obrigar  a  fraquesa  do 
nosso  Governo  a  vergonhosas  restituições. 

Hum  inesperado  motim  militar  veio  por 
este  tempo  consternar  a  Capital.  Hum  dos 
corpos  cFEstrangeiros  assalariados  ao  serviço 
do  Império y  composto  de  Alemães,  se  achava 
desgostoso  com  a  infidelidade  que  o  Governo 


M9 

€om  elle  praticava,  conservando  nas  fileiras 
os  indivíduos  cujos  contratados  prasos  haviao 
expirado;  e  pelo  rigor  dos  castigos  com  que 
os  pertendião  constranger  ao  silencio.  Por  oe- 
casião  de  huma  dVstas  arbitrárias  punições, 
o  Batalhão,  enfurecido  pai  tio  em  debandada, 
e  se  diregio  ao  Palácio  da  Boa  Vista,  a  pedir 
justiça  ao  Imperador  *  o  qual  recusa ndo o tivil- 
os ,    os  soldados  voltarão  ao  quartel,  rom- 
pendo em  ameaças.  No  seguinte  dia  algumas 
praças  do  corpo  dlrlandezes   vierão,  com 
suas  vociferações  contra  o  Governo,  exacer- 
bar os  cscandalisados  Alemães.  A  desordem 
tomou  cnl/io  hum  caracter  ameaçador;  o  ar- 
masem  das  munições  foi  forçado*,  e  bandos 
de  soldados  ébrios,  quasi  todos  Irlandezcs, 
ao  abrigo  da  noite,   investido  e  saqwavuo 
as  eazas  em  differentes  bairros.  Os  bárbaros 
Africanos,  aproveitando  o  propício  ensejo 
de  se  mostrarem  defensores  do  paiz  banhando- 
se  no  sangue  da  raça  branca,  tiravão  desa- 
piedadamente a  vida  a  quanto  inerme  solda- 

32 


25o 

do  estrangeiro   encontravão  ,    pela  maior 
parte  innocentes.  Os  Alemães  de  outro  corpo, 
aquartelado  na  Praia  Vermelha,  ouvindo  os 
rumores  do  que  se  passava ,  julga  i  ão  chegado 
o  momento  da  vingança  ,  e,  como  conservas- 
sem antigo  odio  ao  Majnr  Bènèdicte  Tioli , 
pela  infiel  conta  que  sempre  dera  de  suas^ra- 
tiíieações  ,  qíiiserãd  prendi  i-o,  e  remettel-o 
ao  Imperador;  porém  este  acto  de  insubor- 
dinação ,  iíi tentado  em  prezença  dos  Irlan- 
dezes  ,  teve  mais  criminoso  desfeche,  os  bru- 
taes  insulares  íançando-se  sobre  elle  o  assas- 
sinarão. Finalmente,  mais  de  48  horas  bavião 
que  a  Cidade  jasia  submergida  nos  maiores 
horrores,  quando  tomou  o  Governo  decisivas 
medidas  5  e  requisitando  por   precaução  o 
desembai  que  das  guarnições  das  Esquadras 
ingkza,   e  franceza ,   pos  em  movimento  a 
Ti  ora  nacional,  e  fazendo  fogo  sobre  os  re- 
voiíosos,  os  obrigou  a  recolherem-se  ao  quar- 
tel do  Campo  de  S.  Anna;  até  á  próxima 
manhâa ,  em  que,  acordando  elles  da  embria- 


25  í 

guez  que  os  tornara  tão  íeroses,  se  entregarão 
submissos.  Os  Irlancíezes  forão  reinviados  á 
Europa,  e  os  Alemães  entrarão  de  novo  na 
disciplina.  Finalisou  assim  esta  lastimosa 
scena  de  que  foi  espectadora  a  nossa  Capital.  1828 
Em  7  Brasileiros,  1 5o  Estrangeiros  e  i5  es- 
cravos, se  avalia  o  número  dos  mortos.  O 
soldado  Alemão  Eduardo  Stcinhausen  consi- 
derado cabeça  da  rebeliião,  foi  fusiludo  por 
sentença. 


Sabendo  depois  o  Ministério  que  os  nossos 
inimigos  do  Sul,  refeitos  de  gente  e  arma- 
mento, tomavão  nova  energia,  e  que,  em 
força  respeitável,  ameaçavão  de  entrardiarem- 
se  na  Província  de  S.  Pedro,  e  considerando 
ao  mesmo  tempo  o  desfalecimento  em  que  se 
achavão  os  nossos,  pela  aturada  falta  de  su- 
primentos, e  por  alguma  perda  de  subordi- 
dinação ,  talvez  occasionada  pela  desarmonia 
entre  os  principaes  Chefes,  á  qual  não  hera 
extranho  o  General  Gustavo  Henrique  Brown , 


2$2 

aliás  oííicial  notável  por  sua  habilidade  e  rara 
•valentia,  íesolveo  aceitar  a  paz  com  Buenos 
Ayres,  não  obstante  está r  o  nosso  Exército, 
já  de  novo  sob  o  General  Visconde  da  Laguna^ 
de  posse  das  melhores  posições.  Cornmissarios 
da  Republica  viera  o  firmar  na  Capital  do  Im- 
pério hum  tratado  preliminar,  pelo  qual, 
1828  Montevideo  ficou  desligado  do  Brasil.  Tal  foi 
o  pasmoso  remate  a  mais  de  17  annos  de 
contínuos  sacrifícios  ! 

Hum  corpo  de  í,5oo  homens  que,  ao  com- 
mando  do  General  Francisco  Jozé  de  Souza 
Soares  d' Andrea,  foi,  segundo  o  tratado, 
occupâr  a  Praça  ,  e  que  a  devia  evacuar  a  2  de 
1829  Abril,  só  o  fez  22  dias  depois*,  porém  na 
melhor  intel licencia  com  o  Governo  do  novo 
Estado. 


253 


CONCLUSÃO. 


Aqui  o  fim  de  nossa  tarefa;  feliz  se  nossos 
jovens  compatriotas  acharem  neste  livro 
auxilio  a  seus  primários  estudos.,  único  in- 
cenúvoquea  tal  publicação  nos  animou.  À 
pénnas  mais  hábeis,  que  nâdá  nossa  de  ruim 
estylo  e  de  peiór  critério,  pertence  a  arra- 
zoada narrativa  da  completa  Historia  Brasi- 
leira; praza  ao  céo  que  hum  venturoso  por- 
vir lhes  ministre  dourada  matéria  *,  praza  ao 
céo  que  o  saber  e  patriotismo  dos  Poderes  a 
quem  cabe  o  grave  encargo  de  promover  o 
bem  da  Patria  ,  consigão  extirpar  fataes  riva- 
lidades. Sirvão  os  extranhos  paizes  de  exem- 
plo ao  nosso*,  embora  se  objecte  com  differen- 
ç  s  de  localidade*,  o  génio  das  Nações  depende 
mais  das  leis  que  as  regem,  do  que  da  alaioá- 


phera  que  as  cobre  j  o  Grego  da  natureza  hé 
hoje  o  mesmo  que  o  dos  séculos  de  ouro,  mas 
os  vícios  do  Governo  tem  privado  Athenas 
de  novos  Perycles  e  novos  Pkydias. 


N.  B.  Nem  era  huma  só  palavra  do 
dosso  autógrapho  tocamos,  depois  do 
memorável  dia  y  de  abril  de  i85i; 
julgamos  ter  escripto  a  VERDADE;  e 
a  verdade  hé  huma,  e  eternamente 
immutavel. 


FIM. 


(Erratas  principal 


Pag. 

Linhas. 

Erros. 

Emendas, 

18, 

de 

da 

oo, 

6, 

inimigos. 

inimigas. 

99» 

4, 

5o, 000 

5,ooo 

110, 

9^ 

ahondaute 

abundante 

iai, 

i5, 

os 

aos 

127, 

1 , 

inulilisavâo 

inutilisava 

16a , 

10 , 

de  S.  Paulo 

do  paiz 

i85, 

1 , 

destacou  a 

destacou 

189, 

5, 

Vasques 

V asco  Antunes 

202  , 

17 1 

do  Condi 

de  Tlieodoro 

258, 

17. 

Carrera 

Calcra 

ODEX. 


>ce*< 


PRIMEIRA  ÉrOCA. 

O  BRASIL  ANTES  EA   CONQUISTA.     Pag.  () 

SEGUNDA  ÉPOCA. 

O   BRASIL   CONQUISTADO  PELOS  PORTUGUESES.  Í)Q 

Divisão  do  Brasil  em  Capitanias.  .  ,   4/ 

Povoação  ilo  Espirito  Santo   5o 

Povoação  cie  Pernambuco   5o 

Povoação   cia  Bahia   5a 

Tentativas  dos  Francezes  para  se  estabelecerem  no 

Brasil   53 

Povoação  de  S.  Paulo   59 

Expulsão  dos  Francezes   62 

Povoação  do  Rio  de  Janeiro   65 

Divisão  do  Brasil  em  dois  Governos  separados.  ...  66 

O  Bra?il  Tolta  ao  regimen  de  hum  só  Governador.  .  69 

Povoação  da  Parahvba.  .   69 

33 


258 


TERCEIRA  EFOCA. 


O   BRASIL    3NO    DOMIKIO  HESPAJíHGL. 


Minas  de  p\"ata   70 

Povoarão  de  Seregypc   70 

Os  Inglezes  acomraeltcrn  o  Brasil   74 

Povoação  do  Rio  Grande  cio  Norte   78 

Incursões  no  interior   78 

Povoação  de  Ceará   So 

IVova   expedição  franceza   81 

Povoação  do  Maranhão  -  82 

Povoação  do  Pará   85 

Os  Holandezes  atacão  o  Brasil   85 

Conducta  dos  Colonos  para  com  os  Indígenas.  ...  89 

Segunda  invasão ,  e  estabeieeiniento  dos  Holandezes.  91 

Viagem  pelo  Amasonas   io5 

O  Brasil  he  governado  por  Vicereys  .   11 J 

QUARTA  ÉPOCA. 


O   BRASIL  LIVRE  BO  JUGO  D  HESPANHÀ.    .  11  J 

Insurreição  em  S.  Vicente.   ii4 

Expulsão  dos  Holandezes.  ,   116 

O  Brasil  recebe  titulo  da  Principado   íõi 

Povoação  de  S.  Calharma   ioj. 

Rasgo  de  valor   104 

Povoação  das  Alagoas   100 

Fundação  da  Colónia  do  Sacramento   106 

Aiinas  de  ouro   107 


^9 

Povoação    de  Minas  Geraes   1Õ9 

Négros  tle  Palmares   il\o 

Outras  expedições  francesas.  ,   1 4 4 

Decadência  no   Korle   i5i 

Povoação  de  Piauhy   i55 

Povoação  de  Matto  Grosso   1,54 

Povoação  de  Goyaz   i56 

Minas  de  diamantes   i58 

Povoação  do  Rio   Grande  do  Sul   160 

Guerras  de  limite?   16» 

A  Capital  do  Brasil  passa  ao  Rio  de  Janeiro   i63 

Melhoramentos  no   Brasil.  .  ,   i65 

Os  Hespanhoes  tomão  S.  Catliarina   167 

Limites  definitivos   168 

Intento  revolucionário  em  Minas  Geraes   170 

Guerra  com  Buenos  Ayres   174 

QUINTA  ÉPOCA. 

C  BRASIL,  CMIO  SEDE  DA  MONARGHU  PORTUGUEZ .4.  1  ~>  y 

Liberdade  de  Commercio   178 

Conquista  de  Cayenna   179 

Patriótica  administração   180 

O  Brasil  elevado  a  Reino  ,   182 

Campanha  do  Sul   iS3 

Revolução  em  Pernambuco   189 

Cazamento  do  Príncipe  Real   19Õ 

Acçlamação  d"El  Rey  D.  João  VI   193 

Segundo  período  da  Campanha  do  Sul   194 

Wova  Constituição  politica   20*2 

Reunião  eleitoral  no  Rio  de  Janeiro  »  •  •  208 


Begresso  d'El  Rey  D.  João  VI   21  tf 

O  Príncipe  Real  D.  Pedro  fica  Regente  do  Brasil.  .  .  aio 

SEXTA  ÉPOCA. 

O  BRASIL    IMPÉRIO    CONSTITUCIONAL  INDEPEN- 
DENTE.,   ..........   211 

Reunião  da  Asscmbléa  Constituinte.   217 

Movimentos  em  differenles  Províncias.   21S 

Incorporação  de  Montevideo  ao  Brasii.  .......  227 

Dissolução  da    Constituinte   229 

Constituição  oflerecida  pelo  Imperador   2  5o 

Segunda  revolução  em  Pernambuco   201 

Altentado  na  Bahia  ,  .  .....  2Õ5 

Reconhecimento  da  Independência   206 

Nascimento  do  Príncipe  Imperial  D.  Pedro.  .  .  .  207 
O  imperador  dá  Constituição  a  Portugal,  e  abdica 

a  Coroa   d'aquelle  Reino.  ......   267 

Morte  da  Imperatriz   208 

Terceiro  período  da  campanha  do  Sul   208 

Matança  no  Rio  de  Janeiro   24S 

Fim  da  campanha  do  Sul,  e  separação  de  Monte- 
video  20 1 

Fm  DO  L\DEX» 


TYPOGftÀPHU  DE  GUEFFIER  E  C ,  RUA  DA  QUITANDA,  7. 


LISTA 


Doe  Srs.  Subecriptorrs  Vtóta  (Dbra. 


À.  Correa  Picanço  de  Faria 

A.  Pinlo  Duarte. 

A.  P.  Limpo  de  Abreo. 

A.  Xavier  de  Carvalho, 

A.  Jozé  de  Lessa. 

A.  Jozé  da  Veiga. 

A.  Jozé  do  A  marál. 

A.  Pereira  Rebouças. 

A.  Fernandes  da  Silveira. 

A.  Joaquim  de  Moura. 

A.  Pinto  Chichorro  de  Gama 

A.  Maria  de  .Moura 

A.  F.  P.  Holanda  Cavalcanti. 

A.  de  Souza  e  Oliveira. 

A.  de  Castro  Alves. 

A.  J.  Rangel  de  Vasconcello*. 

A.  Jozé  Rodrigues. 

A.  J.  de  Abreo  Guimarães. 

A.  Luiz  de  Araujo. 

A.  Simão  de  Souza. 

A.  de  Castro  Vianna. 

A.  de  Melo  Pinto. 

A.  J.  de  Caldas  Júnior. 


A  -  3.  de  Benavente  Belém. 

A.  J.  li  onça!  vos  Branco. 

A.  Pereira  Cardozo. 

A.  Jozé  Espíndola. 

A.  Jozé  Lopes  Alvito, 

A.  da  Silva  Pereira. 

A.  Alvez  Monteiro. 

A.  Machado  da  Cunha. 

A.  Tavares  Guerra. 

A.  de  Barros  Falcão. 

A.  3.  Moreira  Pinto. 

A.  Joaquim  Soares. 

A.  Mendes  de  Carvalho. 

A.  J.  Pereira  da  Silva. 

A.  de  Almeida  Feijó. 

A.  Jozé  da  Costa. 

A.  M.  de  Garfias  Bozado. 

A.  de  Souza  Loureiío. 

A-  J.  Galdino  de  Souza* 

A.  Mariisis  Lage. 

A.  Jozé  dos  Santos. 

A-  T.  Carvalho  Cunha. 

A.  Ribeiro  Fernandez  Foro  es. 

A.  Thimoteo  da  Costa. 

A.  J.  Vieira  Ramalho. 

A.  J.  Ferryira  Faria. 

A.  de  Miranda. 

A.  Leit«o  .de  Alrokta. 

A.  de  Saldanha  da  Cama. 

A.  da  Cunha  Barboza. 

A.  Pereira  Monteiro. 

A.  Alves  d.i  Silva  Pinto. 

A.  3.  dos  Santos  Barboza. 

A.  J.  Pinto  Percha  Botelho. 


/ 


A.  fioqne  de  Figueiredo. 

A.  Machado. 

A.  de  Macedo  Moniz. 

A.  Acláoli  Adeliano. 

A.  Crispiano  da  Cunha. 

A.  Pereira  Gomes. 

A.  da  Costa  Cunha  Lima, 

A.  Coelho  de  Melo. 

A.  Fernandes  Lima. 

A.  Dias  Monteiro. 

A.  Gomes  de  Liery. 

A.  Jozé  de  Castro. 

A.  Joaquim  Franco. 

A.  Jozé  Pinto. 

A.  Manuel  Madeira. 

A.  J.  de  Macedo  Barroso, 

A.  Alves  Pereira  Ribeiro  e  Ciro/?. 

A.  Benlo  de  Vassdmon. 

A.  J.  de  Carvalho  Siqueira. 

A.  Jozé  Tola. 

A.  de  Araujo  ('ornes. 

A.  Cypriaoo  de  Souza, 

A.  Maria  de  Limâ. 

A.  Esteves  Chaves. 

A-  Jozé  de  Araujo. 

A.  J.  Rodrigues  da  Silva. 

A.  J«»zé  Peixoto. 

A.  Maria  Baçker. 

A.  Dias  Ribeiro  Gasparinàfc 

A.  J.  Baptista  Camacho. 

A  Auguro  de  Almeida. 

Baivo  da  Saúde. 

Baruo  de  llapoãa. 

da  Traulinbcrg. 


iv 

Barão  rio  Rio  da  Prata.  i 

B.  Botelho  de  Sigueira.  i 

B.  Pereira  de  Vasconctllos»  j 

B.  Lobo  de  Souza.  i 

B.  Caetano  d' Almeida.  2 

B.  Ferreira  Maciel  Pinheiro  2 

B.  Alvaro  da  Silva.  j 

B.  M.  da  Silva  Abreo,  1 

B.  Antonio  da  Gosta.  1 

B.  Jozé  Pires.  \ 

B.  J.  Freitas  Guimarães»  5 

B.  Jozé  de  Araujo.  1 

B.  Pimenta  dAlbuquerque.  1 

B.  Wailentim.  i 

B.  J.  da  Cunha  Gusmão  e  Vasconcellos,  2 
Conde  de  Valença.  1 
Conde  de  Lages.  1 
Circulo  do  Commercio.  1 

C.  S.  de  Melo  e  Maios.  1 
C.  Jacob  de  Memoyer.  2 
C.  de  Assis.  1 
C.  Lopes  dArroxella.  1 
C  F.  de  Brito  e  Victoria,  1 
C.  de  Souza  Coelho.  1 
Ç,  Tenoria  de  Medeiros  (Dona)»  1 
C.  Slolmes.  1 
C.  JNareizo  Betaticourt  2 
G.  Leite  Pereira  de  Sá.  1 
C.  C.  Caldas  ^Alvarenga,  j 
C.  Jozé  de  Souza.  1 
C.  Corna z.  1 
C.  C.  M.  de  Brito.  1 
C.  J.  Ferreira  Alvim.  1 
G.  Luiz  da  Costa.  1 


V 

D.  Duarte  Silva. 
D.  Antonio  Feijó. 
D.  Jozé  Leopoldo. 
D.  Stephan. 

P.  Goines  Pereira  dos  Santos. 
D.  Jorges  Torres. 
D.  da  Silva  Tavares. 
D.  Gomez  Barrozo. 
D.  Sigaud. 

D.  A.  de  Moraes  Silva, 

E.  Forrei ra  da  Veiga. 

E.  F.  d<;  Verna  Magalhães. 

E.  de  Weyhe. 

E.  Leahy. 

E.  Duarte  Silva. 

E.  Antonio  da  Conceição. 

E.  Brocardo  de  Matos. 

E.  Emiliano  de  Medeiros. 

E.  Aprígio  da  Viega. 

E.  Jozé  Pereira. 

F.  de  Lima  e  Silva. 
F.  Xavier  Kapozo. 

F.  J.  Neves  Gouzagn. 

F.  A.  da  Silva  Bctancourt. 

F.  de  Paula  e  Vasconcellos. 

F.  do  Rego  Barros. 

F.  J.  Coelho  Neto. 

F.  de  Paula  e  Souza. 

F.  P.  dAlmeida  e  Albuquerque, 

F,  Jozé  de  Guimarães. 

F.  Cordeiro  da  Silva  Torres. 

F.  d'Araujo  Pereira  Couto. 

F.  Jozé  Pinto. 

F.  Firme  Monteiro. 


F.  Monteiro  de  Az-evedo.  fc 
F.  Carneiro  de  Magalhães  Bastos., 

F.  Xavier  Pereira,  | 

F.  S.  da  Paz  Furtado  de  Mendonça-.  % 

F.  de  Assis  Ribeiro.  $ 

F..  B.  Romeiro  Júnior.  i 

F.  Luiz  e  Souza.  * 

F.  Manuel  Serpa.  s 

F.  Antonio  dos  Sanfos»,  \ 

F.  J.  drAraujo  Jaiobá.  % 

F.  Dias  Cabral,  i 

F.  Lopes  dos  Santos.  i 

F.  du  Assis  Chagas.  ^ 

F..  de  Paula  Barros.  i 

F.  dos  Santos  Pinto,  i. 

Franc.  Carneiro  de  Campos  S 

Fred.  Carneiro  de  Campos»  2 

F.  Borges  de  Barros.  i 

F.  Luiz  do  Livramento.  i 

F.  Vieira  de  Castro.  i 

F.  de  Paula  Silveira.  i 

F.  dVihneida  Varelía.  i 

F.  J.  Damasceno  Rezado»  i 

F.  Machado  de  Souza.  i 

F.  Rodriguez  Silva.  i 

F.  d'Albuqaerque  Montenegro  Cavalcanti,  1 

E.  A.  da  Gama  Freitas.  i 

F.  Alves  de  Pauia.  1 
F.  Antonio  Pereira*  i 
F.  de  Paula  Ribeiro»  2 
F.  Tavares  de  Miranda.  2 
F.  Antonio  Malheiro^  1 
F.  Jozé  Ribeiro.  i 
F.  Eugénio  Tavares  % 


Ml) 

F.  Ignacio  do  Valle. 

F.  de  Oliveira  e  Macedo. 

F.  Xavier  de  Abreo. 

F.  X.  Monteiro  da  Franca. 

F.  Jozé  do  Rozario. 

F.  X.  Monteiro  da  Franca  Júnior» 

Mugusío  Neiva, 
ozé  Meira. 
F.  Antonio  da  Silva. 
F.  Alves  de  Souza  Carvalho. 
¥.  Xavier  de  Andrade. 
F.  de  Souza  Maria. 
F.  J.  da  Silva  Guimarães. 
F.  Thomaz  Pinheiro. 
F.  Piulo  dos  Ueis  Marcarinhas. 
F.  Rodrigues  Nunes. 

E.  P.  Pinto  França. 

F.  da  Silva  Leite. 

F.  Vieira  Fogaça  Corte  Real. 

F.  de  Paula  Pacheco. 

F.  J.  da  Silva  Retaneourt. 

F.  Adrião  Pereira. 

F.  Ferreira  de  Assiz. 

F.  Gomes  de  Araujo. 

F.  B.  Dias  da  Silva. 

F.  de  Paula  e  Silva. 

F.  M.  C.  Magano. 

F.  Ferreira  liamos. 

F.  Alvez  Pereira  Ribeiro  Cirne. 

G.  Cancio  de  Paula. 

G.  G.  Monteiro  de  Mendonça. 
G.  Mestwcrdt. 
G.  Bormann. 
G.  Suckow. 


viij 

G.  J.  Nunes  Furtado. 
G.  Nunes  de  Melo. 

G.  Francisco  de  Miranda. 
Gueffier  e  Comp. 

II.  J.  da  Cunha  Grugel  do  Amaral. 

H.  J.  de  Barros  Pain. 
H.-fl.  Carneiro  Leão. 
H.  Haroczinsky. 

H.  Lackmann. 
II.  Etur. 

H.  de  Barros  Mafra. 
H.  J  da  Silva  Passos* 
H.  Anlonio  Pinto. 

H.  Terrisse. 

I.  d'Almeida  Fortuna, 
I.  Joaquim  Passos. 

I.  Pereira  da  Costa. 

I.  Antonio  Moreira. 

J.  Ferreira  Foares. 

I.  F.  de  Paula  Rodrigues. 

I.  de  S.  Thereza  Brito. 

I.  Jozé  Matla. 

J.  Alvez  de  Azevedo. 

J.  Jozé  de  Carvalho. 

í.  A  dos  Santos  Xavier. 

J.  Martini  Lourenço  Yiauna. 

J.   Lino  Coutinho. 

J.  F.  Alves  Branco  Muniz  Barreto. 

J.  Jozé  Justiniano. 

J.  dos  Santos  Mendes, 

J.  da  Silva  e  Oliveira. 

J.  A.  de  Freitas  Dantas. 

J.  B.  de  Araujo  Barboza. 

I.  Marques  Baptista  Leão. 


is 

J.  F.  de  Figueiredo  Rocha. 
J.  M.  da  Silva  Beiancourfc. 
J.  J.  da  Silva  Lisboa. 
J.  Duarte  Nunes. 
J.  da  Costa  Carvalho. 
t    Marcelino  de  Brito. 

»i  Vieira  Souto. 
lOnçalves  Ledo. 
X  fie  Oliveira  Alvares. 
J.  Custodio  Dias. 
J.  A.  da  Silva  Maia. 
J.  Rebelo  de  Souza  Pereira, 
J.  B.  Leite  Ferreira  de  Melo, 
.7.  Fernandes  Vasconcello»» 
J.  Clemente  Pereira. 
J.  M.  Carneiro  da  Cunha. 
J.  Ribeiro  Soares  da  Rocha. 
J.  Correa  Pacheco. 
J.  Antonio  de  Lemos. 
J.  J.  Lopes  Mendes  Ribeiro* 
.T.  C.  de  Miranda  Ribeiro. 
J.  Martiniano  de  Alencar. 
J.  A.  dos  Santos  Seguro. 
J.  Vicente  Gomes. 
J.  Joaquim  Velho. 
J.  Antonio  de  Andrade. 
J.  Antonio  Castrioto. 
J.  Teixeira  de  Azevedo  Lira, 
J.  Maria  Mascaranhas. 
J.  F.  Gomes  de  S.  Anna. 
J.  A.  Pereira  de  Souza. 
J.  Dias  da  Sitva  Guimarães. 
J.  da  Co.<la  Silva. 
J.  F.  de  Souza  Lotelho. 


X 


X  E*  dos  Santos  Touríuho. 

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T     TIaK*»1a  í\  Âlrvw*iríís 

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J.  de  Melo  6  Vasconcefíos* 

T     í)Ami n crii p<  /Ía  fervam  n 

£ 

J«  Vicente  de  Araujo* 

% 

J*  Joaquim  Ribeiro. 

J.  Bernardo  de  Arroxciía. 

J,  Baptista  de  Araujo. 

J*  Fernandes  de  Oliveira  Santos. 

1 

J.  E«  Pereira  Collaco  Amado. 

1 

J*    A*    Pereira  da  Silva* 

1 

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J.  Joze  da  Silva. 

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1 

T      fnn  ítiii  iri  niii*nriirirt 

J.  Machado  da  Cunha. 

1. 

J.   Ferreira  Chaves. 

J.  Antonio  Vieira. 

1 

J.  de  íjima  Brito. 

J.  Gomes  de  Souza. 

l 

J.  Joaquim  de  Souza. 

l 

x 
i 

«1.     li  il  lílUk  Í.ILL  S-ilLLá<l» 

l 

J.  Teixeira  Barboza. 

Tl 

J.  I.  de  Carvalho  Mendonca. 

J.  Baptista  d* Alencastro. 

\ 

J.  Luiz  Barboza. 

1 

J.  de  Oliveira  e  Silva. 

1 

J.  Xavier  Garcia  d'Almeida. 

l 

Jf  Teixeira  da  Matta  Bacellár. 

l 

J.  Ignacio  Borges. 

1 

J.  G.  Ferreira  de  Aguiar. 

J.  Furtado  de  Mendonça. 

J,  Leite  Pacheco. 

J.  F.  de  Souza  Coutinho. 

J.  Moreira  da  Silva. 

J.  Ignacio  da  Silveira. 

J.  I.  de  Macedo  Campos. 

^^^la  Costa  Correa. 

vimor.é  Coelho. 

J.  da  Costa  Pereira. 

J.  Caetano  da  Silva. 

J.  da  Cunha  Lobo. 

J.  Cardozo  Vieira. 

J.  Maria  Pinto. 

J.  Marques  Lisboa. 

J.  Prestes  Barreto  da  Fontour*. 

J.  L.  de  Lima  júnior. 

J.  Antonio  de  Medeiros. 

Joaq.  F.  de  Souza  Couiinh». 

J.  A.  Rodrigues  Pereira. 

J.  Antonio  de  Lima. 

J.  Luiz  do  Livramento. 

J.  H.  de  Souza  Medeiros. 

J.  da  Costa  Bastos. 

J.  Gonçalves  da  Silva  Peixoto» 

J.  A.  da  Silva  Monteiro. 

J.  de  S.  Anna  Campos. 

J.  F.  de  Assis  Passos. 

J.  Tibério  Capistrano. 

J.  Feliciano  de  Proença, 

J.  Pedro  da  Veiga.  1 

J.  Fernandes  da  Torre. 

J.  Joaquim  Borges. 

J.  Domingues  Maacorvo. 

J.  Dias  Camargo. 


J.  Jozé  de  Carvalho. 

1 

J.  Silveira  do  Pitlár. 

1 

J.  Joaquim  de  Faria. 

1 

3.  Miller. 

J.  J.  de  Lima  e  Silva. 

1 

J.  A.  Diniz  de  Moura. 

1 

J.  de  Santiago  Mendonça» 

J.  de  Saules. 

«Si 

J.  de  Miranda  Ribeiro, 

1 

J.  Baptista  Marcello. 

1 

J.  Maria  de  Lacerda. 

1 

J.  Vieira  de  Castro. 

1 

J.  Luiz  Torres. 

1 

J.  Coelho  Guimarães. 

J.  L.  Barros  Figueiredo» 

J.  J.  Gonçalves  Vianna. 

1 

3.  Francisco  de  Bellegarde. 

J.  Américo. 

1 

J.  Julio  da  Resurrcição. 

1 

J.  Jozé  de  Araujo. 

1 

J.  Ricardo. 

1 

J.  Estevão  de  Siqueira» 

1 

J.  n.  da  Silva  Marques. 

1 

J.  Machado  de  Lima. 

1 

J.  Antonio  Xavier. 

1 

J.  Antonio  Guimarães. 

1 

J.  Joaquim  Dias. 

1 

J.  Goncalves  dos  Santos  Lim«. 

1 

3.  de  Saldanha  da  Gama. 

4 

J,  M.  Correa  dv,'  Sá. 

4 

J.  ile  A>>sis  Mascaranhas. 

a 

J.  Pinto  de  Miranda. 

4 

J.  M.  da  Silveira  Sampaio» 

i 

i.  Joaquim  da  Rocha, 

xiij 

J.  Caetano  de  Barros. 
J.  V.  de  Amorim  Bezerra. 
J.  da  Silveira  Sampaio. 
J.  Alvez  Massa. 

J.  Ribeiro  dos  Santos  Monteiro. 

J.  Pereira  da  Silva  Vidal. 

J.  J^Borges  Monteiro. 

J.  J.  Luiz  de  Souza. 

J.  Baptista  Avondano. 

J.  F.  de  Seixas  Machado. 

J.  Joaquim  da  Silva. 

J.  F.  Xavier  de  Caldas. 

J.  Frautisco  de  Alaíde* 

J.  Antonio  Baptista. 

J.  Justiniano  da  Silva. 

J.  Jozó  da  Silva. 

J.  Francisco  Barreto. 

J.  J.   Innocencio  Pogge. 

J.  Antonio  Gonçalves. 

J.  Alves  Sanches  Massa» 

J.  Maria  Correa. 

J.  L.  de  Souza  Rangel, 

J.  Xavier  Vida}. 

J.  ISunes  Pereira. 

J.  da  Encarnação. 

J.  Napomuceno  Borges. 

J.  I.  Ponce  de  Lion. 

J.  Sabino  Monteiro. 

J.  Gonçalves  de  Medeiros. 

J.  Rodriguez  Gonçalves  Vianna» 

J.  A.  Lopes  da  Silveira. 

J.  L.  Pereira  Lima. 

J.  Sutero  da  Roza. 

J.  Jozé  da  Veiga. 


riiv 

Ventura  Rodrigues, 
J.  Máximo  do  Prado-, 
p.  Rodrigues  Silva. 
J,  Jozé  de  Faria. 
J.  Pinto  Neto  dos  Reis. 
J,  B.  de  Andrade  e  Almada. 
J.  F.  de  Azevedo  Lima. 
J.  B.  de  Souza  Cabral. 
J.  Martins  Pinheiro. 
3.  Pereira  da  Silva  Porto» 
J.  Cláudio  de  Melo. 
J.  Alves  Branco. 
J.  Plácido  de  Betancourr, 
J,  Baptista  de  Souza. 
J.  C.  de  Carvalho  Salzedas. 
I.  J.  Gomes  da  Silva  Castro. 
$.  Fernandes  da  Cunha  Pereira. 
J.  Jozé  Francisca. 
J,  Leite  Guimarães. 
J.  Monteiro  d:e  Figueiredo  Grave 
J.  Domingues  Valieng©. 
i.  Ferreira  Tinoco. 
J.  J.  Francisco  da  Cruz. 
J.  Francisco  Vianna. 

Gomes  Sobral.  , 
1.  F.  da  Cruz  Peixoto» 
J.  A.  da  Silva  Costa*, 
J.  Baptista  Coqueiro, 
Jv  Jozé  Espinola, 
J.  J.  Pereira  de  Carvalho» 
J,  Piulo  Martinz, 
J,  Manuel  do  Rosana, 
J,  Joaquim  dos  Reis. 
ir  da  Gosta  Matos, 


XV 

J.  Layola  da  Ronda. 

J.  Gantlic  Ley. 

J.  J.  de  Melo  Torres. 

J.  13.  Froes  Silva. 

J.  Christiana  Silva. 

J,  Jozé  Lousada. 

J.  Napomuceno  de  Asm** 

J.  Gomes  de  Araujo. 

J.  Beuto  da  Sá. 

J.  Pessanha. 

J.  Manuel  Ferreira. 

J.  J.  dos  Reis. 

J.  de  Victoria  Soares  d' Andrea. 
J.  Hypulito  de  Araujo. 
Joly  e  Co m p. 
J.  D.  Esteive  da  Silva. 
T.  X.  Garcia  de  Almeida. 
J.  R.  de  Abreo  Lima. 
J.  Joaquim  da  Fonseca. 
J.  G.  de  Oliveira  Guimarães. 
J.  P.  Pereira  Pacheco. 


J.  Soares  de  Lima  e  Mota.  i 

J.  Duarte  do  Amaral.  4 

J.  J.  de  Figueiredo  e  Vasconcellos.  i 

J.  Marques  de  Gouvea.  i 

J.  Baptista  Cosmelli.  1 

J.  M.  Vieira  de  Souza  Pereira.  i 

J.  Jozé  Portugal.  I 

J.  Tiburcio  Pamplona.  4 
J.  Rodrigues  de  Oliveira,  pela  Cidade  de  Portalegre.  8o 

J.  G.  Borges  da  Silva.  l 
J.  J.  d'01iveira  Guimarães,  pela  Villa  do  Rio  Grande.  38 

J.  Pinto  Reis.  i 

L.  A.  Muniz  dos  Santos  Lobo.  l 


XV  j 

L.  F.  de  Holanda  Cavalcanti» 

L.  de  Souza  Godinho. 

L.  Jozé  de  Lima. 

L.  A.  Alvez  Monteiro. 

L.  C.  Cardozo  Cajueiro. 

L.  Jozé  de  Oliveira. 

L   J.  Ducfue  Estrada  Furtado  de  Mendonça. 
Ij.  M.  de  Jezus  e  Almeida. 
L.  Eloy  de  Medeiros. 
L.  M.  Alvez  de  Almeida. 
L.  Jozé  da  Cosia. 

L.  de  Menezes  Vasconcellos  Drumond. 

L.  Mendes  Ribeiro. 

L.  J.  de  Souza. 

L.  A.  do  Rego  Faria. 

L.  Felix  de  Vasconcellos. 

L.  Vicente  Boige. 

L.  Manuel  de  Lima. 

L.  Antonio  de  Siqueira. 

L.  de  Matos  Pimenta. 

L.  J.  da  Rocha. 

L.  Antonio  de  Carvalho. 

L.  J.  C.  Pereira  do  Lago. 

L.  Manuel  de  Carvalho. 

Marquez  de  Caravellas. 

Marquez  de  S.  Jo«o  da  Palma, 

Marquez  de  Baependy. 

Marquez  de  Canlagalo. 

M.  de  Azevedo  Muques. 

M.  de  Frias  e  Vasconcellos. 

M.  Maria  do  Amaral. 

M.  F.  Ribeiro  de  Andrada. 

M.  Odorico  Mendes. 

M.  J.  de  Araujo  Franco. 


xvi] 

M.  do  Nascimento  Castro  e  Silra. 

M.  Pacheco  Pimcnl.il. 

M.  Zeferino  dos  Santos. 

M.  dos  Santos  Marlinz  Vellasques. 

M.  A.  Henriques  Tota. 

M.  Manco  Ferreira  de  Mesquita. 

M.  Mendes  da  Fonceca. 

M.  Vellozo  da  Silveira  Nóbrega. 

M.  Messias  de  Leão. 

M.  Rodrigues  Mocha  Poiiella. 

M.  J.  llangel. 

M.  Lei.  o  Saraiva. 

M.  Tavares  Bastos. 

M.  do  Nascimento  Pontes. 

M.  do  Rozario  Tavares. 

M  .  Ignacio  do  Rego. 

M-  Gomes  de  Amorim. 

M.  Francisco  Lopes. 

M.  Coelho  Moreira, 

M.  Archanjo  de  Meio. 

M.  Apolinário  de  Araujo. 
Jozé  da  Cunha. 

M.  [.  í!e  Carvalho  e  Mendonça. 

M.  Ferreira  de  Andrade. 

M.  Antonio  Brício. 

M.  C.  de  Almeida  e  Albuquerque. 

M.  A,  Monteiro  de  Barros. 

M.  Carneiro  de  Campos. 

M.  de  Souza  Melo  e  Alvim. 

M.  Pereira  He  Araujo  Carreto. 

M.  Alves  de  Toledo. 

M.  A.  da  Silva  Mafra. 

M.  Jozé  de  Melo. 

Al.  Vicente  de  Sampaio. 


M.  Antonio  da  Silva.  • 

M.  Cypriano  de  Freitas. 

M.  Coelho  da  Silva. 

M.  Rodrigues  de  Amorim. 

M.  Jozé  de  Campos. 

M.  Moreira  Lirio. 

M.  F.  Corrêa  Júnior. 

M.  Antonio  Pereira.  . 

M.  J.  da  Cunha  Betancouit. 

M.  Pease. 

M.  Jozc  Ancelmo. 

M.  J.  Alves  de  Miranda. 

M.  Freire  de  Andrade. 

M.  Tavares  da  Silva  Coutinho. 

M.  Rodrigues  dos  Santos. 

M.  João  Pinheiro. 

M.  da  Costa  Franco  Brasileiro.. 

M.  Joaquim  de  Almeida. 

M.  J.  Pereira  da  Silva. 

M.  do  Monlecarmello  Brayner. 

M,  Pereire  de  Araujo. 

M.  da  Costa  Agra. 

í/l.  da  Gosta  Ramos. 

M.  Joaquim  da  Gama. 

M.  Rodrigues  de  Paiva. 

M.  Garcia  do  Amaral. 

M.  da  Costa  Lima. 

M.  Pinto  Neto  Cruz. 

M.  J  Pereira  Baptista. 

M.  de  Brito  Coutinho.  . 

M.  Miguel  Boom. 

M.  Jozé  Machado. 

M.  de  Souza  Brito  Correa  Calda 

M.  Pereira  de  Carvalho.  a 


xix 

Al.  Antenio  Gonçalves. 

M.  J.  Pereira  Basto. 

Al.  Francisco  de  Carvalho.. 

M.  Jannario  Cordeiro. 

M»,  Joaqnim  Pires. 

M.  Gomes  Barroso. 

M.  A.  lUbeiro  de  Vasconcellos* 

Al.  Rodrigues  Candido  Peixoto- 

H.  Joaquim  Pardal. 

M.  Gomes  de  Andrade. 

Al.  A.  A.  C.  Moulaury. 

Al.  Joaquim  de  Siqueira. 

Al-  Francisco  Barbosa. 

Al.  Cypriano  de  Freitas. 

Al.  Archaujo  Pereira. 

i\.  Tolcnlino  de  Vasconcellcs. 

K.  Gomes  da  Silva  e  Souza. 

O.  Saraiva  de  Carvalho. 

P.  Antonio  da  Costa. 

P.  J.  de  Almeida  e  Silva. 

P.  J.  da  Costa  Barros. 

P.  Francisco  da  Cunha. 

P.  A.  de  Sepulveda  Evcrard. 

P.  C.  Bolim  Filho. 

P.  Antonio  Mouhos. 

P.  do  Amaral  e  Silva. 

P.  Barbosa  da  Silva. 

P.  Coelho  d'Alirya. 

P.  M.  de  Azevedo  Soule. 

P.  Diniz. 

P.  II.  de  Oliveira  Mascaranna& 
Q.  Ramos  Zotto. 
Religiosos  Bcnediclinos, 
Religiosos  Carmelitas. 


XX 

R.  J.  da  Cunha  Mattos. 

R.  Tobias  cTAguiár. 

R.  Mendes  de  Carvalho» 

R.  Roseis. 

R.  Filippe  Lobato. 

S.  Jozé  Maciel. 

S.  J.  A.  Pereira  do  Lago. 

S.  Ferreira  Barboza. 

S.  Jozé  de  Abreo. 

S.  F.  de  Oliveira  Chagas* 

S.  J.  de  Souza  Lima. 

S.  Navarro  de  Andrade, 

S.  Jozé  Henriques. 

S.  da  Cosia  Cirne, 

S.  Jozé  de  Souza. 

S.  Conçalves  Barrozo, 

S.  Domingues  Coelho. 

S.  M.  P.  de  Lacerda. 

S  J  da  Silva  Corado. 

S.  Tertuliano  Castelbranco, 

T.  de  Mello. 

T.  da  França  Xavier  Brun. 

T.  J.  Datiias  Correa. 

T.  Correa  Accioli. 

T.  de  Aquino  de  Las  Casas, 

T.  Gomes  de  Azevedo. 

T.  A.  Gonçalves  d«  Medeiros, 

T.  S,  Pereira  do  Lago. 

Visconde  da  Praia  Grande. 

Visconde  dc  Caethé. 

Visconde  dc  Congonhas. 

V.  Delgado  Freire. 

V.  Ferr  ara  de  Castro  e  Silva, 

Y.  Henriques  de  Rczead*» 


V.  J.  Marinho  Pereira  Falhares. 

V.  Henrique  de  Miranda. 

V.  P.  dc  Oliveira  Villas  Boa«. 

V.  J.  Gomes  Carini  lio. 

V.  do  llego  Toscano  Barreio. 

V.  Tliomaz  dos  Saalos. 

V.  Marques  Lisboa. 

V.  Leonel  Viclor. 

V.  Anlonio  da  Cosia. 

Z.  Pimentel  Moreira  Freir». 


Fíw  i>\  Lisi*.